segunda-feira, julho 12, 2010

No Uruguai também há cinema...

Cinema do Uruguai? É verdade. Com grande atraso, mas também muito interessante — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 de Julho), com o título 'Uma história do Uruguai'.

Mais uma vez, torna-se inevitável referir que o mercado cinematográfico continua a revelar desequilíbrios graves. Este Whisky, por exemplo, vem do Uruguai (resultando de uma coprodução com Argentina, Alemanha e Espanha) e chega-nos com seis anos de atraso: ganhou o prémio da crítica (FIPRESCI) no Festival de Cannes de 2004 e, no ano seguinte, arrebatou, em Espanha, o Goya para melhor filme estrangeiro em língua espanhola (aliás, como complemento, surge A Dama da Lapa, de Joana Toste, curta-metragem de animação portuguesa produzida também em 2004).
Escusado será dizer que nada disto diminui o mérito de quem distribui e exibe os filmes, mas também não resolve um problema que vai afectando todos os agentes do mercado: o alheamento de muitas estreias em relação às dinâmicas internacionais da actualidade cinematográfica. Daí a interrogação que se renova: o que é que esses agentes, sobretudo os mais poderosos, estão a fazer para chegar a todos os nichos de público e não afogar as salas com o marketing sempre igual dos blockbusters?
Whisky é uma curiosa abordagem do quotidiano que não se satisfaz com nenhum estereótipo, seja ele dramático ou moral. Trata-se, aliás, de uma história bizarra cuja personagem central, Jacobo (Andrés Pazos), proprietário de uma pequena fábrica de meias, em Montevideo, tenta inventar uma “identidade”: quando o seu irmão Herman (Jorge Bolani) o vem visitar, depois de muitos anos de silêncio, Jacobo pede à encarregada, Marta (Mirella Pascual), que se faça passar por sua mulher...
Há uma ironia muito amarga que faz lembrar os ambientes de alguns dramas (ou comédias) do cinema clássico italiano. Em todo o caso, o filme não anda à procura de cauções: impõe-se como uma narrativa que acredita naquilo que filma e, sobretudo, reconhece que nenhuma descrição meramente pitoresca pode dar conta da complexidade das relações humanas. Aspecto a não menosprezar: no seu minimalismo austero, os três actores são um exemplo modelar de subtileza e capacidade de sugestão.