quarta-feira, dezembro 10, 2008

Discos da semana, 8 de Dezembro

O ano 2008 foi particularmente interessante para a música portuguesa. Não só revelou a melhor colheita de discos desde 2004, como reactivou a relação dos músicos e ouvintes com a língua. Há muito que se não escutavam tantas e tão boas propostas pop/rock cantadas em português. E nada como fechar o ano com um álbum de uma das mais centrais figuras da história pop/rock portuguesa. Há muito que parecia ser chegado o momento para uma estreia a solo de Rui Reininho, voz e pilar estrutural da identidade pop dos GNR desde 1982. Os discos menos felizes que o grupo editou nos últimos anos sublinharam a ideia. Mas convenhamos que Reininho não podia ter escolhido melhor momento para editar em nome próprio. E Companhia das Índias assinala agora, com uma ementa gourmet, a recta final de um ano que fez história. O disco assenta num cardápio versátil de colaboradores, cada qual trazendo ao alinhamento traços de personalidade que se projectam em canções que, todavia, não duvidam que o protagonista, afinal, é Rui Reininho (que assina todas as letras dos inéditos). João Pedro Coimbra e Armando Teixeira, com quem já havia colaborado, garantem ao alinhamento a sua face pop mais evidente, frequentemente explorando ferramentas electrónicas, e revelando agradáveis surpresas em terreno relativamente inexplorado pela voz de Reininho (ressalva para Dr. Optimista, que parece evocar memórias dos GNR de inícios de 80). Paulo Furtado não esconde a sua presença em Yoko Mono. Slimmy surpreende no magnífico Morremos a Rir. De Cazuza redescobre-se elegância em Faz Parte do Meu Show. Rodrigo Leão oferece à “voz” um cenário teatral que pede mais colaborações no futuro. Alexandre Soares e Margarida Pinto marcam também presença, mas em canções sem o viço pop dos outros momentos do disco. Nas palavras (e na voz) moram as marcas de identidade que permitem o traçar de ligações com a obra (inegavelmente pessoal) de Rui Reininho. Como nos mostra há anos, através dos GNR, é letrista invulgarmente inspirado. Para single “aperitivo” foi escolhida uma versão do eurovisivo Bem Bom das Doce que deixa a milhas o original. O álbum guarda depois acepipes mais doces ainda. Há muito que se não escutava uma receita pop tão estimulante por estes lados!
Rui Reininho
“Companhia das Índias”
Sony
5 / 5
Para ouvir: MySpace

Tendo já negado notícias que falavam da sua eventual separação, o colectivo Field Music esteve afinal bem activo este ano, se bem que através de projectos individuais. Depois de um álbum por David Brewis (como School Of Language), o seu irmão, Peter, editou um outro disco, sob o nome The Weel That Was. Um álbum lançado em meados de Agosto, então meio perdido em tempo de férias, mas nem por isso esquecido. Trata-se de um disco pop elegante, sóbrio, claramente descendente da escola XTC, uma das mais distintas e celebradas da tradição britânica. De alinhamento curto (somando oito canções e contidos 32 minutos), capaz portanto de manter viva a atenção do ouvinte de fio a pavio, The Week Thar Was é um disco onde o sentido de eficácia da canção pop mostra segura capacidade de diálogo com desejos formais arty. Art pop, portanto, ocasionalmente piscando o olho a genéticas do progressivo, sem contudo perder nunca o rumo dos acontecimentos, a concisão das ideias acabando por reger as canções. Sombrio nos ambientes, o álbum propõe pequenas histórias, que chegaram já a merecer comparações com a escrita de Paul Auster. As canções que constituem o disco foram compostas num curto período de tempo, em finais de 2007. Peter Brewis tinha acabado de deitar fora o televisor, entregando o seu tempo à reflexão, num cenário onde a solidão e a melancolia que naturalmente convoca entraram em cena. O resultado escuta-se num dos mais bem estruturados entre os discos pop de 2008. Um álbum que alia a vontade de comunicar à capacidade de contar histórias, que compreende a forma da canção, que entende que a torna mais firme se respeitar uma ideia de arquitectura, apostando depois num trabalho de arranjos que, desafiante e capaz do inesperado, nunca perde o sentido de precisão, contenção e eloquência que paira sobre todo o projecto.
The Week That Was
“The Week That Was”

Memphis Industries / Compact Records
4 / 5
Para ouvir: MySpace

Marianne Faithfull regressa com um álbum que, tal como os seus três discos anteriores – Vagabond Ways (2000), Kissin Time (2002) e Before The Poison (2004) – vive de colaborações. Porém, em vez de desafiar figuras de primeiro plano da cena pop/rock actual (como Nick Cave, Daniel Lanois, PJ Harvey, Beck, Jarvis Cocker ou Damon Albarn) a assinar para si distintas colecções de inéditos, em Easy Come Easy Go apresenta-se frente a 18 clássicos (ou nem por isso) que reinventa em novas versões. A lista de proveniência das canções é, no mínimo, versátil e cativante, passando por nomes como os de Dolly Parton, Sarah Vaughan, Brian Eno, Traffic, Leonard Bernstein, Black Reebel Mororcycle Club ou Morrissey... Não menos interessante é o elenco de colaboradores que convocou, que vão de parceiros já conhecidos a novas “descobertas”, reunindo assim em volta de um mesmo disco nomes como os de Rufus Wainwright, Nick Cave, Jarvis Cocker, Keith Richards, Cat Power ou Antony Hegarty... E a eles podemos juntar a figura de Hal Wilner, velho parceiro desde os dias de Strange Weather (1987), “maestro” de certa forma responsável pela ordem final da coisa. Num tabuleiro de xadrez, Easy Come Easy Go parece daqueles jogos com as peças certas nas casas certas. Porém, o disco não só mostra sinais de uma certa falta de ginástica na construção das versões como revela uma má estratégia de utilização das peças. A maioria dos convidados é relegada para discretas participações que por vezes pouco vão além dos refrões. É certo que o álbum não foi nunca apresentado como um disco de duetos, mas, depois de olhar para a ficha técnica e de escutar os dois CD, pensamos para que servem tantos coristas de luxo? Há momentos interessantes, é verdade. Vários até, uma vez mais sublinhando a teatralidade invulgar da voz adulta de Marianne Faithfull. Mas perante tamanha equipa de canções e nomes, o álbum fica bem aquém das suas potencialidades. É pena!
Marianne Faithfull
“Easy Come Easy Go”
Naive / Popstock
3 / 5
Para ouvir: MySpace

É no mínimo saudável ver um músico a propor tudo menos o que, uns anos antes, dele se poderia esperar. Kanye West é decididamente uma das figuras maiores do hip hop da presente década. Mas desde sempre uma “estrela” com fortes marcas de personalidade, por vezes talvez inesperada, acabando o novo álbum por assentar, mesmo que surpreendente, num percurso que vinha progressivamente a demonstrar um interesse cada vez maior pela canção e pela recuperação de estímulos colhidos em memórias da música pop. O confronto com a perda terá motivado (ou acelerado) a mutação. Mas 808s & Heartbreak não é apenas um álbum terapêutico contra a dor. É uma ousada aventura em terreno relativamente desconhecido, sobretudo no trabalho vocal, abraçando o canto onde outrora o rap era protagonista. As premissas eram, no mínimo interessantes. Mas a sua concretização está longe de atingir os mesmos feitos no decurso de todo o alinhamento (que tem clímax no belíssimo Coldest Winter, com esqueleto e alma emprestada pelo quase esquecido Memories Fade, dos Tears For Fears). A opção pelo recurso ao auto-tune é perfeitamente aceitável declaração de estilo, não só garantindo “rede” para uma voz ainda a aprender a voar, mas conferindo às canções um sentido de unidade colectiva. Apesar de revelar belas canções capazes de sobreviver sobre uma paleta minimalista de recursos, mantendo firme uma atmosfera de melancolia, o disco resvala ocasionalmente para modelos de produção r&b mainstream dos tempos que correm, que fintam aqui e ali a ousadia inicial do projecto. Desviando-o para terreno tão seguro que, afinal, quase parece inofensivo...
Kanye West
“808s & Heartbreak”
Roc-a-Fella / Universal
3 / 5
Para ouvir: MySpace

A capa do novo álbum dos Of Montreal é mais um exemplo de boa ideia de design ao serviço do formato do CD... Desliza, depois abre, desdobra e volta a desdobrar, e por aí adiante... Mas o que há de intrigante na capa do novo álbum de Of Montreal acaba por não ter real expressão na música que, depois, o disco nos mostra... Há, contudo, um indício que ali sugere o que nos espera lá dentro: a vontade de surpreender, a cada instante, a todo o custo. E tal parece ter sido a vontade de “encantar” o ouvinte que Kevin Barnes e companhia acabaram com uma montanha de caos nas mãos. Como aqueles fios enleados que levam horas a separar, as canções de Skeletal Lamping são difíceis de contemplar às primeiras audições. O que não é necessariamente mau, antes pelo contrário! Mas onde inicialmente poderia morar uma (estimulante) perplexidade e consequente vontade em descobrir e assimilar o que por aqui se escuta, no final somos forçados a reconhecer que sob o baralhar das formas pouco ou quase nada realmente acontece. O anterior (e magistral) Hissing Fauna (Are You The Destroyer)? mostrara semelhante opção formal, reflectindo sobre o fragmentário, o inesperado, mas almejando no final um incrível sentido de coesão plástica. Em Skeletal Lamping, sem querer mudar muito os ingredientes em jogo (apostando talvez mais na voz em falsete), Kevin Barnes acabou num perfeito desnorte. Apesar de ocasionais instantes de iluminação, demonstrando que pode, quando quer, ser entusiasmante reinventor pop, deixou que o feitiço se voltasse contra o feiticeiro. O puzzle que quis criar, feito de pedaços de pop açucarada, Prince, glam rock, delírio barroco e psicadelismo, ficou por arrumar. Saboreiam-se algumas das peças... Mas o todo deixa muito a desejar.
Of Montreal
“Skeletal Lamping”

Polyvinyl
2 / 5
Para ouvir: MySpace


Também esta semana:
Neil Young (live), The Smiths (caixa), Razorlight, Pavement (reedição) The Kinks (caixa) , Isobel Campbell (EP), Mark Kozelek, Johann Johansson

Brevemente:
Dezembro: Frank Sinatra, April March, Wombats , Dakota Suite, Yelle (remix), Shirley Bassey (reedições), Elvis Presley (reedições), Hot Chip + Robert Wyatt, Toots & The Maytals
Janeiro: Franz Ferdinand, Antony & The Johnsons, Animal Collective, FSOL, Benji Hughes, Doismileoito