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Poderia ser um mero exercício de pitoresco, explorando a mútua estranheza entre cenário e personagens. Mas não, é mesmo o contrário disso: um quadro vivo, em planos de austera geometria e cores hiper-realistas, que nos faz descobrir uma família (pai, mãe e filho) que vive do comércio local, cultivando a nostalgia do país natal, tudo temperado com o ruído e o sangue de filmes de Hong Kong protagonizados por Chow Yun-Fat.
Sente-se aqui, inevitavelmente, a precisão maníaca e a tensão dramática de O Fantasma (2000) e Odete (2005), longas-metragens de João Pedro Rodrigues (a cuja concepção cenográfica já estava ligado João Rui Guerra da Mata). Sente-se, acima de tudo, a ambição de um cinema que rejeita qualquer facilidade telenovelesca, abrindo os olhos (e os ouvidos) para a complexidade e riqueza de um quotidiano de muitos contrastes. China, China não é um filme português em formato pequeno. É tão só um grande filme que dura 19 minutos.