Utópico? Distópico? Com o tema Human, Brandi Carlile baralha (e volta e dar as regras) das nossas lendas graças a um sedutor teledisco apocalíptico, ma non troppo, assinado por Floria Sigismondi (autora, por exemplo, de Dead Man Walking, de David Bowie) — é uma das canções de Returning to Myself, oitavo álbum de estúdio da cantora norte-americana.
sound + vision
sábado, novembro 29, 2025
sexta-feira, novembro 28, 2025
In memoriam
— Udo Kier (1944 - 2025)
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| Carne para Frankenstein (1973) |
Actor de múltiplas transfigurações, vividas a partir de um pathos de pose austera e enigmática, o alemão Udo Kier faleceu no dia 23 de novembro, em Palm Springs — contava 81 anos. Como um puzzle em eterna reconversão, a sua filmografia resulta de encontros com os mais diversos autores, de Paul Morrissey (Carne para Frankenstein, 1973) até Kleber Mendonça Filho (Bacurau e O Agente Secreto, respectivamente de 2019 e 2025), passando por Lars von Trier (Dogville, 2003) — sem esquecer, claro, as várias colaborações com Rainer Wertner Fassbinder, incluindo A Terceira Geração (1978).
Qual fantasma acolhedor, contracenou com Madonna, sob a direcção de Bobby Woods, no teledisco de Deeper and Deeper (1992).
>>> Obituário em The Guardian.
>>> Udo Kier na Wikipedia.
Kathryn Bigelow: o apocalipse pode esperar
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| A House of Dynamite: o mesmo helicóptero, mas a narrativa é outra... |
Com o seu novo filme, A House of Dynamite, Kathryn Bigelow reencena o medo das armas nucleares como um desafio ao próprio cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (31 outubro).
Espaço e tempo. Que mais há no cinema? Não muito mais, para dizer a verdade. O certo é que, num contexto saturado de sermões politicamente correctos, os filmes tendem a ser resumidos, promovidos e interpretados como objectos descartáveis. O seu suposto valor esgotar-se-ia nos “temas” com que podem satisfazer a avalanche mediática que contamina a nossa realidade, avalanche que se quer impor como a totalidade dessa realidade.
No limite mais pueril, e também mais nefasto, desta miséria cinéfila, já terão nascido os/as “influencers” capazes de proclamar que O Mundo a seus Pés (1941) se esgota num panfleto sobre a liberdade de imprensa — como se isso bastasse para aceder ao génio de Orson Welles e, sobretudo, compreender a complexidade do seu legado formal, narrativo e existencial.
Descrevo este estado das coisas para, face ao novo filme Kathryn Bigelow — A House of Dynamite/Prestes a Explodir (Netflix) —, eu próprio evitar ceder à facilidade de o esgotar na inquietação humanista que dele emana. Sim, é um facto que esta história assombrada — com o sistema de defesa dos EUA a enfrentar a ameaça de um míssil de origem desconhecida que está a 19 minutos de destruir a cidade de Chicago, provocando pelo menos 10 milhões de vítimas — contém uma contundente mensagem que não deixará ninguém indiferente. A saber: as armas nucleares podem destruir o nosso planeta. Mas como em tempos lembrava um verdadeiro artista: “se se faz um filme para mandar uma mensagem, mais vale usar o correio...”
Acontece que não estamos perante uma vulgar saga apocalíptica, dessas que desembocam na chegada de um qualquer super-herói da Marvel para nos dizer (atenção à mensagem!) que o planeta está feito em cacos, mas anuncia-se uma nova era de felicidade... Que é como quem diz: ao espectador não é oferecida a gratificação simplista de um desenlace cuja única função moral (aliás, moralista) seria rasurar a perturbação com que tudo começou.
Falemos, por isso, de espaço. Quanto mais os especialistas da sala de emergências da Casa Branca contemplam a rota abstracta do míssil apocalíptico (os ecrãs que têm à sua disposição são mesmo uma forma de fazer política), tanto mais as coordenadas espaciais se vão diluindo numa terrível generalização: o "além" do local do impacto confunde-se com o “aqui” da respectiva observação. Ou ainda: a globalização em que vivemos (a começar pela globalização militar) gerou um ecumenismo perverso em que todas as diferenças se equivalem numa só maneira de viver — e, claro, morrer.
E não esqueçamos o tempo. Com uma agilidade rara no cinema do nosso presente, o argumento assinado por Noah Oppenheim, embora parecendo enunciar um ciclo de acontecimentos que só pode ter um final (a explosão do míssil), funciona, afinal, como uma máquina interminável de relançamento do pânico que a nossa civilização nuclear gerou. Assim, quando se chega ao fatal 19º minuto, a história “interrompe-se”, volta atrás e recomeça noutro lugar, com outras personagens. Ou seja: a contagem fatal voltou a zero, embora mantendo a barreira mortal dos 19 minutos...
Lembramo-nos, por isso, da arte argumentativa de Joseph L. Mankiewicz (por exemplo, em A Condessa Descalça, um título de 1954) em que o tempo se repete como fantasma das suas próprias medidas — pode-se fugir de um espaço para outro, mas não é possível abrir a porta e escapar ao metódico fluir do tempo. E podemos recordar também esse filme genuinamente visionário que é Jogos de Guerra (1983), de John Badham, com o jovem Matthew Broderick num dos seus primeiros papéis, em que a civilização do virtual (entenda-se: dos computadores) vai fundindo todas as acções humanas numa ideia de “jogo”, precisamente, incluindo a experiência indizível da morte.
O filme de Kathryn Bigelow é tanto mais envolvente quanto, de facto, o que nele vemos e ouvimos — das salas de controle militar até aos discursos codificados dos políticos — passou a fazer parte do nosso quotidiano televisivo. Não falta sequer o helicóptero presidencial em que, neste caso, o Presidente dos EUA, interpretado por Idris Elba, é retirado para um lugar seguro. Dito de outro modo: a agitação no nosso espaço e os ziguezagues do nosso tempo obrigam-nos a repensar, seriamente, os usos da palavra “realismo”.
quarta-feira, novembro 26, 2025
A IMAGEM: Mohammed Salem, 2025
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| MOHAMMED SALEM / Time Palestinianos junto à sua casa destruída, em Jabalia, no norte da Faixa de Gaza 3 fevereiro 2025 |
terça-feira, novembro 25, 2025
sábado, novembro 22, 2025
Roy Orbison em 1965
Foi há 60 anos, em novembro de 1965: Roy Orbison já não era editado pela Monument Records, tenddo mudado para a MGM; rentabilizando o seu legado, a Monument lançava uma antologia Orbisongs em que uma das novidades era a versão stereo de Oh, Pretty Woman, cujo single surgira um ano antes — eis uma performance da canção, num Monument Concert, realizado também em 1965.
sexta-feira, novembro 21, 2025
Vangelis & Carl Sagan
Vangelis e Carl Sagan — eis a dupla que serviu para definir o mote da nossa sessão de hoje, na FNAC. Ou seja: primeiro, o álbum Heaven and Hell, de Vangelis, editado há 50 anos; depois, a série do americano Sagan, Cosmos: A Personal Voyage (1980-81), que utilizava um tema do álbum do compositor grego no respectivo genérico — aqui estão essas memórias cruzadas.
domingo, novembro 16, 2025
Memórias da música electrónica
* SOUND + VISION Magazine [hoje, 21 nov.]
O álbum Heaven and Hell, de Vangelis, surgiu há 50 anos — na sessão de novembro na FNAC propomos uma revisitação de momentos emblemáticos da música electrónica, incluindo os seus cruzamentos com o mundo do cinema.
sábado, novembro 15, 2025
Alice Sara Ott > Für Elise
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| Ludwig van Beethoven |
Por certo uma das mais célebres composições de Beethoven, eis Für Elise (Bagatela nº 25) numa sublime interpretação de Alice Sara Ott, admirável pianista alemão de ascendência japonesa — num registo com chancela da Deutsche Grammophon.
Alpha, de Julia Ducournau:
epidemias e assombramentos
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| Mérissa Boros: que se passa com os corpos? |
Depois de Titane (2021), Julia Ducournau dirige Alpha, nova parábola sobre as fronteiras do corpo humano: reencontramos os mesmos temas e obsessões, mas com resultados francamente menos interessantes — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 outubro).
Para o melhor e, sobretudo, para o pior, o comércio cinematográfico dos nossos dias está minado por “eventos” enraizados em conceitos de marketing que exploram uma ideia pueril de “surpresa”, porventura de “revolução”. Trata-se de uma questão muito típica das ilusões mais ou menos chantagistas fabricadas pelo politicamente correcto, ainda que com episódios transversais que pontuam toda a história do cinema. A saber: alguém que se afirmou através de uma forte marca autoral pode cair na armadilha de tentar “repetir” essa mesma marca, de modo a garantir a continuidade do seu reconhecimento... Ou, pura e simplesmente, porque perdeu o fulgor da sua singularidade criativa. Parece que algo desse género está a acontecer com a francesa Julia Ducournau: depois do impacto de Titane (Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2021), aí está o seu frustrante Alpha (também revelado em Cannes, no passado mês de maio).
Poderá dizer-se que Titane continha já os germes de muitos equívocos, sobretudo pelo modo como nele ecoavam alguns clichés do nosso tempo que tendem a sacralizar uma “rebeldia” temática que, de uma maneira ou de outra, se apresenta com uma certa caução “feminista”. Em boa verdade, nada disso impedia que Titane fosse uma curiosa experiência cinematográfica, arriscando em linguagens paradoxais — do chamado “body horror” de um certo cinema de terror até aos ritmos visuais dos telediscos —, gerando uma narrativa capaz de desafiar algumas convenções do espectáculo cinematográfico contemporâneo. Sem esquecer, claro, a herança da inquietante depuração de Raw (2016), primeira longa-metragem de Ducournau.
Obviamente, Alpha não é estranho à sensibilidade visual e sonora de Titane, até porque voltamos a estar perante um assombramento que se exprime através da instabilidade do corpo. Assim, esta é a história de Alpha (Mérissa Boros), uma jovem de 13 anos que chega a casa com uma tatuagem num braço. Algo confusa sobre o modo como tudo aconteceu, suscita a imediata inquietação da mãe (Golshifteh Farahani), e tanto mais quanto há sinais de uma estranha doença sanguínea que transforma os corpos em verdadeiras estátuas de mármore...
Tal como acontecia em Titane, Ducournau não deixa de criar condições para os riscos de representação dos actores (destaque inevitável para Golshifteh Farahani), mas é francamente pouco. O filme procura tocar todos os pontos capazes de suscitar uma ideia mecânica e determinista de parábola sobre as epidemias do presente, mas esgota-se numa construção narrativa que se vai reduzindo a uma acumulação de momentos “choque” tão repetitivos quanto redundantes.
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