sexta-feira, janeiro 09, 2026

10 filmes de 2025 [9]

* VERDADES DIFÍCEIS, Mike Leigh
 
Admirável Marianne Jean-Baptiste! A sua personagem de Pansy está contra o mundo e, em boa verdade, o mundo não lhe responde de forma pacífica. Há a sua irmã Chantelle (Michele Austin, também brilhante) que procura que as linhas de contacto não se decomponham, mas Pansy resiste, resiste sempre à ideia de que há uma "naturalidade" imanente que nos pode reconciliar com o mundo — e, de alguma maneira, pacificá-lo. Dito de outro modo: Mike Leigh continua a ser um baluarte da tradição realista britânica, assinando filmes como este que, em última instância, se definem como tragédias ("shakespeareanas", sem dúvida) centradas na nossa incapacidade de devolver ao mundo o enquadramento de uma lei que aceite o confronto, repelindo o conflito. É um filme educativo, no sentido mais simples, também mais radical, de uma lição de olhar para o carácter irredutível de cada indivíduo e cada experiência individual — está aqui, abençoado seja, o anti-naturalismo televisivo.


[ Sorry, Baby ] [ Depois da Caçada ] [ A House of Dynamite ] [ Juventude ] [ Jovens Mães ] [ Highest 2 Lowest ]
[ Batalha Atrás de Batalha ] [ Foi Só um Acidente ]

David Bowie: 10 anos depois
* SOUND + VISION Magazine [ 10 jan. ]

David Bowie faleceu no dia 10 de janeiro de 2016. Passada uma década, através de memórias feitas de imagens e sons, recordamos o criador de “Heroes” e “Blackstar”.

>>> FNAC Chiado: 10 janeiro (17h00).

Alice Sara Ott / Beethoven


Para conhecermos e reconhecermos a abrangência, a versatilidade e as nuances do talento de Alice Ara Ott, eis a sua interpretação do Concerto para Piano, Nº 3, de Ludwig van Beethoven, com a Orquestra Filarmónica da Radio France, sob a direção do maestro Mikko Franck. Sem esquecer a impecável realização televisiva, a cargo de Colin Laurent — aconteceu a 27 de janeiro de 2018, no Auditório da Radio France.

10 discos de 2025 [9]

* JOHN FIELD - COMPLETE NOCTURNES, Alice Sara Ott

Eis um laço artístico e simbólico que importava redescobrir e, mais do que isso, dar a ouvir: na sua depurada beleza, os 18 Nocturnos compostos pelo irlandês John Field (1782-1837) foram uma inspiração e, por assim dizer, uma premonição essencial para os 21 Nocturnos de Frédéric Chopin (1810-1849). Revisitadas por Alice Sara Ott, por certo uma das mais sofsticadas pianistas da actualidade (entenda-se: de uma sofisticação de absoluta sobriedade), as 18 peças conseguem a proeza de nos colocar num tempo de fascinantes ambivalência artísticas, até porque a Deutsche Grammophon encenou algumas delas em telediscos de inequívoco gosto pop — eis o Nº 14.
 

[ Patti Smith ] [ Taylor Swift ] [ Ryan Adams ] [ Lucy Dacus ] [ Ambrose Akinmusire ] [ Haim ]
[ Jonny Greenwood ] [ Bruce Springsteen ]

David Bowie, memórias

Ontem, 8 de janeiro, passaram-se 79 anos sobre a data de nascimento de David Bowie. Amanhã, 10 de janeiro, prefazem-se dez anos sobre a sua morte, em 2016 [ver nota sobre sessão SOUND+VISION na FNAC Chiado]. Aqui se propõe uma cerimónia simples, misto de celebração e nostalgia: "Heroes", do álbum de 1977, num concerto em Dublin, em 2003 ['A Reality Tour'].

O cinema na intimidade de um hospital

Na Linha da Frente, de Petra Volpe, está na chamada "short list" para o Oscar de melhor filme internacional em representação da Suíça: para o seu retrato da vida de um hospital é essencial a composição de Leonie Benesch, uma actriz realmente fora de série — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 dezembro).

Com a estreia de Na Linha da Frente, uma coprodução Suíça/Alemanha com assinatura da argumentista e realizadora suíça Petra Volpe, podemos descobrir mais um dos 86 títulos candidatos, em representação da Suíça, a uma das cinco nomeações para o Oscar de melhor filme internacional (cerimónia marcada para 15 de março). O mínimo que se pode dizer é que, seja qual for o panorama dessas nomeações, estamos perante um admirável objecto de cinema. Mais do que isso: podemos mesmo considerar que a intérprete principal, a alemã Leonie Benesch (nascida em Hamburgo, em 1991), não ficaria nada mal na lista de nomeadas para melhor actriz do ano.
No começo da sua carreira, Benesch integrou o elenco de O Laço Branco (2009), de Michael Haneke, Palma de Ouro em Cannes. Mais recentemente, vimo-la em A Sala de Professores (2023), de Ilker Çatak, outro título que esteve na corrida dos Oscars (nomeado na categoria de melhor filme internacional em representação da Alemanha), e ainda em O Atentado de 5 de Setembro (2024), sobre a tragédia vivida nos Jogos Olímpicos de 1972 (também nomeado, neste caso na categoria de melhor argumento original).
Em Na Linha da Frente, Benesch interpreta Floria Lind, enfermeira de um hospital suíço que acompanhamos durante um atribulado turno da noite — Late Shift é o título internacional.

Gestos do trabalho

Importa reagir contra as generalizações gratuitas que um filme como Na Linha da Frente possa suscitar. Claro que a avalanche de dramas vividos por Floria ao longo de apenas uma noite (além do mais, o seu turno das Urgências está com sérias deficiências de pessoal) pode levar a evocar problemas semelhantes vividos noutros contextos. Mas seria distração ou demagogia ceder à facilidade moralista de considerar que “é tudo igual”. E não apenas porque cada um desses contextos se distingue por componentes irredutíveis. Sobretudo porque um filme... é um filme, não um programa político, ainda menos um relatório médico. Importa, sobretudo, lembrar que a nossa relação com um filme, para mais um filme tão especial como Na Linha da Frente, é sempre uma questão de cinema, não um mero inventário “temático” avalizado por um qualquer discurso mediático.
Que acontece, então? Um verdadeiro milagre narrativo, raro no cinema contemporâneo. A realização de Petra Volpe não desiste dos valores de um realismo que resiste, ponto por ponto, ao “naturalismo” acelerado que asfixia a comunicação dos nossos ecrãs televisivos. Dito de outro modo: Na Linha da Frente impõe-se como um genuíno filme sobre o trabalho.
Não é, de facto, todos os dias que vemos os sinais mais pormenorizados (apetece dizer: mais íntimos) do trabalho, para mais de um trabalho tão delicado e exigente, encenados desta maneira. Da simples preparação de uma seringa até ao atendimento de um paciente subitamente atingido por uma violenta alergia, passando pelo cansaço que se vai insinuando nos mais pequenos gestos, Benesch representa tudo isso como uma odisseia de profundos contrastes — entre o rigor dos tratamentos que é preciso garantir e o caldeirão de afectos contraditórios que vai invadindo todos os espaços.
O cinema possui, ou pode possuir, esse maravilhoso poder de nos fazer penetrar em determinados lugares fazendo-nos sentir, não apenas a sua organização física, mas uma outra dimensão, carnal e contagiante, a que talvez possamos dar o nome de geografia emocional. Por alguma razão, o título original de Na Linha da Frente (Heldin) identifica Floria como uma “heroína”.

Bergman & etc.

Seria exagero considerar que existe um género cinematográfico “sobre” hospitais. Lembremos apenas títulos tão diversos como: No Limiar da Vida (Ingmar Bergman, 1958), centrado na convivência de três mulheres numa maternidade; Shock Corridor (Samuel Fuller, 1963), vivido no interior de uma instituição psiquiátrica; ou A Morte do Sr. Lazarescu (Cristi Puiu, 2005), desmontando um sistema em que a burocracia anulou o humanismo. Sem esquecer a metódica e pedagógica visão documental de Frederick Wiseman em Hospital (1970) ou Near Death (1989).
Seja como for, Na Linha da Frente pertence a essa galeria de obras excepcionais capazes de (re)valorizar a mais depurada dimensão humanista que o cinema pode conter. Na certeza de que essa dimensão, para lá do respeito da complexidade do mundo observado, é sempre indissociável do olhar rigoroso de uma câmara e também do invencível amor pelo trabalho dos actores.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

10 filmes de 2025 [8]

* FOI SÓ UM ACIDENTE, Jafar Panahi
 
Impossível dissociar a nossa relação com Foi Só um Acidente do conhecimento que temos das continuadas formas de assédio das autoridades iranianas a Jafar Panahi. Apesar disso (ou precisamente por causa disso), será pedagógico lembrar que o filme de Panahi não se esgota nas convenções de um mero panfleto sobre as condições da sua existência como profissional e cidadão do Irão. Estamos perante uma narrativa que sabe expor as convulsões de uma situação colectiva através dos mais ínfimos detalhes das vidas individuais — a começar por um som que revela a identidade de um agente do poder. Ou como o cinema, arte visual por excelência, pode ser também um processo visceral de escuta — e resistência.


[ Sorry, Baby ] [ Depois da Caçada ] [ A House of Dynamite ] [ Juventude ] [ Jovens Mães ] [ Highest 2 Lowest ]
[ Batalha Atrás de Batalha ]

10 discos de 2025 [8]

* TRACKS II: THE LOST ALBUMS, Bruce Springsteen

Se as edições discográficas se definem também pela sua grandeza (física e simbólica), então este foi o monumento de 2025. Não um álbum, mas um total de sete, com 83 canções. Fiel às suas memórias, Springsteen nunca abandonou os conteúdos "esquecidos" do seu baú, neste caso recuperando-os a par da reedição de Nebraska (1982), afinal "o" momento nuclear de toda a sua obra, e também do lançamento do filme Springsteen: Deliver Me from Nowhere. O primeiro Tracks surgira em 1998, com gravações de 1972-98; Tracks II percorre o período 1983-2018 — são os ziguezagues de uma aventura criativa que, em boa verdade, desafia a linearidade do tempo, reafirmando-se sempre como uma força do presente. O método pode ser definido pelo tema de abertura: Follow that Dream.
 

[ Patti Smith ] [ Taylor Swift ] [ Ryan Adams ] [ Lucy Dacus ] [ Ambrose Akinmusire ] [ Haim ]
[ Jonny Greenwood ]

terça-feira, janeiro 06, 2026

Béla Tarr (1955 - 2026)

Morreu Béla Tarr, figura nuclear da história do cinema da Hungria, nome maior da produção europeia; o seu falecimento foi divulgado pela Academia Europeia de Cinema, que integrava desde 1997.
Revisitando as memórias da sua obra austera e fascinante, é inevitável fixarmo-nos, com alguma ironia, naquele que seria o seu título de despedida: O Cavalo de Turim (2011). Revisito-o, aqui em baixo, através de alguns parágrafos escritos na altura do seu lançamennto nas salas portuguesas.
Foi, afinal, a sua primeira estreia no nosso país (com chancela da Midas Filmes), o que quer dizer que continua a fazer todo o sentido dar a ver — em sala — experiências tão marcantes como Danação (1988), Sátántangó (1994), As Harmonias de Werckmeister (2001) ou O Homem de Londres (2007). Já agora, sem esquecer que, tal como O Cavalo de Turim , todos eles contaram com a colaboração nos respectivos argumentos de László Krasznahorkai, Nobel da Literatura em 2025.

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Em 1889, Friedrich Nietzsche viu um cavalo a ser batido pelo seu dono, numa rua de Turim: chocado e emocionado, agarrou-se ao animal, desfalecendo. Este episódio mais ou menos lendário (tido como prenúncio simbólico da decomposição mental de Nietzsche nos seus anos finais) serve de ponto de partida ao extraordinário O Cavalo de Turim.
Filmado sob o signo de Friedrich Nietzsche, O Cavalo de Turim colhe da herança do filósofo alemão muito mais do que a referência ao episódio que justifica o seu título. Aliás, o facto de esse episódio persistir através da ambígua conjugação da crónica histórica e da deriva lendária, empresta ao filme uma respiração “nietzschiana” que talvez se possa resumir através de uma solidão brutal. A sua definição começa na terrível indiferença divina ou, se preferirem, na interminável morte de Deus. Para usarmos as palavras do filósofo: “Deus morreu: mas a natureza humana é de tal ordem que é muito provável que, durante milhares de anos, haja grutas em que a sua sombra continuará a ser vista.” (in A Gaia Ciência, 1887).
Para sermos exactos, Béla Tarr apenas filma ciclos de vida: o dono do cavalo, a sua filha, as rotinas de uma quinta que parece emergir da terra como o cenário apocalíptico de todas as perdições humanas. Mas o que vemos não é tanto a banalidade da rotina como a cruel nitidez do tempo. O senso comum (arma dilecta do populismo televisivo) dirá, por certo, que a repetição dos gestos se torna redundante... O que desse modo se ignora é a própria questão existencial do tempo e o modo como a sua formulação implica o mais radical dos desafios cinematográficos. A saber: como encenar a consciência muito humana, demasiado humana, da morte?
A resposta de Béla Tarr envolve uma estranha e fascinante musicalidade que faz do filme, não o “relato” de uma experiência existencial, mas a íntima celebração dessa própria experiência. Em boa verdade, o cineasta convoca-nos para um cinema em que o simples efeito do vento na estabilidade dos corpos adquire a dimensão de uma escultura terrena. O céu pode esperar.

>>> Entrevista com Béla Tarr, realizada para a edição em DVD de As Harmonias de Werckmeister [Criterion].

segunda-feira, janeiro 05, 2026

10 filmes de 2025 [7]

* BATALHA ATRÁS DE BATALHA, Paul Thomas Anderson
 
Na sua dimensão mais simples, esta é a odisseia de Bob Ferguson, um pai (Leonardo DiCaprio), à procura de uma filha, Willa (Chase Infinity), o que confere ao filme de Paul Thomas Anderson a dimensão de uma epopeia intimista que faz lembrar algumas variantes do western clássico. Ao mesmo tempo, tudo acontece no turbilhão de uma aventura "made in USA" em que o passado parece não existir a não ser como avatar do presente — incluindo o nosso presente de espectadores. Dito de outro: Paul Thomas Anderson continua a ser o autor invulgar, único no actual cinema americano, de um universo de exuberante espectáculo (IMAX, neste caso) que se desenvolve com a paciência de um conto moral do cinema independente. A música de Jonny Greenwood ecoa tudo isso como uma ópera que fez renascer os seus próprios fantasmas.


[ Sorry, Baby ] [ Depois da Caçada ] [ A House of Dynamite ] [ Juventude ] [ Jovens Mães ] [ Highest 2 Lowest ]