segunda-feira, julho 06, 2026

O Terreiro do Paço agora é uma arena

DIRK STOOP
Terreiro do Paço, 1662


Uma cultura é socialmente dominante quando as suas acções incluem o poder de transfigurar os espaços públicos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 julho).

Contemplo uma belíssima representação do Terreiro do Paço com data de 1662. Trata-se de uma pintura assinada pelo holandês Dirk Stoop, da coleção do Museu de Lisboa, conservada no Palácio Pimenta (Campo Grande, Lisboa). Cito o texto descritivo do site do museu: “A obra foi identificada como possível representação da chegada a Lisboa de D. Francisco de Mello e Torres, 1º Conde da Ponte e embaixador extraordinário de Portugal em Londres, onde acordou o Tratado de Whitehall (23 de junho de 1661) e ultimou as negociações para o casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra.”
Dou um salto no tempo, lendo uma notícia publicada no site da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) há meia dúzia de semanas (18 de maio). Regista-se a assinatura de uma parceria entre a FPF e a Câmara Municipal de Lisboa, “para levar o Mundial de Futebol ao emblemático Terreiro do Paço, transformando um dos espaços mais icónicos da cidade no palco oficial da competição em Lisboa, entre os dias 11 de junho a 19 de julho.” Na cerimónia, Pedro Proença, presidente da FPF, definiu os fundamentos daquela parceria: “Há uma relação histórica entre as duas instituições para estes grandes eventos. Quero deixar um elogio ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que desde a primeira hora disse presente a este projecto da Federação Portuguesa de Futebol, porque sabe o quanto é importante esta relação umbilical que existe entre a nossa Seleção e a cidade de Lisboa, num espírito de união e de vontade colectiva de fazermos bem.”
Que aconteceu entre 1662 e 2026? Uma radical mudança da função pública das imagens. Aquilo que, há mais de 300 anos, existia como informação, reconhecimento e celebração de uma determinada arquitectura de poder dilui-se agora num “gadget” social. O que mais importa é fazer passar uma ideia transcendente de multidão, a ponto de essa multidão ser consagrada como “objecto” estranho a qualquer consciência política do valor simbólico dos lugares por onde circulamos.
Não haverá muitas entidades institucionalizadas que detenham tamanho poder. O futebol passou mesmo a ser a única dessas entidades que, com a cumplicidade de muitos discursos televisivos, consegue fazer valer a ideia segundo a qual a formação de uma multidão (futebolística, claro) dá corpo a uma razão inquestionável, de uma só vez global e patriótica.
Não que o Terreiro do Paço seja um lugar santificado. Em boa verdade, o valor histórico da praça resulta, não de qualquer unicidade ideológica, mas das contradições que a sua história integra — dos comícios de celebração do Estado Novo, com Salazar a discursar de uma janela, até às mais diversas convulsões do 25 de Abril que aí encontraram também o seu teatro simbólico.
A FPF baptizou a ocupação do Terreiro do Paço com uma expressão para fazer história: Lisboa Football Arena (escrito assim mesmo, com um curioso sobressalto anglo-saxónico). O futebol assume-se, assim, como peça fulcral da cultura dominante, desde logo das suas linguagens. Aliás, a FPF estabeleceu acordos para reconfigurar os espaços públicos de mais de uma centena de autarquias, por certo com o aval dessas autarquias, através da “implementação das Fan Zone”, projecto lançado com a designação bizarra de “Pintar Portugal” (leia-se, também no site da FPF, notícia com data de 16 de março).
A histeria televisiva que acompanha tudo isto vai glorificando as Fan Zone, ajudando a cimentar a nossa eufórica perda de memória colectiva. Há uma legião de jovens repórteres de televisão que descrevem as respectivas vivências através do uso sistemático da palavra “loucura”. Quem os ensinou? Para os admiradores da beleza do futebol, fica uma inquietação: admirar “apenas” a seleção de Roberto Martinez, sem gritos nem tribunais, é coisa que as arenas não toleram.

domingo, julho 05, 2026

O primeiro single de Elvis Presley

O primeiro single de Elvis Presley, That's All Right, foi gravado nos estúdios da Sun Records, em Memphis, Tennessee, no dia 5 de julho de 1954 — faz hoje 72 anos.
 

quinta-feira, julho 02, 2026

Miles Davis, 100 anos
* SOUND + VISION Magazine [dia 11]

Este é o ano do centenário de Miles Davis, figura maior do mundo do jazz cuja história e influência estão para lá da música — vamos estar na FNAC para evocar as suas imagens e sons.

>>> FNAC Chiado — 11 julho, 17h00

segunda-feira, junho 29, 2026

Miles Davis, 1986

Foi há 40 anos, mais exactamente a 15 de junho de 1986: Miles Davis participou num concerto para a Amnistia Internacional, no Giants Stadium de Meadowlands, New Jersey — convidado especial na guitarra eléctrica: Carlos Santana.
 

Vivamente Truffaut!

François Truffaut (1932-1984) está de volta aos ecrãs portugueses, para já em Lisboa (Nimas) e Porto (Trindade): o ciclo "Ao Sol da Nouvelle Vague" (2/15 julho) apresenta uma coleção (quase integral) das suas longas-metragens, reabrindo uma perspectiva de conhecimento e análise que importa reter. Na verdade, a descrição de Truffaut como contador de histórias "ligeiras", porventura líricas, em contraste com as abordagens "sérias" de um compagnon de route como Jean-Luc Godard corresponde a uma visão sem fundamento — a sua filmografa, mesmo nos momentos mais irónicos (lembremos o título final, Finalmente Domingo!), integra sempre um assombramento trágico cujas raízes pertencem às ambivalências e contradições da pulsão amorosa.
A descobrir para muitos espectadores será, por certo, o maravilhoso La Peau Douce/Angústia (1964), com Françoise Dorléac, em parte rodado em Lisboa, com António da Cunha Telles como coprodutor — eis o trailer original.

sábado, junho 27, 2026

David Hockney — 7 imagens

[ BBC ]

A herança de David Hockney define um capítulo especial na história da pintura. Interessou-se também por outras técnicas, criando uma obra cuja experimentação nunca menosprezou as heranças clássicas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 junho).

Falecido no dia 11 de junho, em Londres (contava 88 anos), David Hockney simboliza, como poucos, uma pintura enraizada num fascinante paradoxo estético e filosófico. Assim, ao longo de mais de seis décadas de trabalho regular, a sua pintura nasceu de muitas e variadas formas de experimentação; ao mesmo tempo, semelhante vocação nunca o fez desistir de modos de figuração (pessoas, animais, paisagens, etc.) que nunca se “diluíram” em qualquer registo abstracto. Mais do que isso, os contrastes da sua obra são indissociáveis de um gosto, ágil e ousado, disponível para as mais variadas técnicas de trabalho. Certamente não por acaso, o seu labor pictórico foi-se cruzando com surpreendentes derivações, da fotografia até à criação de cenários teatrais.
Na impossibilidade de “resumir” tudo isso através de um pequeno conjunto de referências, aqui ficam, de qualquer modo, sete dos seus trabalhos — são testemunhos de uma arte complexa e bem humorada.
1 – MR. AND MRS. CLARK AND PERCY (1971)
Eis aquele que é, seguramente, um dos mais célebres quadros de Hockney. Rezam as crónicas que resultou de um laborioso e demorado trabalho (mais de um ano). O retrato do casal Ossie Clark/Celia Birtwell (ambos designers, ele de moda, ela de têxtil) possui uma imediata sedução realista que acaba por ser “contrariada” pela austeridade das cores e a frieza geométrica da composição.
2 – PORTRAIT OF AN ARTIST – POOL WITH TWO FIGURES (1972)
Este “retrato de um artista” com “duas figuras” (assim informa o título) nasceu, de facto, da proximidade de duas fotografias que Hockney descobriu perdidas no seu estúdio: um homem aparentemente pensativo e uma figura a nadar debaixo de água. O lugar-comum do “pintor de piscinas” nada nos diz sobre a pluralidade da sua obra, mas é verdade que, na década de 1970, piscinas não faltam.
3 – CELIA, LOS ANGELES (1982)
Em poucos meses, ao longo do ano de 1982, Hockney produziu cerca de 150 trabalhos resultantes da montagem de fotografias Polaroid. Na sua respiração cubista, assistimos a uma festiva fragmentação figurativa (que também marcou a sua pintura). A exposição desta série de imagens, ainda em 1982, em Nova Iorque, teve um título esclarecedor: “Desenhando com uma câmara”.
4 – Stanley e Boodgie (1993-95)
Na década de 1990, Stanley e Boodgie, os dois “daschund” de Hockney ocupam um lugar central na sua vida — e também na sua obra, através dos muitos desenhos e pinturas em que surgem entre 1993 e 1995 (editados num álbum de 2011). Como ele dizia, posavam sem drama, com grande disponibilidade, apenas pedindo “amor e comida (não necessariamente por esta ordem)”.
5 – A CLOSER GRAND CANYON (1998)
Porquê um Grand Canyon “mais próximo” (“closer”)? Porque Hockney fez este quadro (de uma série de paisagens) a partir de uma semana de visitas ao local, sentindo que, assim, se sentia “mais próximo” daquele prodígio natural. São, efectivamente, 60 pequenos quadros montados num rectângulo que faz lembrar a largura do CinemaScope — dimensões aproximadas: 2 x 7,5 metros.
6 – AFRICAN VIOLET, MAYFLOWER HOTEL, NEW YORK (2002)
Inspirado por uma exposição de aguarelas chinesas (em Nova Iorque, no Met), Hockney sente-se tentado a uma redescoberta de uma técnica “antiga”, inclusive no seu trajecto pessoal. O resultado permite-lhe reencontrar uma fluidez de formas e cores que correspondem ao que diz ter aprendido com a arte da China. Ou seja, uma fusão de “mãos, olhos e coração”.
7 – UNTITLED Nº 7 / “THE YOSEMITE SUITE” (2012)
Depois da descoberta do iPhone como instrumento de pintura, Hockney vai mais longe, adquirindo um iPad que o fascina pela “ligeireza” com que pode trabalhar cores e formas. Tudo isso acontece em paralelo com várias visitas ao Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia. Dito de outro modo: para ele, como sempre, a vanguarda tecnológica combina bem com a sedução das formas naturais.

sexta-feira, junho 26, 2026

“Isto não é Mick Jagger”

O novo teledisco dos Rolling Stones foi feito por Inteligência Artificial? Digamos antes que é artificial e inteligente — eate texto foi publicado no Diário de Notícias (19 junho).

Se conseguirmos manter alguma lucidez no meio da histeria informativa que nos rodeia, todos os dias sustentada pelo pior que as televisões vão fabricando, convenhamos que não é fácil termos alguma noção consistente sobre o que é (ou pode ser) a utilização desse novo prodígio, fascinante e monstruoso, que é a Inteligência Artificial (IA). Não que possamos, de forma lúcida, precisamente, ignorar os perigos assustadores do seu desenvolvimento. Em qualquer caso, há uma diferença entre informar sobre tais perigos e utilizar a IA como sinónimo de um apocalipse anunciado.
Não quero, com este desabafo, atrair generalizações apocalípticas nem redentoras. Já basta o que basta. Foco-me apenas num acontecimento muito particular: o novo teledisco da canção In the Stars, tema do 25º álbum de estúdio dos Rolling Stones, Foreign Tongues, com lançamento marcado para 10 de julho. E dou-me conta da facilidade com que a sua descrição automática — “um teledisco fabricado pela IA” — tende a circular como uma espécie de rótulo compulsivo.
Enfim, é verdade que vemos Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood a interpretar In the Stars, sendo também verdade o seu contrário: aquilo que vemos não foi filmado com os elementos dos Rolling Stones. Aliás, mesmo descobrindo o teledisco no mais completo desconhecimento sobre a sua produção, rapidamente desembocamos num insólito beco sem saída: quem é este Mick Jagger, com ar e pose da década de 1980... numa canção composta em 2025 ou 2026?


Deparamos, assim, com um curioso bloqueio de linguagem. Dizemos que o teledisco “foi filmado”, mas a própria expressão deixou de ser adequada para lidarmos com objectos como este. Em termos esquemáticos, passámos a viver num universo de imagens em que aquilo que vemos não resulta necessariamente da presença de uma câmara frente a uma determinada acção física e humana.
Que aconteceu, então? Pois bem, o director do teledisco, o francês François Rousselet, começou com uma outra banda, os londrinos Hot Property, filmando-os a interpretar a canção dos Stones. “Emprestaram” os seus corpos à energia de In the Stars — aplicando a gíria tecnológica, foram “stand-ins”. Depois, os rostos jovens de Jagger, Richards e Wood foram “aplicados” nas imagens dos Hot Property — esse trabalho foi executado pela Deep Voodoo, empresa fundada em 2020 por Matt Stone e Trey Parker, criadores da série de animação South Park.
Em termos práticos, não necessariamente técnicos, o processo não será muito diferente daquele que James Cameron utilizou na concepção original, e respectivas derivações, do seu Avatar (2009). Os resultados podem também fazer lembrar as técnicas de “rejuvenecimento” (“de-aging”) que Martin Scorsese usou em O Irlandês, para figurar Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci algumas décadas antes da acção principal do filme; em todo o caso, com uma diferença importante: os intérpretes das personagens foram sempre os próprios actores.
Bem sabemos que há vozes muito respeitáveis (Tom Hanks, Scarlett Johansson, Cate Blanchett, etc.) que em diversos contextos têm denunciado a eventual manipulação industrial de imagens de actores e actrizes através da IA como uma ofensa ao respectivo trabalho e, em rigor, um crime contra a criação artística. Acontece que no exemplo de In the Stars são os próprios artistas a “assinar” a irónica transfiguração das suas imagens — um pouco à maneira de René Magritte quando, há quase um século (1929), pintou um cachimbo com a legenda “Isto não é um cachimbo”.
RENÉ MAGRITTE
A Traição das Imagens
(1929)

quinta-feira, junho 25, 2026

A arte do suspense [Steven Spielberg]

Como nasce o suspense no interior de uma cena de um filme? Eis um belo exemplo de O Dia da Revelação, explicado pelo próprio Steven Spielberg em depoimento para o New York Times. Com uma curiosa rima pessoal — ou seja, a evocação de uma situação premonitória de Duel/Um Assassino pelas Costas (1971).
 

terça-feira, junho 23, 2026

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, 1966

Lançado há 60 anos, o primeiro filme realizado por Mike Nichols é uma referência modelar da história imensa, plena de contrastes, das relações teatro/cinema. A partir da peça de Edward Albee, com o par Elizabeth Taylor/Richard Burton no centro dos acontecimentos (sem esquecer o brilhante contraponto de George Segal e Sandy Dennis), eis um filme cuja teatralidade não é um decalque, antes uma transfiguração do espaço e do tempo cuja energia começa, obviamente, nos diálogos do texto original. A rever, sempre, combatendo a preguiça (ou a banal ignorância) dos que gostam de dizer que os filmes "antigos" estão muito "datados"...

domingo, junho 21, 2026

SOUND + VISION Magazine
[ Junho + Julho ]

[ Jesca Hoop ]

Numa sessão em que evocámos os "nossos" dois Festivais da Primavera — Eurovião + Cannes —, houve lugar para os obrigatórios destaques e também para novas músicas de Laura Misch e Jesca Hoop. Aqui ficam alguns dos videos que partilhámos: Bangaranga, a canção búlgara vencedora da Eurovisão, o trailer de Fatherland, um dos momentos altos na Côte d'Azur, e um dos temas do novo álbum de Jesca Hoop.
A próxima sessão já está marcada:

MILES DAVIS, 100 anos
FNAC Chiado
11 julho