quinta-feira, janeiro 29, 2026

A IMAGEM: Cass Bird, 2024

CASS BIRD
Linda Evangelista
2024

Lucinda Williams, Opus 16

Para transformar a canção World's Gone Wrong em teledisco, Lucinda Williams convocou imagens de Donald Trump e Vladimir Putin — são as personagens certas para explicitar a mensagem: de facto, as coisas do mundo estão a correr mal. World's Gone Wrong é também o título do seu 16º álbum de estúdio, uma coleção de composições eminentemente políticas, não num sentido banalmente panfletário, antes fixando-se nas atribulações e sofrimentos de figuras anónimas do povo que, afinal, espelham o mal-estar de toda uma nação — sempre, claro, com essa agilidade criativa, algures entre country e rock, que a mantém, aos 73 anos, como um ícone da sensibilidade que a tradição consagra através da palavra "Americana".
 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Taxi Driver: 50 anos
* SOUND + VISION Magazine (14 jan.)

Taxi Driver, filme-culto de Martin Scorsese, está a fazer 50 anos. No nosso próximo Magazine, na FNAC, propomo-nos recordar Robert De Niro, a música de Bernard Herrmann e toda uma época gloriosa do cinema americano.

>>> FNAC Chiado, dia 14 fevereiro (17h00).

terça-feira, janeiro 27, 2026

A morte de Alex Pretti
[video do New York Times]

Tempos terríveis estes em que o poder das imagens tende a baralhar todos os dados de todas as formas de percepção, por vezes diluindo o real num perverso sonambulismo informativo. Eis um exemplo bem diferente, do New York Times, analisando as terríveis circunstâncias em que Alex Pretti foi morto, em Minneapolis, por elementos da United States Border Patrol — bem diferente da automática acumulação de imagens, eis um jornalismo que se faz, realmente, a partir da metódica análise das imagens e dos elementos informativos que nelas se podem colher.

John Fogerty na NPR

[ johnfogerty.com ]

Se dissermos que este concerto envolve memórias dos Creedence Clearwater Revival, então faz todo o sentido que a canção de fecho seja Have You Ever Seen the Rain. Dito de outro modo: John Fogerty, 80 anos, continua activo e fiel às suas raízes, agora dm ambiente de terna familiaridade, com os filhos Shane e Tyler Fogerty a integrarem a sua banda — aconteceu há dias, em cenário radiofónico, em mais um Tiny Desk Concert da NPR.

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Celebrando as canções de Neil Diamond

Kate Hudson e Hugh Jackman: admiráveis!

Song Sung Blue faz o retrato de uma dupla que se celebrizou interpretando as canções de Neil Diamond: para a alegria dos resultados, são decisivas as interpretações de Hugh Jackman e Kate Hudson — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 janeiro).

Apesar da distorção industrial que o cinema dos EUA tem vivido nas últimas duas décadas — primeiro, com a invasão dos “blockbusters” da Marvel & afins, depois com a brutal concorrência das plataformas de “streaming” —, Hollywood vai gerando filmes que, melhor ou pior, sabem reencontrar e revalorizar os seus valores tradicionais. Assim acontece com Song Sung Blue, uma realização de Craig Brewer, que consegue a proeza de renovar, com discreta elegância e equilíbrio formal, a tradição da “biografia de um cantor”.
Não se trata de um exemplo linear dessa tradição que, em anos recentes, deu origem a títulos como Rocketman (Dexter Fletcher, 2019), sobre Elton John, ou Elvis (Baz Luhrmann, 2022). Em Song Sung Blue, Mike Sardina, a personagem central, é um “cantor-imitador”. Entenda-se: alguém cuja vida profissional, frágil e errática, é feita de breves performances em bares ou feiras a imitar Don Ho, um cantor pop nascido no Hawai muito popular ao longo da década de 1960.
Não estamos, por isso, em sentido estrito, perante um “musical”. Claro que o filme está recheado de canções, mas a matriz narrativa de Song Sung Blue pertence a um território mitológico visceralmente made in USA, centrando-se numa personagem que se transcende porque nunca desiste do seu sonho (americano, como é óbvio). Na companhia de Claire, uma imitadora de Patsy Cline com quem virá a casar-se, Mike muda o seu “paradigma”, fundando a banda Lightning and Thunder e triunfando numa nova especialização. Ou seja: celebrando o cancioneiro de Neil Diamond — será preciso recordar que Song Sung Blue, do álbum Moods (1972), é um tema lendário de Neil Diamond?
Convém não esquecer que Mike e Claire são personagens verídicas (ele falecido em 2006, contava 55 anos; ela actualmente com 64 anos), sendo o filme de Craig Brewer inspirado num documentário de Greg Kohs sobre o casal, também intitulado Song Sung Blue (2008). O certo é que o novo Song Sung Blue evita jogar a cartada da mera duplicação das figuras retratadas, evitando também, o que seria francamente pior, reduzir-se a uma espécie de “filme-concerto” pontuado pela dramatização de algumas situações.
Para que tudo isso resulte, a composição de Mike e Claire por Hugh Jackman e Kate Hudson é absolutamente decisiva. É com eles, e por eles, que perpassam as emoções da saga dos Lightning and Thunder, numa lógica narrativa cuidadosamente controlada. Dito de outro modo: esta não é uma colagem de canções que evocam determinadas personagens, mas sim uma história de gente viva para quem as canções são matéria nuclear dos valores da sua própria existência.

>>> Cena do filme: Hugh Jackman e Kate Hudson cantam Sweet Caroline.
 

>>> Song Sung Blue, por Neil Diamond.
 

A IMAGEM: Alex Wong, 2026

ALEX WONG
Donald Trump na Casa Branca,
vendo-se as obras para o novo salão de baile através da janela
The Washington Post
Janeiro 2026

domingo, janeiro 25, 2026

Jim Jarmusch propõe uma nova psicologia

Vicky Krieps, Cate Blanchett e Charlotte Rampling: as famílias já não são o que eram

O cineasta americano Jim Jarmusch está de volta com um filme tão subtil quanto enigmático sobre o mundo plural das relações familiares; chama-se Pai Mãe Irmã Irmão (sem vírgulas) e valeu-lhe o Leão de Ouro do Festival de Veneza — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 janeiro).

Como definir Pai Mãe Irmã Irmão, o filme de Jim Jarmusch que, no passado mês de setembro, foi consagrado com o Leão de Ouro do Festival de Veneza? De tão óbvia, a pergunta parece difícil de satisfazer com uma resposta adequada. Começando pelo mais básico, diremos que se trata, não de uma história, mas de três histórias, cada uma delas no espaço privado de numa família — a primeira centrada no pai, a segunda na mãe, a última num par de irmãos.
Jim Jarmusch
Há alguma relação entre as três famílias? Não, mas há uma espécie de pontuação dramática, mais ou menos risonha, através de pormenores que se “repetem” de uma história para outra. Exemplo? Em todas elas alguém possui (ou possuiu) um relógio Rolex que, na primeira história, suscita aos filhos que visitam o pai, uma dúvida sobre a sua autenticidade: parece falso, mas será verdadeiro? E se é verdadeiro, porque é que o pai insiste em dizer que não passa de uma imitação barata? Seja como for, essa dúvida contamina as histórias seguintes, levando-nos a supor que os novos Rolex podem ser falsos...
Tanto basta para que acompanhemos as histórias que nos são contadas com uma pequena antologia de acontecimentos que ecoam uns nos outros, justificando alguma generalização temática. Todos os pormenores são significativos, a começar pelo facto de o título original, Father Mother Sister Brother, não colocar qualquer vírgula entre as personagens citadas (o que, felizmente, foi preservado no título português). Assim se sugere que, mesmo não pertencendo a uma única família, aquelas personagens e as suas acções existem ligadas por um labirinto secreto, porventura indecifrável, de factos objectivos e emoções subjectivas.
Evitemos, por isso, o cliché moral do “filme sobre a família”. Todas as telenovelas, com a sua avalanche de estereótipos psicológicos, são “sobre a família”, mas seria grosseiro e, mais do que isso, insultuoso considerar que a filigrana dramática de Jarmusch tem o que quer que seja de “novelesco”. O que ele filma é o sistema de ilusões inerente ao espaço social da família — enfim, das famílias que o seu filme retrata. Porquê ilusões? Porque, mesmo quando as personagens não mentem, dir-se-ia que a estrutura familiar se sustém, paradoxalmente, não através do conhecimento, mas do desconhecimento dos seus membros.
Na primeira história, as personagens de Adam Driver e Mayim Bialik visitam o pai, interpretado por Tom Waits (velho cúmplice de Jarmusch), algo receosos das consequências da sua vida quase monástica numa zona rural dos EUA — mas será que sabem realmente o que acontece nessa vida? No segundo, em Dublin, temos uma nova visita, agora de duas irmãs, Cate Blanchett e Vicky Krieps, a sua mãe, Charlotte Rampling, uma escritora de sucesso — com um misto de humor e amargura, tomam chá como
marionetas tristes que, afinal, vivem na mesma cidade. No capítulo final, em Paris, Indya Moore e Luka Sabbat visitam o apartamento dos pais, recentemente falecidos na queda de um avião (nos Açores...), deparando com objectos tão inesperados como uma pequena coleção de bilhetes de identidade falsos.

Realismo e lirismo

Com um lote de actores excepcionais, Jarmusch filma tudo isso com a paciência de quem está a fazer um estudo científico, a meio caminho entre realismo e lirismo, embora sem conclusões práticas nem relatório teórico. Com alguma ironia, talvez se possa dizer que ele persegue os ritmos e as melodias de uma música íntima composta a partir das formas de solidão de cada ser humano.
Assistimos, por isso, ao nascimento de uma nova psicologia familiar cujo fundamento é o desconhecimento com que os filhos acompanham (ou julgam acompanhar) a existência dos pais. Talvez faça sentido dizer que tudo isso está latente em momentos emblemáticos da filmografia de Jarmusch, de Para Além do Paraíso (1984) até Paterson (2016), passando por Broken Flowers – Flores Partidas (2005). O certo é que agora, com a sofisticação de um admirável contador de histórias, Jarmusch aproxima as gerações para expor a verdade dos pais como algo que os filhos nunca saberão — tem a tristeza de um drama redimida pela ternura de uma fábula.

A IMAGEM: Angelina Katsanis, 2026

 

ANGELINA KATSANIS
Soldados da United States Immigration and Customs Enforcement (ICE)
New York Times, 25 janeiro 2026

[imagem publicada com o artigo de Opinião 'State terror has arrived', de M. Gessen]

sexta-feira, janeiro 23, 2026

50 anos de Station to Station [3/3]

Experimentador, sempre à frente do seu tempo, David Bowie só foi um visionário porque, paradoxalmente ou não, nunca cortou relações (em boa verdade, intensificou-as) com as referências que o inspiraram, de alguma maneira moldando a sua personalidade artística. Daí o seu reencontro com uma canção como Wild Is the Wind, original de Dimitri Tiomkin/Ned Washington para o filme homónimo de 1957, com Anna Magnani e Anthony Quinn sob a direção de George Cukor; Johnny Mathis era o intérprete, aliás com enorme na sucesso na época, mas talvez não seja exagero dizer que a versão mais lendária da canção pertence a Nina Simone (editada no seu álbum Wild Is the Wind, 1966). Para Bowie, retomar Wild Is the Wind era, antes de tudo o mais, uma homenagem a Nina — o teledisco da canção, produzido alguns anos mais tarde para o lançamento da antologia Changestwobowie (1981), com direção de David Mallet, inclui uma banda fictícia cujos elementos, de facto, não participaram na gravação da canção (Tony Visconti surge no baixo).
Station to Station foi lançado no dia 23 de janeiro de 1976 — faz hoje 50 anos.


>>> Site oficial de David Bowie.