quinta-feira, outubro 15, 2026

A televisão na companhia dos monstros

Robert Pattinson: a Reality TV como um filme de terror

Com Robert Pattinson como actor e produtor, Primetime é um filme raro e precioso sobre a monstruosidade existencial da Reality TV — o cinema americano continua atento à degenerescência de algumas zonas do espaço televisivo [este texto foi publicado no Diário de Notícias, 8 outubro).

Ao abordar uma variante da Reality TV, o novo filme protagonizado por Robert Pattinson, Primetime, tem tanto de brilhantismo artístico como de actualidade política. Até porque a proliferação da Reality TV conseguiu uma terrível “proeza” ideológica, obrigando a confundir imagens “naturais” seja de quem for, para mais em contextos de clausura simbólica (Big Brother, etc.), com sinais de uma verdade existencial que, além de não poder ser questionada, justifica todos os excessos anti-humanistas — para reforçar a obscenidade cultural que isso arrasta, diversos modelos de “jornalismo” passaram a integrar as respectivas técnicas.
Lembramo-nos, por isso, de filmes que, ao longo das décadas, têm desmontado as falácias morais e narrativas que encontram no pequeno ecrã um palco perverso. Penso, claro, no valor premonitório de Network/Escândalo na TV (Sidney Lumet, 1976) e no resgate poético de The Truman Show/A Vida em Directo (Peter Weir, 1998). Ou ainda na visão contundente de Reality (Matteo Garrone, 2012). Sem esquecer esse admirável “mea culpa” televisivo que é a série UnREAL (Marti Noxon, 2015-18).
Com o seu quê de ironia macabra, o filme realizado por Lance Oppenheim (com Pattinson envolvido também como coprodutor) “inspira-se em factos verídicos”, ainda que trabalhados em função de uma determinada dramaturgia. Assim, Pattinson interpreta a figura de Chris Hansen, apresentador de To Catch a Predator, programa da NBC transmitido entre 2004 e 2007. Objectivo: apanhar em flagrante homens adultos que tentam envolver menores em actos sexuais.
O dispositivo do programa é o cúmulo da perversidade mediática: utilizando actores adultos, treinados para se darem a conhecer ao telefone como crianças, essas (supostas) crianças atraem os pedófilos às suas casas (forjadas); a certa altura, são recebidos pelo próprio Hansen que, depois de os desmascarar, se apresenta como elemento da NBC, expondo o aparato de câmaras que registou toda a situação e acabando por pedir-lhes que abandonem a casa — no exterior, são de imediato presos por elementos da polícia local. Tudo isso é apresentado com o selo de verdade da Reality TV, incluindo o oportunismo audiovisual a que se dá o nome de “jornalismo de investigação”. Para todos os efeitos, convém referir que Hansen é um jornalista já agraciado com uma dezena de Emmys (embora nenhum por To Catch a Predator).
Que faz, então, um filme como Primetime? Expõe a bizarra cumplicidade entre os monstros retratados e a monstruosidade conceptual da televisão — entenda-se: deste modelo de televisão. Não estamos perante uma vulgar “denúncia” que nomeia as figuras malignas para, depois, se apresentar como uma espécie de observação microscópica, inevitavelmente “objectiva”, dos acontecimentos que encena. Aliás, a direção fotográfica assinada por David Bolen é um factor primordial que contamina toda a ambiência dramática: as imagens apresentam uma textura típica do video (mesmo quando não pertencem ao programa To Catch a Predator) que nos faz sentir no interior de um delirante mundo de espelhos em que as diferenças entre “realidade” e “ficção” foram diluídas na histeria abstracta deste tipo de espectáculo — todas as personagens, encenadores e encenados, são peões do mesmo logro.
A figura chave de tudo isto será o jovem Dan, numa subtil composição de Skyler Gisondo, contratado para representar a vulnerabilidade infantil, sem entender que é a sua própria identidade que está a ser “reconstruída”, em particular por Andie, a maquiavélica produtora que Merritt Weever interpreta, literalmente, com requintes de malvadez. Enfim, não esqueçamos que Robert Pattinson há muito se libertou da herança da saga Twilight, impondo-se aqui num dos melhores momentos da sua carreira, talvez só comparável a Cosmopolis (David Cronenberg, 2012). Uma nota especial para a cantora Phoebe Bridgers, numa das figuras treinadas para dialogar com os pedófilos, trabalho de misteriosa complexidade emocional — tão bom como Lost Weekend, o seu terceiro álbum de estúdio, lançado em agosto.