Qual será o desenlace do imbróglio Paramount/Warner? Que restará da estrutura industrial de Hollywood? E também do seu poder simbólico? — este texto está disponível na edição de julho/agosto da revista Metropolis.
Por estes dias a ocupar milhares de ecrãs em todo o mundo, A Odisseia, de Christopher Nolan, é um acontecimento que transcende os valores específicos do espectáculo segundo Hollywood — o que está em jogo é também a capacidade, de uma só vez industrial e artística, de os grandes estúdios americanos contrariarem a rarefação de espectadores nas salas. Por uma ironia com algo de macabro acontece que Hollywood está a viver uma outra odisseia que pode abalar (para muitos de forma irreversível) as próprias estruturas e, no limite, o conceito mitológico de Hollywood. Ou seja: como vai evoluir a questão da possível aquisição da Warner pela Paramount?
Durante cerca de um ano, a Warner (Warner Bros. Discovery, para sermos exactos) parecia destinada a ser comprada pela Netflix — devorada, diziam os mais cépticos. Seria uma forma de baralhar ainda mais as relações tensas, nem sempre muito saudáveis, entre os mecanismos clássicos de produção e os circuitos de streaming. Com o afastamento da Netflix, o suspense desembocou numa nova oferta: argumentando com a necessidade de combater o fogo com o fogo — entenda-se: criando um novo gigante capaz de enfrentar, taco a taco, filme a filme, a dimensão imperial da Netflix, Amazon e Google —, a Paramount colocou na mesa a sua oferta. Que é como quem diz: 111 mil milhões de dólares (contas redondas: 96 mil milhões de euros).
O assunto estava longe de ser linear, mas parecia poder resolver-se através de alguns acertos técnicos — “technicalities”, dizem os americanos, porventura com involuntária ironia. O certo é que nada mais nada menos que 12 estados americanos, incluindo Nova Iorque, Arizona e Colorado, apresentaram uma acção judicial conjunta no sentido de bloquear o negócio. Motivo central: a defesa do circuito das salas que, apesar de tudo, tem estado a reaproximar-se de valores anteriores à pandemia... “Technicalities”? Não exactamente, quanto mais não seja porque alguns dias mais tarde uma nova acção, com o mesmo objectivo — impedir o negócio Paramount/Warner —, foi apresentada pela Writers Guild of America.
Será preciso lembrar que a “guild” dos argumentistas é uma entidade fulcral no sistema interno de Hollywood? Mais do que isso: a história do cinema americano garante que qualquer abalo daí proveniente acaba por se repercutir, para o melhor ou para o pior, em todas as estruturas de produção e difusão. Esta é uma odisseia cujo desenlace não está antecipadamente escrito.

