segunda-feira, junho 18, 2007

Discos da semana, 18 de Junho

Não é por acaso que a aproximação da data de lançamento de cada novo álbum dos White Stripes dele faz um dos acontecimentos mais esperados do ano. E a verdade é que nunca desiludem conseguindo, apesar do estrutural minimalismo que lhes é marca de personalidade, surpreender e, de facto, vincar a diferença a cada disco. Icky Thump, na verdade, é talvez mesmo o mais surpreendente dos seus seis álbuns (se é o melhor, a distância, com o tempo, que o ajude a concluir). Por muito que o não pareça a um primeiro contacto, mantém firme a pulsão ecléctica de Get Behind Me Satan (afastando contudo os pianos e marimbas que aí foram protagonsitas), mas mostra igual vontade em retomar mais evidentemente as suas genéticas primordiais. É intenso, desafiante e reforça o estatuto do duo como uma das bandas de referência rock’n’roll da presente década. É verdade que muitos chegaram a temer pelo futuro dos White Stripes. A carreira de aplauso e sucesso dos Raconteurs, a mudança de Jack White de Detroit para Nashville, o casamento e nascimento de uma filha pareciam agenda difícil de superar através de uma banda então já com cinco álbuns e reconhecidos feitos atingidos. Mas tudo o que aconteceu entre 2005 e o presente acabou por injectar novas forças numa banda que volta a agitar. Icky Thump é tudo o que esperávamos e não esperávamos nos White Stripes. Os blues são sangue vivo, revisitados até segundo visões que por vezes lembram Der Stijl (de 2000). Mas a viagem aqui é de vistas mais largas, passando pelo saborear do hammond em I’m Slowly Turning Into You, pelo sobrevoar de terrenos metal em Little Cream Soda, a herança céltica em Pricky Thorn, But Sweetly Worn (onde não faltam gaitas de foles) ou mesmo uma breve trip psicadélica em St Andrew (uma espécie de posfácio quimicamente induzido sobre o inesperado mergulho celta). Um dos grandes pólos de surpresa do álbum revela-se em Conquest, onde travos mexicanos contaminam um rock de viço solarengo, sob metais mariachi, passo doble sugerido por Meg White e um solo de trompete, acompanhando uma história de touros e toureiros (nunca desde a aventura dos Marc And The Mambas, de Marc Almond, há mais de 25 anos, a cultura pop/rock anglo-americana havia abordado o universo da tourada com semelhante intensidade). A fechar, referência inevitável à faixa de abertura (e que dá título ao álbum. Icky Thump é citação clara da genética blues via Led Zeppelin, num tema que só não terá a projecção de Seven Nation Army por ser mais reverencial que assimilação de memórias que se admira. Liricamente, contudo, é uma das mais acutilantes canções de sempre dos White Stripes, numa sóbria reflexão sobre a presente má relação da América com a emigração, sobretudo a mexicana. Em suma, um rock’n’roll revigorante que em tudo sublinha o estatuto de uma banda fundamental.
White Stripes
“Icky Thump”
XL Recordings / Popstock
4/5
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O Canadá reentrou há poucos anos no mapa pop da música actual sob uma invasão intensa de novas bandas de feição indie, dos Arcade Fire aos Hidden Cameras, dos Broken Social Scene aos The Dears, dos The Stars aos Death From Above 1979, do projecto Final Fantasy à Belle Orchestre. Apesar da sua existência até aqui relativamente discreta, Antoine Bédard (habitualmente escondido por detrás do nome Montag e talvez distante, apesar de natural de Montreal, por viver hoje na mais distante Vancouver), merece ser acrescentado ao lote destes novos canadianos de "referência". Going Places, o seu terceiro álbum, é uma das mais interessantes contribuições recentes para a (eterna) reinvenção da canção pop. Parte, como seria de esperar no músico, de uma artilharia polida de filigranas digitais. Mas aceita como tempero que faz a diferença a colaboração activa de uma série de importantes parceiros, de Owen Pallett (Final Fantasy) às Au Revoir Simone, de Amy Millan (a voz dos Stars) a Anthony Gonzales (dos M83). Aqui se vivem meticulosos instantes de acontecimentos onde a precisão da melodia e a eloquência das cenografias servem de palco a linhas vocais de discreta, mas presente personalidade. As canções são ora monumentos de contido minimalismo, ora explosões pop exuberantes, por vezes espreitando mesmo patamares de grandiosidade quase sinfonista, contudo nunca perdendo uma dimensão humana. Música tranquila. Computadores e moogs, cordas e vozes, numa celebração pop, ora festiva, ora implosiva, nunca sombria.
Montag
“Going Places”

Carpark Records / Flur
4/5
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Os Trademark são um trio britânico formado em 1995 e com discografia desde então registada. Foram contudo presença invisível até o Sunday Times ter feito do belo álbum de 2004, Want More, um dos acontecimentos da altura, nele encontrando marcas de revitalização de um legado marcante da história da música popular recente: o electro pop, de inícios de 80. Num tempo em que a redescoberta da new wave era ainda a principal receita na ordem do dia, os Trademark mostravam que havia pistas a redescobrir além dos XTC, Wire, Joy Division, Psychedelic Furs ou Adam & The Ants. Nomes como os Blancmange, Yazoo ou os entre nós menos conhecidos Book Of Love (todos eles descendentes da transformação pop dos Human League revelada em Dare!, de 1981) revelavam-se assim tão dignos de redescoberta quanto os outros companheiros de classe então sob focos de entusiasmada revisitação. Três anos depois, o novo álbum dos Trademark mais não faz que dar continuidade a essa cruzada electro pop, propondo um álbum de canções com travo clássico, feitas de electrónicas retro, melodismo e batidas dançáveis insistentes (aqui morando as mais evidentes marcas de contemporaneidade da sua música). A voz de Oliver Horton é sóbria presença sobre uma música luminosa, o contraste “frio” evocando igualmente marcas de um tempo em que fazia escola a pose robótica de John Foxx ou Gary Numan, porém sem querer convocar ao presente os devaneios teatrais de ambos. Raise The Stakes é um disco pop seguro, polido, pensado. Peca apenas pela excessiva presença da memória convocada, faltando ainda ao trio tempo para procurar no futuro, depois de bem geridas as formas recuperadas (o que já aqui é evidente), como as adaptar ao presente, a si, a algo que os faça alguém que não apenas a soma certinha dos magníficos discos de que tanto gostam.
Trademark
“Raise The Stakes”

Truck Records
3/5
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Quando o pitoresco se torna protagonista em qualquer operação, mais dia menos dia acabamos por reconhecer que fomos enganados. A euforia “de culto” com que os Sigur Rós foram aclamados faz justiça ao esforço de construção de uma individualidade que nos deu já alguns grandes discos, como também valentes secas. O admirador contagiado, porém, gosta de tudo. O que é da banda. E, muitas vezes, dos que a rodeiam. Só assim se explica o entusiasmo desmedido que foi revelado, via aplausos, às actuações das Amiina, quarteto feminino que fez as primeiras partes dos compatriotas islandeses na sua última digressão. Porém, o que podia até ter algum sentido (e graça) ao vivo, é agora logro inevitável em disco. Expressão do que cada vez mais parece ser uma escola de muitos alunos na Islândia, uma música ambiental, feita de pezinhos de lã que mal tocam o chão, tem aqui uma das suas manifestações menos entusiasmantes. Ao contrário de uns Múm, que nestas pistas encontraram terreno para, sob receita minimalista e milimétrica, definir um espaço diferente de abordagem à canção, as Amiina tecem instrumentais que soam mais a experiência em busca de algo que num verdadeiro destino procurado. Não é uma música com o sabor da improvisação. É meticulosa, discreta, mesmo doce. Agradável aos sentidos, mas incapaz de ultrapassar o efeito wallpaper porque, no fim, nunca parece mais que um fundo para qualquer coisa que depois não apareceu e deixou a coisa inacabada... Inconsequente, mesmo que por vezes agradável...
Amiina
“Kurr”

Ever / Popstock
2/5
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Maria Taylor, natural do Alabama, chega aos 30 anos com um cabaz notável de feitos musicais, sobretudo conquistados através das Azure Ray ou dos Now It’s Overhead (bandas que ainda integra). Em 2005 cativou atenções a solo com 11.11, um álbum onde se aproximava claramente da filosofia Bright Eyes. Dois anos depois, Lynn Teeter Flower encontra-a mais tranquila, mais de pés na terra, mais pronta a encontrar o seu lugar (mesmo entre muitos amigos presentes em estúdio). Maria Taylor não tem o carisma de uma Cat Power, a intensidade de uma Lisa Germano ou a poética de uma Suzanne Vega, todavia mostra aqui sinais de conquista de uma voz criativa capaz de dar vida a contos de dor, solidão e dúvida. Sem o aparato cénico do álbum de estreia a solo, o novo disco entrega as canções a arranjos mais subtis, não mostra sinais de demanda experimental e, ocasionalmente, aproxima-se mesmo do que já nos mostrou nas Azure Ray (nada de grave, antes pelo contrário). Entre os convidados e amigos conta com as presenças de Connor Oberst (Bright Eyes) e Andy LeMaster (Now It’s Overhead). Juntos procuram um espaço que sirva as palavras delicadas e a voz plácida de Maria Taylor. Uma boa prova de esforço, com um conjunto de canções que vão agradar a quem a já conhecia, bem como aos frequentadores das latitudes mais melancólicas da canção americana.
Maria Taylor
“Lynn Teeter Flower”

Saddle Creek / Popstock
3/5
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Também esta semana: Mute Audiodocuments (de 10 CD), Nick Drake (best of), Simian Mobile Disco, BowieMania (tributo a Bowie), Goran Bregovic, Júlio Pereira

Brevemente:
25 de Junho: Editors, Philip Glass, Beastie Boys, Ryan Adams, Map of Africa, Marc Almond (ed local), Sebadoh, The Bravery (ed local), U2 (DVD)
2 de Julho: Chemical Brothers, Jorge Palma, Crowded House, Blondie (reedição), Depeche Mode (reedição), Frank Black, Clinic, Ryan Adams, Komputer
9 de Julho: Interpol

Julho: O. Golijov, David Bowie (DVD)


Estas datas podem ser alteradas pelas editoras a todo o momento