domingo, agosto 11, 2019

EUA: violência com armas x 253

A urgência das imagens conduz-nos, por vezes, através da contundência dos números. Apresentando a edição desta semana da revista Time (com data de 19 Agosto), o editor-chefe Edward Felsenthal escreve, justamente, sobre essa trágica dialéctica face aos episódios de violência com armas de fogo nos EUA e a renovada razão para utilizar como título a palavra 'Basta' (enough).
Registados pelo Gun Violence Archive — organização não lucrativa que recebe e organiza informação sobre incidentes com armas de fogo nos EUA —, verificaram-se 253 desses episódios ao longo de 2019. Em cada um deles pelo menos quatro pessoas (não incluindo os agressores) foram feridas ou mortas — o artista John Mavroudis concebeu a capa da Time a partir da listagem dos 253 locais em que tudo aconteceu. Ou como a palavra pode ser a mais forte das imagens.

sábado, agosto 10, 2019

Síndrome de Estocolmo — as origens

Com Ethan Hawke no papel central, Síndrome de Estocolmo evoca o assalto que deu origem à própria expressão usada no título: ou como se pode estabelecer alguma cumplicidade entre raptores e reféns — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 Agosto).

O filme Síndrome de Estocolmo abre com uma legenda que explica a própria expressão do título: “tendência psicológica de um refém se ligar ao seu raptor.” Mas não se trata apenas de encenar uma situação simbólica, capaz de reflectir essa inusitada relação afectiva (refém/raptor). Porquê? Porque o filme realizado pelo canadiano Robert Budreau evoca a própria situação verídica que deu origem à expressão.
Estamos, de facto, perante um drama inspirado no assalto a um banco de Estocolmo, perpetrado pelo sueco Jan-Erik Olsson, a 23 de Agosto de 1973 — a evolução dos acontecimentos foi sendo contaminada por essa inesperada “simpatia” entre Olsson e os seus reféns, funcionários do banco. Em qualquer caso, não há no filme de Budreau qualquer tentativa de “reconstituição”, até porque os nomes das personagens são fictícios, a começar pelo líder dos assaltantes, Kaj Hansson, interpretado por Ethan Hawke.
Também não se trata, entenda-se, de explicar “cientificamente” a lógica (ou a falta de lógica) que, numa conjuntura de profundo dramatismo, pode gerar inesperados laços emocionais entre agressor e agredido. O maior mérito cinematográfico do trabalho de Budreau será mesmo esse: evitar qualquer efeito de “tese”, optando antes pela encenação de um labirinto humano que, em última instância, se rege pelas regras clássicas do “thriller”.


Budreau é, antes do mais, um rigoroso director de actores. Foi ele, aliás, que também dirigiu Hawke num belo filme sobre uma lenda do jazz, Chet Baker: chama-se Born to Be Blue (2015) e, infelizmente, nunca chegou às salas portuguesas. Agora, para além de Hawke, compondo um ladrão fascinado pelas canções de Bob Dylan (!), Noomi Rapace e Mark Strong são também exemplares: ela como a empregada do banco que, na condição de refém, vai desenvolvendo uma peculiar cumplicidade com o assaltante; ele no papel do cúmplice, inicialmente na prisão, cuja libertação é exigida por Hansson.
O filme sabe manter um equilíbrio simples, mas eficaz, entre os momentos de pura acção física e as situações em que, dentro e fora do banco, a inquietação aumenta (ponto fraco: a caracterização dramática dos polícias obedece a uma banalidade esquemática, quase sempre previsível). Particularmente subtis são os momentos em que, através da interpretação de Hawke e Rapace, vamos percebendo que algo está a acontecer, transcendendo e, até certo ponto, anulando o conflito inerente às suas identidades.
Do ponto de vista histórico, Síndrome de Estocolmo contém ainda os curiosos sinais de um fenómeno mediático que, no assalto ao banco de Estocolmo, terá tido um dos seus momentos fundadores: esta é, na verdade, uma das primeiras situações em que a presença da televisão contribuiu para que os cidadãos experimentassem a sensação ambígua de acompanhar os acontecimentos “em tempo real”. Podemos perguntar se tal método de reportagem serviu, realmente, para enriquecer a própria linguagem televisiva... Mas como diria uma personagem de Billy Wilder [video: Irma la Douce, 1963], isso é outra história...

Tom Ford + Steven Klein

Portfolio de Steven Klein para a colecção Outono/Inverno de Tom Ford — cenários de um tempo cujas coordenadas acederam a uma dimensão paradoxal, porque intemporal. Ou a pura abstracção dos gestos gerada através do concreto de corpos e objectos.

sexta-feira, agosto 09, 2019

Jean-Pierre Mocky (1929 - 2019)

Actor, produtor, argumentista, realizador e, por fim, distribuidor/exibidor, foi um eterno marginal do cinema francês: Jean-Pierre Mocky faleceu no dia 8 de Agosto, em Paris — contava 90 anos.
O cognome de "franco-atirador" acompanhou-o desde que, já uma carreira de actor, começou a realizar os seus filmes, estreando-se em 1959 com o drama Les Dragueurs, protagonizado por Charles Aznavour. Aliás, Aznavour seria um dos seus intérpretes de eleição, a par de Bourvil (que dirigiu, por exemplo, em La Grande Lessive, uma comédia de 1968 contra os estereótipos televisivos) ou Michel Serrault (actor em doze dos seus filmes, incluindo Le Miraculé, farsa de 1987 denunciando a mercantilização das peregrinações religiosas a Lourdes).
Coabitou com a Nova Vaga e todas as transformações posteriores da produção francesa, embora mantendo-se como um obstinado individualista; em meados dos anos 90, tentando contrariar as dificuldades de difusão do seu trabalho, adquiriu mesmo uma sala de Paris, especialmente vocacionada para a exibição dos seus próprios filmes. Em qualquer caso, a sua solidão criativa, muitas vezes expressa através de contundentes críticas sociais, não o impediu de dirigir algumas grandes estrelas do cinema francês, incluindo Fernandel (em 1967, na comédia policial La Bourse et la Vie), Jacques Dutronc (em 1982, na sátira política Y a-t-il un Français dans la Salle?), Jeanne Moreau (no citado Le Miraculé) e Catherine Deneuve (em 1987, no "thriller" Agent Trouble).
De uma versatilidade incrível, da escrita de argumentos à interpretação — integra o elenco de uma boa metade dos seus filmes, incluindo o emblemático Solo (1970), drama policial do pós-Maio 68 —, Mocky trabalhou também regularmente na televisão, de tal modo que a sua filmografia global contém mais de uma centena de títulos. Em 2016, Charles Schnaebele e Virgile Tyrode dedicaram-lhe o documentário La Loi de l'Albatros; no mesmo ano, publicou a auto-biografia Mocky soit qui mal y pense.


>>> Trailer de Y a-t-il un Français dans la Salle? + trailer do documentário La Loi de l'Albatros + entrevista ao jornal Le Figaro (por ocasião da morte de Charles Aznavour, Outubro 2018).






>>> Obituário no canal Arte.

Os dólares contra a cinefilia

Clark Gable e Vivien Leigh
Que significa dizer que um determinado filme acumulou centenas de milhões de dólares de receitas? Mais do que nunca, importa lembrar que o amor do cinema não é um assunto das secções de contabilidade — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Agosto).

Ciclicamente, deparamos com notícias sobre o gigantismo das receitas de determinados filmes provenientes dos EUA. São sempre muitos milhões de dólares envolvendo os mais variados recordes...
Desconcertante é o facto de a esmagadora maioria dessas notícias omitir qualquer informação sobre o custo dos filmes e respectivas campanhas promocionais. Mesmo quando emanadas de secções especializadas em economia e finanças, raramente procuram contextualizar e, nessa medida, relativizar os valores em jogo. Não poucas vezes, tal omissão favorece a noção simplista, para não dizer demagógica, segundo a qual a importância cinematográfica de um determinado objecto decorre, automaticamente, da felicidade vivida pela contabilidade de quem o produziu.
Há dias, no site da CNN (na secção “Business”), deparei com um artigo a dar conta, precisamente, de alguns desses valores astronómicos. A saber: com O Rei Leão, os estúdios Disney têm um filme a ultrapassar, pela quarta vez em 2019, mil milhões de dólares de receitas globais (os outros são Vingadores: Endgame, Capitão Marvel e Aladdin). Quer isso dizer que a frequência das salas de cinema está num patamar de absoluta euforia?
Escusado será dizer que ninguém desmente as espantosas performances comerciais. Ainda menos se pretende atrair essa forma tradicional de estupidez segundo a qual os críticos de cinema estariam sempre dispostos a minimizar os filmes com invulgar impacto no mercado. Não creio que isso seja relevante para estas considerações, mas permito-me repetir que considero O Rei Leão uma belíssima e muito inteligente forma de recriar o título homónimo, também um enorme sucesso, lançado em 1994. O ponto é outro: fosse qualquer fosse o juízo de valor sobre o filme, a pertinência destas considerações seria idêntica.
Acontece que um milhão de dólares em 2019 não corresponde a um milhão de dólares de 1939. Mesmo quem não tenha qualquer especialização em temas económicos e financeiros (é o meu caso) compreenderá que o valor da moeda é relativo, quer dizer, decorre do contexto em que circula.
Citei, aliás, a data de 1939 porque é desse ano o filme americano que, de acordo com valores “ajustados à inflação”, continua a ser o mais rentável de sempre nas salas dos EUA. Chama-se E Tudo o Vento Levou e, contas redondas, teve receitas 4,7 vezes superiores às de O Rei Leão: 1.822 milhões contra 385 [Box Office Mojo]. Tendo em conta que a receita planetária de O Rei Leão é, no momento em que escrevo, de 1.023 milhões, isso significa que, apenas no interior dos EUA, E Tudo o Vento Levou conseguiu perto de 1,8 vezes mais.
O interesse destes números não envolve, insisto, qualquer interpretação temática ou leitura estética dos filmes. Trata-se, isso sim, de resistir a uma visão do fenómeno cinematográfico como um esquemático jogo de “deve” e “haver”, lembrando que as performances de muitos filmes mais antigos nos confrontam com um fenómeno tão básico quanto perturbante: há cada vez menos espectadores nas salas escuras. Pensar a cinefilia, aqui e agora, começa por aí.
Para nos ficarmos pelo Top 10 da citada lista dos mais rentáveis (“ajustados à inflação”), verificamos que o mais recente, Titanic, em 5º lugar, tem 22 anos; além disso, metade da lista é feita com títulos com mais de meio século, incluindo, em 10º lugar, um ainda mais antigo que E Tudo o Vento Levou, ou seja, Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937 (com receitas 2,5 superiores às de O Rei Leão).
Tudo isto devia sensibilizar-nos para a grande encruzilhada económica, logo eminentemente cultural, em que vive o cinema no tempo do triunfo das plataformas digitais. O seu dramatismo envolve dois desafios: em primeiro lugar, manter a defesa do património de conhecimento e sociabilidade ligado às salas escuras; segundo, mostrar aos espectadores mais jovens que os amores de Clark Gable e Viven Leigh não foram encenados para serem vistos no ecrã dos seus telemóveis.

quinta-feira, agosto 08, 2019

Abbey Road, 8 Agosto 1969

Seis fotografias. Dez minutos de trabalho.
Tanto bastou para que o fotógrafo escocês Ian Macmillan (1938-2006) obtivesse aquela que é, por certo, uma das imagens mais célebres no universo da música popular ao longo (e para lá) do século XX: George Harrison, Paul McCartney, Ringo Starr e John Lennon atravessam uma passadeira da Abbey Road, em Londres, junto aos estúdios da EMI.
Foi no dia 8 de Agosto de 1969 — faz hoje 50 anos.
Cerca de um mês e meio mais tarde, a 26 de Setembro, a fotografia nº 5 da série de seis [ao centro, na linha de baixo] entrava na história como capa de Abbey Road, penúltimo álbum dos Beatles, apesar de, em boa verdade, ter sido o derradeiro a ser gravado (os registos de Let It Be, lançado a 8 de Maio do ano seguinte, eram anteriores).


Em 1970, os estúdios da EMI mudavam de nome para Abbey Road Studios.
Entretanto, para assinalar o cinquentenário do lançamento de Abbey Road está prevista para o dia 27 de Setembro uma especialíssima edição comemorativa (com remisturas e material inédito das gravações). Eis o video promocional dessa edição e, em baixo, o novo/velho som de Something, uma das composições assinadas por George Harrison.



A IMAGEM: Bruno Barbey, 1980

BRUNO BARBEY [Magnum]
Templo budista, Loshan, China
1980

Rui Rechena (1966 - 2019)

[FOTO: Amor Electro]
Músico dos Amor Electro, Rui Rechena, hospitalizado há cerca de dois meses, faleceu no dia 7 de Agosto — contava 53 anos.
Era o baixista da banda fundada em 2010 — com Marisa Liz (voz), Ricardo Vasconcelos (teclas), Tiago Pais Dias (guitarra) e Mauro Ramos (bateria). No passado dia 13 de Junho, a própria banda divulgara a notícia do internamento hospitalar de Rui Rechena: "O nosso 'REI' [os amigos tratavam-no por Rex] tem estado a passar uma fase complicada e necessitará dos próximos meses para procurar restabelecer-se, o que faz com que tenha de estar ausente dos palcos por tempo indeterminado."
Com os Amor Electro, gravou os álbuns Cai o Carmo e a Trindade (2011), Revolução (2013) e #4 (2018) — este é o teledisco de Procura por Mim, do último desses álbuns.


>>> Obituário no Blitz.

David Berman (1967 - 2019)

Personalidade emblemática do indie-rock, poeta de muitas formas de angústia, o americano David Berman faleceu no dia 7 de Agosto, sem que tenham sido divulgadas oficialmente as causas da morte — contava 52 anos.
Com Stephen Malkmus e Bob Nastanovich, dois colegas da Universidade da Virginia, Berman fundou os Silver Jews em 1989. Na prática, a visibilidade da banda foi sendo contrariada pelo facto de, pela mesma altura, Malkmus e Nastanovich lançarem um outro projecto, os Pavement, com muito mais impacto comercial. Seja como for, dos Silver Jews ficou uma colecção de seis álbuns exemplares do som indie, sendo American Water (1998) normalmente apontado como o momento mais importante da sua discografia.
A sua existência foi marcada por episódios de depressão e dependência de drogas, tendo tentado suicidar-se em 2003. Directa ou indirectamente, ele próprio associou as suas crises identitárias ao pai, Richard Berman, figura pública dos "lobbies" das indústrias das armas e do álcool. Segundo um tweet do músico Joe Pernice, Berman ter-se-á suicidado.
A notícia da sua morte foi tanto mais chocante quanto, depois de um hiato musical de mais de uma década (o álbum final dos Silver Jews, Lookout Mountain, Lookout Sea, surgira em 2008), Berman tinha relançado a sua actividade, com a designação artística de Purple Mountains, contando com a colaboração de músicos da folk como Jeremy Earl e Jarvis Taveniere — o álbum homónimo está nas lojas desde o dia 12 de Julho; a primeira digressão dos Purple Mountains deveria começar a 10 de Agosto em Kingston, Nova Iorque.

>>> Random Rules (álbum: American Water) + All My Happiness is Gone (Purple Mountains).




>>> Obituário na Rolling Stone.

quarta-feira, agosto 07, 2019

Björk, eroticamente, naturalmente

Björk continua a trabalhar com o realizador Tobias Gremmler, ilustrando, recriando e (apetece dizer) delirando os cenários do seu álbum Utopia (2017). Depois de Tabula Rasa, aí está, agora, o teledisco da canção Losss, prolongando um gosto de transfiguração fundado na mesma dialéctica — reconversão utópica da Natureza, erotização de todas as formas.

We all are struggling, just doing our best
We've gone through the grinder, suffered loss
Lost to, to which everything flows, an absence which
Attracts floral blooming softly

Soft is my chest, I didn't allow loss
Loss make me hate, didn't harden from pain
This pain we have will always be there
But the sense of full satisfaction too

I opened my heart for you
Your lower lip so heavy on you
My spine curved erotically
We're finally vulnerable

Loss of love, we all have suffered
How we make up for it defines who we, who we are
It defines us, how we overcome it
Recover, repair from loss

Loss of faith just ignites survivors
They stare doubt straight into the eye
I forgive, the past is bondage
Freedom aphrodisiac (aphrodisiac)

I've opened my heart for you
Tied ribbons on my ankles for you
Drew orchids on my thighs for you
Your lower lip so heavy on you
My spine curved erotically
Tied ribbons on my ankles for you
Drew orchids on my thighs for you
Your lower lip so heavy on you
My spine curved erotically
We're finally vulnerable

terça-feira, agosto 06, 2019

Toni Morrison (1931 - 2019)

[FOTO: Timothy Greenfield-Sanders]
Foi a primeira mulher afro-americana a receber o Prémio Nobel da Literatura: a escritora americana Toni Morrison faleceu no dia 5 de Agosto, no Montefiore Medical Center, em Nova Iorque, na sequência de uma pneumonia — contava 88 anos.
De seu nome Chloe Ardelia Wofford, é autora de uma obra imensa, desde o primeiro romance, The Bluest Eye (1970), focada na história dos negros no interior da história mais geral dos EUA, em particular nos processos de afirmação identitária face às manifestações do racismo. Entre os seus títulos mais conhecidos incluem-se Song of Solomon (1977), Beloved (1987), Jazz (1992), Love (2003) e Home (2012).
Distinguido com o Pulitzer, Beloved inspira-se na história de Margaret Garner, uma mulher negra que fugiu à escravatura, em 1856, no estado do Kentucky — seria adaptado ao cinema em 1998, por Jonathan Demme, com Oprah Winfrey como produtora e intérprete principal (o filme não teve distribuição comercial nas salas portuguesas).
Já em 2019, o fotógrafo e cineasta Timothy Greenfield-Sanders apresentou no Festival de Sundance o seu documentário Toni Morrison: The Pieces I Am. No mês de Fevereiro, Toni Morrison publicara The Source of Self-Regard, uma antologia de "ensaios, discursos e meditações".

* * * * *

>>> The systematic looting of language can be recognized by the tendency of its users to forgo its nuanced, complex, mid-wifery properties for menace and subjugation. Oppressive language does more than represent violence; it is violence; does more than represent the limits of knowledge; it limits knowledge. Whether it is obscuring state language or the faux-language of mindless media; whether it is the proud but calcified language of the academy or the commodity driven language of science; whether it is the malign language of law-without-ethics, or language designed for the estrangement of minorities, hiding its racist plunder in its literary cheek – it must be rejected, altered and exposed. It is the language that drinks blood, laps vulnerabilities, tucks its fascist boots under crinolines of respectability and patriotism as it moves relentlessly toward the bottom line and the bottomed-out mind. Sexist language, racist language, theistic language – all are typical of the policing languages of mastery, and cannot, do not permit new knowledge or encourage the mutual exchange of ideas.

TONI MORRISON
Discurso na cerimónia do Nobel
7 Dezembro 1993

* * * * *
>>> Obituário por The Washington Post.


>>> Entrevista por Charlayne Hunter-Gault, na PBS, em 1987 (sobre o lançamento de Beloved).


>>> Trailers dos filmes Beloved (1998), de Jonathan Demme, e Toni Morrison: The Pieces I Am (2019) (2019), de Timothy Greenfield-Sanders.




>>> Toni Morrison Remembers (2015), documentário da BBC realizado por Jill Nicholls; entrevistador: Alan Yentob.


Billie Eilish — elogio da estranheza

O álbum de estreia de Billie Eilish, When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, já nos tinha alertado para a singularidade, fascínio e inquietação dos seus 17 anos. Estamos, afinal, perante uma pessoa cuja identificação poderá ser resumida assim: "Ela é tão Gen Z que faz com que os de vinte e poucos anos pareçam antigos. Nunca comprou um CD. Diz coisas como 'Nunca vou ter 27 anos — é demasiado velho.' É também, provavelmente, a única estrela pop que ainda consulta um pediatra."
As palavras são de Josh Eells e pertencem ao seu magnífico artigo publicado na edição de Agosto da Rolling Stone'Billie Eilish e o triunfo da estranheza' (ou do "estranho", já que a palavra utilizada é weird e não weirdness) —, dando conta do seu dia a dia, entre o espaço familiar e as performances públicas.
Assumindo a nobre tradição do jornalismo americano dedicado às convulsões da cultura popular (de que a Rolling Stone continua a ser uma referência incontornável), a escrits de Eells encontra uma correspondência essencial no portfolio assinado por Petra Collins. As imagens de Eilish expõe, assim, as ambivalências, porventura as contradições, de um modo de ser artista em que a intensidade da comunicação coexiste com a estranheza (a palavra regressa...) de uma nova arqueologia da adolescência e da idade adulta.
Que vemos, por exemplo, na espantosa fotografia da capa? A pose nonchalante da estrela ou o símbolo de uma juventude à procura de um sentido para a sua história mirabolante? A tristeza vulnerável do olhar vale mais, ou vale menos, que o marketing dos ténis? E as mãos? Escondem o sexo ou proclamam que já não há nada para descobrir? — a ler, sem dúvida, até porque sentimos no encontro de Eells e Eilish (incluindo a sua espantosa família) um raro fluxo de ternura.

>>> Dois videos da Rolling Stone: sobre a sessão fotográfica da capa e respondendo ao questionário 'The First Time'.




>>> You Should See Me in a Crown — performance ao vivo.


>>> Billie Eilish no arquivo da Rolling Stone.

"The Walking Dead" regressa a 6 de Outubro

A 10ª temporada da série The Walking Dead chega no dia 6 de Outubro. E com uma série de "abandonos", já que, de acordo com dados divulgados pela AMC, há personagens que vão mesmo desaparecer (inclusive em eventuais flashbacks). Entre essas personagens estão Rick Grimes, Maggie Greene e "Jesus" — interpretados, respectivamente, por Andrew Lincoln, Lauren Cohan e Thomas Payne. No caso de Lincoln, sabe-se que o seu "xerife" Grimes irá reaparecer em filme (eventualmente uma trilogia) a estrear nas salas escuras.
Entretanto, tudo indica que a tribo rival, The Whisperers, liderada por Alpha, interpretada por Samantha Morton, ganhará um ainda maior peso dramático no desenvolvimento da série. Novidade no papel de Gamma, figura muito próxima de Alpha, será Thora Birch (em cuja filmografia encontramos, por exemplo, Beleza Americana e Ghost World, respectivamente de 1999 e 2001).
Eis a apresentação oficial da nova temporada de The Walking Dead.

segunda-feira, agosto 05, 2019

João Gilberto ou o músico ausente

Recentemente falecido, o “pai” da Bossa Nova é a figura central do documentário Onde Está Você, João Gilberto?. Mas como filmar alguém que não se quer mostrar?... — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Agosto).

O documentário Onde Está Você, João Gilberto? vai ser inevitavelmente visto através da memória recente da morte daquele que entrou para a história como “pai” da Bossa Nova. É natural que assim aconteça: João Gilberto faleceu há menos de um mês, a 6 de Julho, contava 88 anos. Em qualquer caso, importa esclarecer que se trata de uma produção concluída em 2018, apresentada há cerca de um ano no Festival de Locarno.
O filme reflecte algo que sempre terá sido claro para o círculo restrito das pessoas, familiares e amigos, mais próximas do cantor/compositor: a existência de João Gilberto foi sendo marcada por um crescente apagamento público e, mais do que isso, pelo cuidado com que ele ia cortando quase todos os laços com o exterior (o filme revela mesmo situações insólitas como, por exemplo, o facto de o empregado do restaurante que lhe servia as refeições não ter o direito de entrar na sua casa).
Que faz, então, o realizador francês Georges Gachot? Inspira-se, antes do mais, num livro, Ho-Ba-La-Lá, À Procura de João Gilberto, cujo autor, o alemão Marc Fischer, protagonizou um processo semelhante de pesquisa: como encontrar João Gilberto? E, sobretudo: como fazer a história da Bossa Nova sem contar com o seu fundamental testemunho?


Gachot vai dialogando, assim, com personagens marcantes da trajectória pessoal e artística de João Gilberto, incluindo a ex-mulher Miúcha (que viria a falecer em finais de 2018) e João Donato, companheiro de muitas digressões e várias emblemáticas canções. Daí a dimensão paradoxal do inquérito jornalístico que se vai transfigurando em viagem surreal, porque centrada numa insuperável ausência — a da figura “retratada”.
Infelizmente, Gachot tenta “compensar” as dificuldades encontradas com o uso da sua voz off, algo pomposa, dissertando em tom de “tese” mais ou menos metafísica sobre a sua própria odisseia de conhecimento/desconhecimento. Os resultados não deixam de envolver uma sugestiva (re)descoberta da magia musical de João Gilberto, mas o dispositivo cinematográfico de Onde Estás Tu, João Gilberto? acaba por ser algo simplista, desnecessariamente repetitivo.

domingo, agosto 04, 2019

D. A. Pennebaker (1925 - 2019)

[FOTO: The Wall Street Journal]
Figura nuclear na história moderna do documentário, o americano Donn Alan Pennebaker faleceu no dia 1 de Agosto em sua casa, em Long Island — contava 94 anos.
A sua definição profissional e a base conceptual do seu trabalho são indissociáveis de Primary (1960), sobre as eleições primárias dos Democratas no estado do Wisconsin, colocando frente a frente John F. Kennedy e Hubert Humphrey. O uso de material muito ligeiro (câmaras e gravadores de som), emergente na época, contribuiu para a elaboração de um modo de rodagem que viria a ser consagrado com a designação de cinema-verdade. O filme foi produzido e realizado por Robert Drew (1924-2014), sendo Pennebaker responsável pela montagem; a fotografia é de Richard Leacock (1921-2011) e Albert Maysles (1926-2015) — todos eles viriam a confirmar-se como personalidades fulcrais na nova dinâmica documental, a que também pertence o veterano Frederick Wiseman (n. 1930), ainda que não se reivindicando dos mesmos métodos ou valores.
A carreira de Pennebaker viria a ter um capítulo essencial ligado à música. Título fundador desse capítulo é Dont Look Back, entre nós lançado como Eu Sou Bob Dylan: filmado em 1965, nele encontramos um registo multifacetado da primeira e muito polémica digressão de Dylan com guitarras eléctricas (surge habitualmente citado como um filme de 1967, ano do seu lançamento). Pennebaker filmou também, por exemplo, Monterey Pop (1968), sobre o Festival de Monterey de 1967 (Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who, etc.), Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1973), sobre o derradeiro concerto de David Bowie na sua personagem de Ziggy Stardust, ou Depeche Mode: 101 (1989), acompanhando a banda de David Gahan e o seu concerto final na digressão 'Music for the Masses'.
Muitos trabalhos de Pennebaker são co-assinados com a sua mulher Chris Hegedus (n. 1952), com chancela da empresa de produção que fundaram, a Pennebaker Hegedus Films. The War Room (1993), sobre a campanha presidencial de Bill Clinton, em 1992, valeu-lhes uma nomeação para o Oscar de melhor documentário; o seu derradeiro trabalhou conjunto, Unlocking the Cage (2016), aborda os direitos dos animais. Em 2013, Pennebaker receberia um Oscar honorário.

>>> Trailer de Dont Look Back + a canção Ziggy Stardust, em Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.




>>> Trailers de The War Room + Unlocking the Cage.




>>> Michael Moore apresentando o Oscar honorário de D. A. Pennebaker [01-12-2012].


>>> Obituário em The Wrap.
>>> Página sobre D. A. Pennebaker em The Criterion Collection.

sábado, agosto 03, 2019

"Green River" — 50 anos

John Fogerty, Tom Fogerty, Stu Cook e Doug Clifford. Nas convulsões musicais e políticas de 1969, os Creedence Clearwater Revival distinguiram-se por uma participação emblemática, a começar pelo facto de terem lançado três álbuns de originais: Bayou Country, em Janeiro, Green River, em Agosto, Willy and the Poor Boys, em Novembro [NPR].
A canção Bad Moon Rising, do segundo desses álbuns, ficou como bandeira de um rock cuja nostalgia folk se projectava numa desencantada visão do presente — there's a bad moon on the rise.
Green River foi lançado a 3 de Agosto de 1969 — faz hoje 50 anos.

I see a bad moon a-rising
I see trouble on the way
I see earthquakes and lightnin'
I see bad times today

Don't go 'round tonight
It's bound to take your life
There's a bad moon on the rise

I hear hurricanes a-blowing
I know the end is coming soon
I fear rivers over flowing
I hear the voice of rage and ruin

Don't go 'round tonight
[...]

I hope you got your things together
I hope you are quite prepared to die
Look's like we're in for nasty weather
One eye is taken for an eye

Don't go 'round tonight
[...]

sexta-feira, agosto 02, 2019

"Apocalypse Now" em IMAX

Como será a glória visual (e sonora) de Apocalypse Now em IMAX?
Pois bem, não saberemos: salvo melhor informação, a versão definitiva do filme de Francis Ford Coppola, estreada em Tribeca, não passará nos ecrãs portugueses, nem sequer no seu formato standard.
Podemos reconhecer que tal passagem envolveria, por certo, custos elevados. Mas podemos também acrescentar que a nossa exterioridade em relação a fenómenos desta importância é também, em parte, resultado de políticas de distribuição/exibição que privilegiam os investimentos nas rotinas de super-heróis & afins.
Registemos, por isso, que Apocalypse Now - Final Cut terá uma breve passagem pelas salas IMAX dos EUA. Para apresentar o evento, encontramos o próprio Coppola, sublinhando que as imagens (e os sons) estão melhores do que nunca — 2 minutos e 59 segundos para arquivar.

The Gift: saudades de São Pedro de Moel

Ah, São Pedro de Moel... Ali tão perto de Leiria, que fizeram ao mapa afectivo do nosso passado? Ali mesmo em frente do mítico oceano, como puderam ignorar as histórias de tantas adolescências, a insensatez de tantas esplendorosas utopias?
A questão é esta: para encenar o seu Verão, The Gift regressaram a São Pedro de Moel, ao glorioso Complexo de Piscinas Oceânicas, inaugurado em 1967, abandonado desde 2013 [Jornal de Leiria + Região de Leiria]. A tristíssima decomposição do lugar serve de cenário ao emblemático tema da banda de Alcobaça, em teledisco realizado por Paulo Costa Pinto, com Sónia Tavares, em pose de impossível sereia, cantando essa balada amarga e doce que evoca "um verão, um simples verão / poemas, curtas prosas que guardei".
Ou como a música teima em não deixar morrer o que alguns empresários, decisores e políticos desconhecem. O quê? A obstinação da memória.


Verão [teledisco]
São Pedro de Moel [Google]

quinta-feira, agosto 01, 2019

"Je suis Tony"

Como filmar Tony Carreira? Com o documentário Tony, o realizador Jorge Pelicano apresenta uma visão genuinamente cinematográfica, atenta ao que acontece dentro e fora do palco — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Julho).

Com filmes “melhores” ou “piores”, o cinema português tem poucas ideias — e, a meu ver, ideias pouco interessantes — sobre os modos de promover os seus produtos. Aliás, utilizo esta palavra “produtos” como sintoma de tal problema: a sua vulgarização comercial impôs-se como elemento revelador do linguajar de algum marketing (muito para além do cinema, convenhamos) que quase sempre se distingue por um apoteótico vazio de pensamento sobre o mais cultural dos fenómenos, isto é, o mercado.
O cartaz de Tony, o muito sóbrio e muito didáctico documentário de Jorge Pelicano sobre o cantor Tony Carreira, é um depurado exemplo de um marketing que, realmente, pensou. E que, por isso mesmo, sabe identificar o objecto fulcral do filme que divulga e promove. O que, entenda-se, é tanto mais interessante quanto a imagem de Tony Carreira tende a ser um factor de clivagem na própria sociedade portuguesa — como se a sua simples exposição implicasse uma divisão simbólica dos cidadãos.


“Gostar” ou “não gostar” de Tony Carreira? Sim, claro, podemos formular a questão. Mas será que ela nos abre as portas do próprio fenómeno que quer abarcar?
Evitemos generalizações grosseiras. Por mim, não necessito de me submeter a qualquer purificação ideológica para conjugar, como complementares, dois enunciados muito básicos: primeiro, não me sinto mobilizado ou seduzido pelo universo musical de Tony Carreira; segundo, não creio que isso seja uma justificação para tratar a pessoa, ou o seu trabalho, como uma “outra” forma de ser português.
Colocá-lo num território a cuja portugalidade eu não pertenceria seria demitir-me de conhecer a pluralidade da própria comunidade a que pertenço. Do mesmo modo, situar-me numa dimensão portuguesa a que ele não teria o direito de aceder seria ainda mais simplista — seria pura estupidez.
Sinto necessidade de definir este preceito existencial pela mais triste das razões. A saber: não é fácil ser português, interessarmo-nos pelas infinitas facetas dos nossos modos de ser, sem que se insinue no nosso viver uma compulsão (frequentemente favorecida pelo jornalismo mais medíocre, é verdade) segundo a qual a nossa identidade colectiva seria um apocalipse de “prós” e “contras” ou, o que vem a dar no mesmo, um processo compulsivo de permanente unicidade.
Claro que os valores dominantes do imaginário futebolístico passaram a ter um peso determinante na transformação dessa dinâmica colectiva numa guerra, literal e simbolicamente, clubista. Sabemos também que os clubismos mais grosseiros têm pontuado de forma cruel a história dos filmes em Portugal, afinal abrindo espaço para a emergência, desenvolvimento e amplo domínio de um sistema de produção regido pelos valores narrativos da telenovela (e não creio que fenómenos pontuais como os números de bilheteira de alguns filmes produzidos ou realizados por Leonel Vieira consigam transformar tais valores em linguagem específica de cinema).


Mérito de Jorge Pelicano, neste caso concreto. Em vez de reduzir Tony Carreira a um joguete de clivagens de “gosto”, o seu filme organiza-se a partir de uma atitude genuinamente cinematográfica. A saber: documentar os modos de existência, dentro e fora do palco, de alguém que, afinal, é um peão (invulgar, sem dúvida) de vários capítulos das últimas décadas da nossa história colectiva, a começar pelo período mais intenso de emigração para França (decididamente mais complexo do que os clichés que a ele sempre se colaram).
Componente essencial do universo de Tony Carreira, mais do que a mobilização de multidões, é a sua postura “evangélica” face aos admiradores (sobretudo mulheres, mas também homens). Dir-se-ia que por ele passa uma ideia de redenção que, em boa verdade, não é estranha a personalidades da música popular das mais diversas geografias. Reconhecer o poder de tal ideia, porventura da sua utopia, não é cómodo. Porquê? Porque desse modo compreendemos que esta sociedade da “comunicação” em que dizemos viver continua a ser atravessada pelas mais insólitas formas de misticismo.

O Verão das Haim

Reveladas em 2013, as três irmãs de Los Angeles com o apelido (e nome artístico) Haim não desistem de repetir uma verdade rudimentar: as notícias da morte da música pop são francamente exageradas. Além do mais, depois do registo de estúdio de Right Now e do magnífico teledisco de Little of Your Love, continuam a ter em Paul Thomas Anderson um especialíssimo colaborador. De novo com direcção de Anderson, aí está Summer Girl — não é todos os dias que vemos um teledisco em que as protagonistas passam o tempo a despir peças de roupa, sendo o resultado abençoado pelo mais delicado pudor.