domingo, dezembro 05, 2010

Um russo em Liverpool


Nasceu em São Petesburgo mas é em Liverpool que o maestro russo Vasily Petrenko tem vindo a construir uma das mais entusiasmantes leituras da obra sinfónica de Shostakovich. A “sua” Sinfonia Nº 8 foi recentemente editada pela Naxos.

Nomeado para a Orquestra de Liverpool em 2006, Vasily Petrenko tem sido uma das grandes forças no seu processo de renascimento (local e internacional). Já com uma discografia interessante, tem vindo a gravar, aos poucos, a obra sinfónica de Shostakovich (na imagem) com uma orquestra que, entretanto se tem afirmado como um dos principais pólos actuais de atenção para com a música desse grande compositor russo do século XX. Estreada em 1943, na sequência da histórica Sinfonia nº 7 (que reflectia a história da resistência de Leninegrado ao cerco alemão, representando assim uma afirmação de confiança na vitória), a Sinfonia Nº 8 respira uma pulsão trágica que lhe valeu, na estreia, um acolhimento completamente diferente. E, como recorda o texto do booklet desta edição, até os mais firmes admiradores do compositor terão comentado que uma música tão fatalista estaria “longe de ser uma contribuição positiva para o esforço de guerra”. A sinfonia chegou a estar integrada numa lista de obras proibidas pelo poder russo a partir de finais dos anos 40, sendo reabilitada apenas em meados dos anos 50. Não é talvez das mais presentes nos repertórios de concerto entre as sinfonias de Shostakovich, mas é uma das suas mais espantosas composições, o tom trágico do longo adagio que abre a obra revelando uma música de uma carga emocional invulgar que Petrenko aborda de forma espantosa nesta gravação, encontrando um tom certo na abordagem quer dos instantes de intensidade maior ou nos episódios em que a melancolia abraça a orquestra. Mais uma belíssima contribuição deste maestro e da Orquestra de Livepool para com a constante (re)descoberta da obra sinfónica de Shostakovich.

Uma noite na avenida (agora em imagens)

Fotos: Bernardo Sousa de Macedo

Aqui ficam três imagens de alguns do concertos do primeiro dia do Super Bock em Stock de 2010. Em sequência, fotos das actuações de Owen Pallett, Kele e Wavves. Os dois primeiros no palco do Tivoli. Os terceiros a fechar a noite na Garagem no Marquês de Pombal.

Para acompanhar reedições

Discografia Kraftwerk - 20
'Highrail' (compilação), 1979


Em 1979 uma antologia recordando os (já distantes) primeiros passos dos Kraftwerk entrava em cena para acompanhar a reedição, na Alemanha, dos primeiros álbuns que o grupo havia editado no início da década. O alinhamento de Highrail inclui uma versão de pouco menos de sete minutos de Autobahn e “clássicos” como Komettenmelodie 2 e Ruckzuck.

Da escrita para o palco

Ciclo Carl Orff – 4
‘Die Kluge’ (1943)
Herbert Kegel, Orq. Sinfónica da Rádio de Leipzig
com Magdalena Falewicz e Reiner Süss
Berlin Classics



Em finais dos anos 39 Carl Orff iniciou o trabalho numa ópera que completasse um díptico com Der Mond. Estrada em 1943, Die Kluge recupera uma vez mais ecos de tradições narrativas, representando artisticamente um importante passo na definição das linguagens do compositor que, tendo entretanto encontrado uma voz em Carmina Burana, aqui estruturava uma ideia de escrita para o palco que seria determinante em etapas seguintes da sua obra. Die Kluge tem libreto assinado pelo próprio Carl Orff, a partir de uma ideia num conto dos irmãos Grimm.

Este ano Die Kluge teve reedição, pela EMI Classics, num lançamento em CD duplo (juntamente com Der Mond) recuperando uma gravação de 1958 que conta com as vozes de Marcel Cordes e Gottlob Frick, com Wolfgang Sawallisch à frente da Philarmonia Orchestra. A capa, que ilustra o post, apresenta uma gravação dirigida por Herbert Kegel, com Magdalena Falewicz e Reiner Süss.

"O Escritor Fantasma" domina prémios europeus


Este é o palco dos Prémios do Cinema Europeu, no Nokia Concert Hall, em Tallinn, capital da Estónia, dominado pela imagem de Roman Polanski (via satélite, a partir da Suíça) — na noite de 4 de Dezembro, O Escritor Fantasma sagrou-se grande vencedor da 23ª edição dos prémios da Academia de Cinema Europeu, obtendo seis distinções, incluindo melhor filme, melhor realizador (Polanski) e melhor actor (Ewan McGregor). Eis a lista completa de vencedores:

* FILME EUROPEU 2010
O Escritor Fantasma (França/Alemanha/Reino Unido), de Roman Polanski

* REALIZADOR EUROPEU 2010
Roman Polanski, por O Escritor Fantasma

* ACTRIZ EUROPEIA 2010
Sylvie Testud, em Lourdes (Áustria/França/Alemanha)

* ACTOR EUROPEU 2010
Ewan McGregor, em O Escritor Fantasma

* ARGUMENTISTA EUROPEU 2010
Robert Harris & Roman Polanski, por O Escritor Fantasma

* DIRECTOR DE FOTOGRAFIA 2010 / PRÉMIO CARLO DI PALMA
Giora Bejach, por Líbano (Israel/Alemanha/França)

* MONTADOR EUROPEU 2010
Luc Barnier & Marion Monnier, por Carlos (França/Alemanha)

* DESIGNER EUROPEU 2010
Albrecht Konrad, por O Escritor Fantasma

* COMPOSITOR EUROPEU 2010
Alexandre Desplat, por O Escritor Fantasma

* REVELAÇÃO EUROPEIA 2010 / PRÉMIO FIPRESCI
Líbano, de Samuel Maoz

* DOCUMENTÁRIO EUROPEU 2010 / PRÉMIO ARTE
Nostalgia de la Luz (França/Alemanha/Chile), de Patricio Guzmán

* FILME EUROPEU DE ANIMAÇÃO 2010
L'Illusioniste (França/Reino Unido), de Sylvain Chomet
[trailer em baixo]

* CURTA-METRAGEM EUROPEIA 2010
Hanoi - Warszawa (Polónia), de Katarzyna Klimkiewicz

* CO-PRODUTOR EUROPEU 2010 / PRÉMIO EURIMAGES
Zeynep Özbatur Atakan (produtor)

* PRÉMIO EUROPEU DE CARREIRA 2010
Bruno Ganz (actor)

* PRÉMIO EUROPEU DE CARREIRA INTERNACIONAL 2010
Gabriel Yared (compositor)

* PRÉMIO DO PÚBLICO 2010
Mr. Nobody (Bélgica/França/Alemanha/Canadá), de Jaco van Dormael


>>> Site oficial dos Prémios do Cinema Europeu.

sábado, dezembro 04, 2010

Horacio Salinas e a origem dos diamantes


Na origem dos diamantes está a terra: a sua nudez natural encerra, afinal, a matéria de uma pureza que, animais mitológicos que somos, continuamos a idealizar. Horacio Salinas apostou em tomar a questão à letra: na edição de Dezembro da revista W, o seu portfolio sobre uma colecção de diamantes (Cartier, Bulgari, etc.) — Diamonds in the Rough — funciona como um testemunho poético sobre os valores da nossa imaginação.
Vale a pena, a propósito, descobrir o universo conceptual do fotógrafo no seu site, exemplo modelar de uma filosofia da imagem muitas vezes indissociável de um entendimento radical das mensagens publicitárias — em baixo, um exemplo da série "White Heat".

Luz e sombras de Bruce Springsteen (3/3)


[1] [2] Darkness on the Edge of Town (1978), título decisivo na discografia de Bruce Springsteen, regressou às lojas numa fabulosa edição, revista e (muito) ampliada — esta é a terceira parte de um conjunto de textos publicados no Diário de Notícias (20 de Novembro). Em baixo, um registo de 1978, com o tema The Promise, que empresta o título ao álbum de gravações inéditas, editado em simultâneo com a remasterização de Darkness on the Edge of Town.

Ao longo da década de 70, a iconografia clássica da estrela rock sofreu os mais diversos abalos. Lembremos apenas as sucessivas máscaras do camaleónico David Bowie ou a pose andrógina de Patti Smith, fotografada por Robert Mapplethorpe na capa de Horses (1975), um ícone universal de toda a história da música popular.
Na sua assumida distância, a capa de Darkness on the Edge of Town é outro exemplo carregado de simbolismo. De facto, o retrato assinado por Frank Stefanko (curiosamente, também um fotógrafo regular de Patti Smith) apresenta-nos um Bruce Springsteen alheado de qualquer conotação de vedeta. Mais tarde, o próprio Bruce viria a reconhecê-lo de modo certeiro, quando referiu que Stefanko “anulou qualquer efeito de celebridade”, deixando apenas uma “essência” que rima com o despojamento do próprio álbum.
Em boa verdade, estamos perante alguém que sempre mostrou alguma relutância face aos modos correntes de tratamento mediático. Mesmo no campo particular dos telediscos: embora haja alguns magníficos exemplos a pontuar o seu trajecto, o certo é que Bruce nunca se deu bem com a obrigação de fazer “pose”. Nessa medida, e embora não esquecendo o rigor dos seus trabalhos em estúdio, sempre se afirmou como um “animal de palco”, alguém para quem a vibração da música implica a procura obstinada (e também o desejo) de alguma audiência.
A sua aparição na capa de Darkness on the Edge of Town possui a frieza paradoxal (porque comunicativa) de uma personagem que não sabemos decifrar, mas que nos deixa uma certeza muito humana: a de que é alguém com uma história muito concreta, única e irredutível. Sendo ele um genuíno contador de histórias, podemos, talvez, concluir que todas as histórias que nos tem contado são derivações mais ou menos calculadas de uma autobiografia em suspenso.

A caminho de 'All You Need Is Now' (1)


Numa altura em que está já em contagem decrescente a chegada de All You Need Is Now, novo álbum dos Duran Duran, o Sound + Vision prepara o terreno através da evocação de algumas canções da banda que, pelos sinais já revelados do novo disco, parecem morar na base da genética dos novos temas. E assim evocamos hoje o teledisco que Russel Mulcahy criou em 1982 para acompanhar Hungry Like The Wolf, o cartão de visita para o álbum Rio.



Duran Duran
'Hungry Like The Wolf' (1982)

Uma noite pela avenida


Uma mesma rua, várias salas, concertos mais ainda. Na sua terceira edição o Super Bock em Stock pode não ter um cartaz com tantos nomes imediatos, mas o modelo voltou a fazer da Avenida da Liberdade um corredor vivo de gente a circular com entusiasmo entre acontecimentos. Entra-se, gosta-se e fica-se. Ou segue-se para outra sala ali perto… A rotina faz-se da vontade do momento, entre reencontros e descobertas. Ficam quatro retratos rápidos.

Owen Pallett – Na elegante sala do Tivoli a sua música consegue ocupar um palco onde nada mais acontece senão a sua presença e som. Domina as artes do palco, cria empatia. Passa por Caribou. É sempre um bom reencontro.


B Fachada – Informal em palco mesmo na hora de figurar num dos palcos principais (no São Jorge, mais precisamente). Acompanhado a dada altura por Sérgio Godinho. O par em bom diálogo, a versão de Etelvina contudo sem resistir (na leitura apresentada) à anemia da falta da electricidade face à versão original. Canções do novo disco pedem, para já, mais audições.

Kele – O álbum oscila entre o electro e a evocação de modelos da canção pós-punk. Em palco opta pela força das electrónicas e põe um Tivoli inteirinho a dançar. Tenderoni irresistível. Com Bloc Party a meio da ementa, o concerto acabou por ser inesperada boa surpresa.

Wavves – Ao fim da noite, na Garagem no Marquês de Pombal. O som não era o melhor, de facto, mas ajudou a desarrumar o som das mais arrumadas canções do disco mais recente.

Luzes na noite

Discografia Kraftwerk - 20
'Neon Lights' (maxi-single), 1978


Terceiro single extraído do álbum The Man Machine, o tema Neon Lighs começou por surgir no lado B de Das Model, mas acabaria pouco depois por conhecer ‘upgrade’ a outro patamar de protagonismo. Canção bem estruturada, firme numa arquitectura rítmica bem definida mas sem o apelo imediato da pop de The Model ou a alma dançável de The Robots, Neon Lighs é contudo mais um claro exemplo de uma linguagem que dominou as ferramentas ao seu serviço e as aplica agora à invenção de uma nova visão para o formato da canção. Neon Lights foi editado no formato de máxi-single, em 12 polegadas, com Trans Europe Express e The Model no lado B. O disco foi impresso em vinil luminoso.



Imagens do teledisco que então acompanhou o lançamento em single do tema Neon Ligths.

Nos 75 anos de Giya Kancheli


Três músicos juntam-se para celebrar os 75 anos do compositor georgiano Giya Kancheli em Themes From a Songbook, que acaba de ser editado pela ECM. São eles Dino Saluzzi, Gidon Kremer e Andrei Pushkarev.

Foi o filho de Giya Kancheli quem mostrou a Manfred Eicher, o “patrão” da ECM, o songbook que o compositor tinha recentemente publicado como Simple Music For Piano (e o subtítulo 33 Miniatures from Music for Stage and Screen). Os títulos não deixam dúvidas. Trata-se da recolha de pequenas peças que, ao longo dos anos, Giya Kancheli foi criando para servir em concreto as imagens de filmes ou o palco que acolhia peças de teatro. Obras que foi compondo ao mesmo tempo que ia criando peças de música sinfónica ou de câmara. Kancheli revisitou essas pequenas peças em 2009, apenas ao piano, o songbook assim nascendo. Foi do posterior encontro entre Sandro Kancheli e Eicher que surgiu a ideia de envolver num novo projecto o argentini Dino Saluzi, uma lenda viva do bandoneon. O violinista Gidon Kremer juntou-se pouco depois, trazendo consigo o vibrafonista Andrei Pushkarev, um dos seus habituais colaboradores na Kremerata Baltica. Surge assim Themes From The Songbook, uma série de visões reinterpretadas da música de Kancheli segundo três instrumentistas que se juntam neste disco para celebrar não apenas um aniversário, mas também o desafio do cruzamento de genéticas musicais de diferentes latitudes que aqui encontram um inesperado patamar comum.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Kate Peck & Tippi Hedren (sob o signo de Hitchcock)


Com a cumplicidade do fotógrafo Jesse Untracht-Oakner, a modelo Kate Peck [em cima] decidiu revisitar Os Pássaros (1963), clássico de Alfred Hitchcock que é, de uma só vez, um ensaio minucioso sobre os mecanismos do medo e a dimensão feminina do Mal (sem prejuízo de reconhecermos o contributo do sexo masculino para o seu vasto património...). O resultado, inevitavelmente assombrado pela iconografia hitchcockiana de Tippi Hedren [em baixo], possui a quietude sedutora de uma memória apaziguada. Dito de outro modo: a cinefilia não pode abdicar dos seus momentos de radioso narcisismo.

David Fincher premiado pelos críticos de Nova Iorque


David Fincher e o seu filme sobre o nascimento do Facebook, A Rede Social, dominaram os prémios do National Board of Review of Motion Pictures, organização de Nova Iorque, tradicionalmente reconhecida como uma das mais importantes do jornalismo crítico dos EUA. Além do prémio de melhor filme do ano, A Rede Social foi ainda distinguido nas categorias de melhor realizador, melhor actor (Jesse Eisenberg) e melhor argumento adaptado (Aaron Sorkin). A lista completa dos premiados está disponível no site da NBR.

Para conhecer Cameron Mesirow


O projecto Glasser, na verdade não sendo mais senão o grupo que acompanha Cameron Mesirow, editou recentemente o álbum Ring. Aqui fica o teledisco que acompanha o tema Mirrorage. A realização é de Carlos Charlie Perez.


A vez do silêncio

Um grupo de músicos está a tentar que o icónico 4’33” de John Cage, peça conceptual integralmente feita de silêncio, seja o número um de Natal deste ano no mercado britânico. A “versão” (se assim lhe podemos chamar) contará, segundo avança a Pitchfork, com nomes como os de Pete Doherty, Billy Bragg, elementos dos Big Pink, the Kooks, UNKLE, Orbital ou Coldcut, sendo que outros ainda se poderão juntar.

Novas edições:
Vários Artistas, Caloiros da Canção


Vários Artistas
“Caloiros da Canção”
iPlay
4 / 5

Foi em finais de Outubro de 1960 que a história começou. Na verdade há havia sinais de vida rock’n’roll portuguesa em finais de 50, nomeadamente com os Babies, banda nascida por Coimbra. Mas em disco, a história do rock português começa a escrever-se em 1960. Há precisamente 50 anos. Um EP assinalou então a gravação do primeiro episódio rock’n’roll em língua portuguesa. Na sequência de um concurso na rádio, Caloiros da Canção apresentava, num dos lados, duas canções pel’Os Conchas (que haviam vencido na categoria “conjuntos”) e, no outro, a “revelação” de Daniel Bacelar. Os primeiros traziam duas versões (uma de Neil Sedaka, a outra dos Everly Brothers), o segundo, muitas vezes apontado como o Ricky Nelson português, estreava-se com originais. Nos anos seguintes o rock português evoluiu, gradualmente, de olhares directos a modelos escutados lá fora, aos poucos assimilando referências, primeiro encontradas nos Shadows, mais tarde nos Beatles. Caloiros da Canção (recuperando assim o título e a própria capa desse histórico EP de 1960) recorda alguns episódios desta história num duplo CD, juntando no disco 1 o alinhamento do disco lançado há 50 anos e, no segundo, uma selecção de 25 canções de nomes como, entre outros, o Conjunto Mistério, o Zeca do Rock, o Conjunto Académico João Paulo, os Espaciais, os Álamos, o Quarteto 1111 ou os Sheiks, uns num regime de compreensível ingenuidade, outros experimentando já soluções mais pessoais e novas ideias. Com texto de apresentação de Luís Pinheiro de Almeida (que definiu o alinhamento), pequenas biografias das bandas e até memórias dos músicos contadas nas primeiras pessoas, Caloiros da Canção é mais uma importante contribuição para a revisitação de memórias do Portugal musical que há que continuar a devolver ao presente.

Três olhares por Berlim (5)


Três imagens em volta dos enormes tubos de espelhos que permitem a iluminação natural ao átrio principal da estação ferroviária nos subterrâneos de Potsdamer Platz.

Perfume Genius (aromas extra)


O álbum de estreia de Perfume Genius vai conhecer uma nova edição na próxima semana, juntando três novos temas ao alinhamento. Learning, um dos grandes discos de 2010, surge assim num formato de CD com um cupão que permite o download de três novas canções, com os títulos Dreeem, Your Drum e Divine Faxes. Esta é a capa desta nova edição do disco.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Futebol: Portugal não organizará Mundial de 2018


ALEXANDER IVANOV

A Aparição de Cristo a Maria Madalena
1834-36

Terminou a aventura das instituições político-desportivas portuguesas e, mais especificamente, da candidatura ibérica visando a organização do Mundial de Futebol de 2018: a FIFA atribuíu essa organização à Rússia (o Qatar receberá o campeonato de 2022). O menos que se pode dizer é que essas mesmas instituições ficam, assim, dispensadas de enquadrar tal projecto no cenário de crise que, todos os dias, nos garantem existir de forma dramática e incontornável. O saldo envolve, por isso mesmo, uma nova e muito positiva hipótese: a de repensarmos as dinâmicas simbólicas e financeiras daquilo que, bem ou mal, continuamos a chamar cultura popular. Para já, a FIFA deu-nos uma ajuda pedagógica pela qual devemos estar gratos.

>>> Mundiais de Futebol, 2018 e 2022: BBC.

Elyse Fenton vence Prémio Dylan Thomas


Staking fencing along the border of the spring
garden I want suddenly to say something about
this word that means sound and soundlessness
at once. The deafening metal of my hammer strikes
wood, a tuning fork tuning my ears to a register
I’m too deaf to understand. (...)

Este é o início do poema Clamor, do livro com o mesmo título, que valeu à americana Elyse Fenton o Prémio Dylan Thomas, atribuído pela Universidade de Gales — Clamor reflecte a experiência da autora, comunicando com o marido, em missão militar no Iraque. O prémio bianual, no valor de 30 mil libras (cerca de 36 mil euros), distingue um autor de língua inglesa, com menos de 30 anos; em simultâneo, é premiado um jovem autor não publicado com o Sony Reader Award: este ano, o vencedor foi o galês Stefan Mohamed, com o romance Bitter Sixteen.

>>> Site oficial do Prémio Dylan Thomas.
>>> Site oficial de Elyse Fenton.
>>> Laugharne: Museu Dylan Thomas.

Das terras da Finlândia


Os finlandeses Husky Rescue têm um novo álbum. E propõem este Fast Lane como cartão de visita. Aqui fica o teledisco.

Podem ver o teledisco aqui.

Nomeações dos Grammys reveladas

Eminem lidera as nomeações para a edição deste ano de entrega dos Grammys. Soma um total de dez nomeações, seguido de Bruno Mars com sete e Lady Gaga, Jay Z e o grupo Lady Antebellum com seis. Uma das surpresas das nomeações é o facto dos Arcade Fire surgirem entre os candidatos a Álbum do Ano.

Lista completa de nomeados aqui.

Novas edições:
Glasser, Ring


Glasser
“Ring”

True Panther Sounds / Popstock
3 / 5

Chama-se Cameron Mesirow e apresenta-se num álbum que assina sob a designação Glasser. A angulosidade algo caleidoscópica que o grafismo da capa sugere cativa atenções, mas não nos dá pistas sobre que som, afinal, se guarda por detrás daquela imagem. Ring é um ciclo de canções essencialmente talhadas para diálogos entre a voz da autora que as assina e as teclas que também ela conduz, a presença de outros instrumentos (numa variedade invulgarmente alargada de opções) sendo todavia mais que mero efeito cénico, do ensemble nascendo um corpo texturalmente competente. O interesse na construção dos cenários ocupa de resto o que parece ser uma das preocupações centrais na arte final desta canções, evocando, pelo confronto entre texturas e uma voz feminina de forte presença, uma lógica que pode lembrar os discos dos Cocteau Twins, todavia aqui seguindo caminhos mais próximos do que recentemente escutámos nuns Fever Ray (não sendo contudo de estranhar, de resto, a presença de Van Rivers e The Subliminal Kid na produção de alguns dos temas do disco). Natural de Los Angeles, Cameron Mesirow tem merecido comparações a nomes que vão de uns Bat For Lashes a Björk, os nomes de Kate Bush e Lykke Li surgindo também alguns dos textos que apresentam este seu primeiro álbum. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, Ring é um interessante tectear de terreno, sobretudo interessante na gestão de uma ideia de pequeno sinfonismo imaginado a partir de um laptop. Mais que um destino alcançado (a escrita das canções nem sempre brilha), uma carta de intenções, que lança a curiosidade sobre eventuais cenas dos próximos capítulos…

Três olhares por Berlim (4)


Continuamos, esta semana, a correr pelas ruas de Berlim olhando detalhes. Hoje espreitando, uma vez mais (é verdade…) os caminhos em volta dos edifícios de arquitectura contemporânea em Potsdamer Platz.

Memórias escondidas


Acaba de chegar ao DVD, em Portugal, a edição de O Escritor Fantasma, de Roman Polanski. Edição com bons extras, entre os quais um ‘making of’ que inclui uma interessante entrevista com Robert Harris e uma conversa com Polanski.

Baseado num romance de Robert Harris (o mesmo autor de Pátria ou Pompeia), e cruzando cenários em que se parecem sugerir alusões a figuras do nosso tempo, havendo quem na figura de Adam Lang tenha entendido uma presença fantasma de Tony Blair, O Escritor Fantasma teve génese atribulada, mas com final feliz. Lang (interpretado por Pierce Brosnan) é um ex-primeiro-minstro britânico a viver nos EUA numa casa que só não parece um bunker de design moderno porque metade das paredes são feitas de vidro. Entra em cena um “escritor fantasma” inglês (Ewan McGregor) a quem é entregue a conclusão da escrita das memórias de Lang. O seu antecessor morrera algo inesperadamente, da curiosidade do novo escritor em saber, afinal, onde se estava a meter nascendo uma sucessão de linhas soltas e possíveis revelações que parecem, somadas, implicar possíveis ligações entre o ex-primeiro-ministro (entretanto a braços com um caso nos media que o responsabiliza por crimes de guerra) e os serviços secretos americanos. Bem escrito, bem realizado e sobriamente interpretado, O Escritor Fantasma é um perfeito filme político para o nosso tempo.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Jean Gaumy vence Prémio Nadar


Piemonte, Itália
2008

Instituído em 1955, para consagrar um livro de fotografia editado em França, o Prémio Nadar 2010 foi para D'après Nature, de Jean Gaumy (com um texto de René Daumal). Resultante de uma série de viagens na região italiana do Piemonte, iniciada em 2003, o livro do fotógrafo da agência Magnum contém 42 fotografias a preto e branco, tão concretas na natureza que contemplam, como abstractas no efeito visual que geram. Será, talvez, uma prova de que é possível continuar a procurar uma relação criativa com os elementos paisagísticos, sem ceder à lógica turístico-pitoresca que domina o imaginário televisivo dos nossos dias.



>>> D'après Nature nas páginas de L'Express.
>>> Jean Gaumy no site da Magnum.

Como um filme


A edição de My Beautiful Dark Twisted Fantasy, de Kanye West, é um dos acontecimentos maiores da recta final de 2010. Hoje, com um pouco mais de tempo para ver imagens e ouvir música (afinal é feriado), aqui deixamos o longo filme que acompanha Runaway. Podemos chamar-lhe teledisco, mas vai bem além do que dos telediscos habitualmente podemos esperar…

E eis que regressam os Bright Eyes

Connor Oberst vai voltar a editar um álbum com os Bright Eyes. Depois de dois álbuns em nome próprio e de um integrado no colectivo Monsters Of Folk, regressa em 2011 com o sucessor de Cassadaga, a que dará o título The People’s Key. O disco chega em Fevereiro.

Novas edições:
N.E.R.D., Nothing


N.E.R.D.
“Nothing”
Star Track / Universal
4 / 5

Talvez não estejam hoje sob o foco das atenções como outrora (e não foi assim há tanto tempo), mas o colectivo N.E.R.D. continua a mostrar como há pontes possíveis entre as linguagens do nosso tempo, dos diálogos e reflexões fora de portas acabando por nascer as verdadeiras linhas da grande invenção da música actual. E a palavra diálogo volta a ser elemento central à medula de um novo conjunto de canções que, além de assentarem sob um olhar atento de quem domina as artes da produção e da forma final dos sons (falamos do trabalho assinado via Neptunes, naturalmente), tem há muito a consciência da importância de quão um bom cardápio de ingredientes pode ter na hora de pensar o que se quer fazer. Através dos N.E.R.D. Pharell Williams e Chad Hugo, juntamente com Shay Haley, contribuíram significativamente para o alargar de horizontes de uma música que, tendo assimilado os métodos e essências do hip hop, partiu então à descoberta de novos caminhos. Dos olhares sobre os universos do rock dos primeiros tempos as atenções caminharam entretanto rumo a outros e mais vastos azimutes, Nothing traduzindo um ponto de vista de quem hoje sabe olhar ao seu redor, ousando avançar por caminhos que passam pelo funk (como em Party People, onde participa T.I. ou Perfect Defect, aqui com o brilho adicional de uma secção de metais), o electro (no saboroso Hypnotize U, colaboração com os Daft Punk), o rock clássico (de escola Doors, em Help Me), ecos pop dos sessentas (em Victory), ecos de memórias prog e de um certo sinfonismo, em sintonia com uma linha vocal de inspiração R&B (em Life As Fish), apresentando novas visões do que é um franco entendimento entre as genéticas do hip hop e as da canção em God Bless Us All ou Nothing On You (esta musculada por uma bela guitarra funk).E no fim não falta a cereja pop, com a participação de Nelly Furtado, em Hot-N-Fun. Nothing pode não representar, no cenário actual, o mundo de visões que nos dias de In Search Of... (2002) ou Fly or Die (2005) lhes valeram aclamação, mas está longe de ser um álbum menor do colectivo. Na verdade, é um belíssimo disco ao serviço de quem gosta de ouvir, ao longo do alinhamento de um álbum, mais que simples variações de uma mesma ideia de música e palavras.

Três olhares por Berlim (3)


Mais três imagens de Berlim hoje olhando… candeeiros. Sim, candeeiros. Há-os de todas as formas pela cidade, por aqui mostrando-se formas que ora evocam linhas com história a visões do mais recente design.

O 'entertainer'


“Primeiro a Grécia… Depois a Irlanda… E, a seguir…”… Apontando o dedo à plateia, ciente de que todos sabiam bem do que estava a falar, Neil Hannon fez de possíveis próximos episódios neste cenário de crise (que moram cada vez mais próximos no horizonte de todos nós) um entre os muitos instantes de informal e bem-humorado clima que dominou os seus concertos nesta sua mais recente passagem por Lisboa, enchendo em duas noites consecutivas o Teatro Maria Matos. Apenas acompanhado por um piano, que a instantes trocava por uma guitarra acústica, despiu as canções à sua essência, a absoluta eficácia do concerto resultando da soma inteligente de já conhecidos dotes de entertainer (todavia nunca tão presentes em actuações com banda) e uma arte na composição que, era também já sabido, faz dos Divine Comedy um dos nomes maiores nascidos na música dos noventas.

Entre as canções do álbum mais recente (que ganharam, em alguns casos, mais interessante expressão no formato apresentado) e “clássicos” que evocaram sobretudo os discos de meados dos noventas (entre Casanova e o magistral Fin de Siècle), Neil Hannon voltou a confirmar uma boa relação com o palco, a encenação minimalista que o acompanhou aproximando-nos mais do ambiente menos distante de um piano bar que do registo habitual em concertos pop/rock. Chamou alguém para contar uma piada, qual maestro dirigiu plateia de palmas, assobios e estalidos de dedos nas canções que pediam acompanhamento. E surpreendeu tudo e todos com uma espantosa versão de Don’t You Want Me, dos Human League.

Foi bom vê-lo em tempos com banda (em Paredes de Coura, no CCB, no Coliseu…), seria um sonho poder encontrá-lo num palco perto de nós frente a uma orquestra (o registo ‘live’ no Sheppards Bush em meados dos noventas garante que seria experiência inesquecível), mas desta vez, com um piano, uma guitarra e, num momento apenas, a companhia em palco de Cathy Davey (que assinara antes a primeira parte), mostrou como o menos por vezes pode valer mais. E quando regressar, poucos dos presentes faltarão a nova chamada…

Porque é 1 de Dezembro


A marcar a passagem de mais um dia 1 de Dezembro, em que se assinala o dia da luta contra a sida, fica a memória do primeiro disco editado pela Red + Rot Organization para a recolha de fundos para campanhas de combate à doença. De Red Hot + Blue, que juntava nomes como os de Neneh Cherry, David Byrne, U2, kd lang, Erasure ou Tom Waits em versões de canções de Cole Porter, fica o teledisco que então acompanhou Well Did You Evah, uma colaboração de Iggy Pop e Debbie Harry.

Prémios do Cinema Europeu... como?


Esta é a sala da capital da Estónia onde se vai realizar a cerimónia dos 23ºs Prémios do Cinema Europeu, um evento quase ignorado pela... Europa — este texto foi publicado no Diário de Notícias (29 de Novembro), com o título 'Que prémios do cinema europeu?'.

No próximo sábado (4 de Dezembro), no Nokia Concert Hall [foto] de Tallinn, capital da Estónia, realizar-se-á a 23ª cerimónia dos Prémios do Cinema Europeu. Promovidos pela Academia de Cinema Europeu, são muitas vezes referidos como os “Oscars” da Europa. Dito de outro modo: pelo menos no plano simbólico, são os mais importantes na dinâmica da produção cinematográfica europeia. Em todo o caso, a designação envolve uma dramática ironia. De facto, vale a pena perguntar: nos últimos tempos, quantas referências informativas já vimos a estes prémios?
Em boa verdade, a cobertura jornalística dos prémios europeus (antes e depois da sua realização) é sempre muito escassa. Basta repararmos no contraste com o que está a acontecer há várias semanas em torno dos Oscars (marcados apenas para 27 de Fevereiro de 2011): na prática, começaram a proliferar notícias e especulações sobre candidatos. Há mesmo todo um estilo jornalístico, com grande representação na Internet, que menospreza tudo o que tenha a ver com cinema europeu, ao mesmo tempo que celebra as mais anedóticas peripécias de Hollywood (não poucas vezes, fazendo coexistir tudo isso com o mais primário anti-americanismo político).
Escusado será dizer que nenhum pretexto, nem mesmo as feridas interiores do cinema europeu, justifica que minimizemos a fascinante energia criativa do actual cinema americano. Do mesmo modo, seria pura demagogia atribuir os problemas de divulgação da produção europeia apenas às vertentes mais medíocres do trabalho jornalístico. A questão de fundo (e tem pelo menos 23 anos...) é a extrema dificuldade que as estruturas europeias do cinema revelam na promoção dos seus próprios valores e produtos.
Claro que, para além das singularidades políticas de cada país, nada disto pode ser desligado de uma ideia fraca (politicamente fraca, antes do mais) que quase ninguém quer enfrentar: a noção corrente de “cinema europeu” é tanto mais inoperante quanto não corresponde a nada de economicamente forte e consolidado. É espantoso, aliás, como se continua a acreditar que é possível promover os filmes europeus por razões “patrióticas”, sem discutir, de forma séria e construtiva, o poder de algumas empresas americanas nos mercados europeus.
Dito isto, convirá não esquecer que O Escritor Fantasma, de Roman Polanski [foto], surge como o título mais forte entre os candidatos, com sete nomeações, incluindo melhor filme, melhor realizador e melhor actor (Ewan McGregor). Polanski já foi, aliás, homenageado pela Academia de Cinema Europeu, tendo recebido em 2006 o prémio de carreira. E porque é salutar pensar as contradições do cinema também através dos seus muitos cruzamentos, convém lembrar que, apesar de impedido de entrar nos EUA, Polanski recebeu o Oscar de melhor realizador de 2002, com o filme O Pianista.

>>> Site dos Prémios do Cinema Europeu.
>>> Site da Academia de Cinema Europeu.