quarta-feira, novembro 24, 2010

O alerta que veio do espaço


É verdade que houve recentemente um remake de O Dia em Que A Terra Parou que, nos melhores momentos, não chegava nunca aos calcanhares de uma medíocre visão do original. Concentremos então atenções no verdadeiro clássico, agora finalmente com edição portuguesa.

Estávamos em inícios dos anos 50 quando a ficção-científica começava a viver, através de uma mais intensa relação com o cinema, uma nova e importante etapa. Depois das visões pioneiras de finais do século XIX e inícios do século XX, a primeira metade do século tinha assistido a um progressivo crescimento do interesse por novas histórias sobre mundos extraordinários, invasões alienígenas e naves espaciais… Os anos 50 foram depois novo veículo para muitas destas aventuras, muitas das produções seguindo, em clima série B, as heranças directas dos contos que as revistas do género tinham tornado célebres na América dos anos 40 junto de novas gerações de leitores. Mas tal como na literatura de ficção surgiu quem fizesse a diferença e transportasse a literatura de ficção científica a outros patamares, também no cinema as excepções fizeram história, reinventando-a. Um dos primeiros grandes exemplos chegou em 1951, num filme assinado por Robert Wise (e com banda sonora de Bernard Hermann que acabaria por fazer do theremin um instrumento de referência na música para este tipo de cinema).


E de repente tudo parecia diferente. Havia um disco voador. A chegada à Terra de alienígenas, o alarido humano reagindo com a ansiedade da praxe (não faltando o bom momento dispara primeiro, pergunta depois). Mas esta é uma visita diferente, do espaço chegando um extra-terrestre (e um imponente Robot) numa missão de alerta aos líderes do nosso mundo, avisando-os que a sua conduta belicista não é vista com bons olhos lá de longe, a sua não mudança podendo acarretar consequências. O Dia em Que A Terra Parou é assim uma reflexão pacifista em tempo de medo. É que, apesar da visita alienígena a ameaça, afinal, está entre nós.


Esta nova espantosa edição junta ao filme (em cópia restaurada) um segundo disco de extras que ajudam a contextualizar O Dia em Que A Terra Parou no quadro dos acontecimentos do seu tempo, justificando o seu lugar na história do cinema. Afinal, esta foi, na altura, a primeira super-produção da história do cinema de ficção científica.



Imagens do trailer do filme (há uma sequência de ecrã negro, é mesmo assim…).

terça-feira, novembro 23, 2010

Christine Schäfer ou a eternidade de Schubert


Foi pena que Thomas Quasthoff (barítono) tenha cancelado o concerto que estava agendado para o dia 22 de Novembro, na Fundação Gulbenkian. Em todo o caso, não fará sentido menorizar como uma "segunda escolha" a presença de Christine Schäfer (soprano). Acompanhada pelo sempre excelente Eric Schneider (piano), trouxe-nos a Viagem de Inverno, de Franz Schubert, sobre 24 poemas de Wilhelm Müller, justificando a sua condição de obra que transcendeu as medidas do tempo. Há no canto de Schäfer uma sabedoria interior das palavras que, através de um apuradíssimo sentido dramático do dizer/cantar, organiza o retrato de uma intimidade paradoxal: aberta à pluralidade do mundo, mas nunca resgatada da sua radical solidão. Foi o mais inesperado dos concertos desta temporada — e também um dos mais belos e austeros.

>>> Este é um registo de Christine Schäfer (Cantata BWV 147, de J. S. Bach), com o Concentus Musicus Wien, e o Coro Arnold Schoenberg, sob a direcção de Nikolaus Harnoncourt.


>>> Site oficial de Christine Schäfer.

Passageiros da noite


Os Human League estão de regresso. E como cartão de visita para o novo álbum que só chegará em 2011 eis que apresentam Night People. Aqui fica o teledisco.

Single antes e EP depois (do álbum)

Os Duran Duran anunciam, para 14 de Dezembro, a edição de All You Need Is Now como single de avanço do álbum com o mesmo título que editam a 21 de Dezembro (em lançamento exclusivo no iTunes, a edição física, em CD e vinil, estando prometida para o mês de Fevereiro). Ainda este ano, e depois do lançamento do álbum, o grupo editará ainda um EP de Natal (novamente via iTunes), com o título From Mediterranea With Love.

Novas edições:
Carlos do Carmo + Bernardo Sassetti,
Carlos do Carmo Bernardo Sassetti


Carlos do Carmo + Bernardo Sassetti
“Carlos do Carmo Bernardo Sassetti”
Universal
4 / 5

Duas gerações distintas, mas em cada um uma história semelhante no interesse em não se fechar dentro de fronteiras de uma só música. Carlos do Carmo dá a voz. Bernardo Sassetti, ao piano, assina os arranjos (o clarinete de Rui Rosa e o violoncelo de Filipe Quaresma pontuando depois alguns acontecimentos). O disco não tem um título senão o que resulta do juntar dos dois nomes que o protagonizam. Carlos do Carmo Bernardo Sassetti… Pelo alinhamento encontramos ecos de várias épocas e escolas, de versões de um Cantigas do Maio de José Afonso, Lisboa Que Amanhece de Sérgio Godinho ou Foi Por Ela, de Fausto Bordalo Dias a Quand On N’a Que L’amour de Jacques Brel ou Avec Le Temps de Léo Ferré. E há ainda uma surpreendente nova canção, composta por Bernardo Sassetti (para um poema de Mário Cláudio), em Retrato. A relação entre o canto e o piano encontra então um patamar de entendimento entre os mundos que se aqui cruzam. Bernardo Sassetti revela uma vez mais como de um saber jazzístico se pode partir rumo à aventura de outros caminhos. A magnífica e segura voz de Carlos do Carmo aceita então o desafio e junta-se ao piano em diálogos que transformam as canções em espaços de descoberta. Teria contudo sido um pouco mais interessante ver escolhas mais surpreendentes em algumas das opções de repertório (do cancioneiro de José Afonso, Sérgio Godinho ou Fausto haveria outras paragens alternativas que, certamente, sublinhariam o tom de desafio que o disco tão bem sabe lançar). Mesmo assim, no final, o encontro entre Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti é absolutamente compensador. E dá vontade de pedir um segundo episódio. Seja num disco de inéditos, que alargue os horizontes de um mundo que se espreita no Retrato. Ou num álbum de canções francesas, que siga a excelência da versão de Avec Le Temps, de Ferré. O certo é que, para já, este episódio gerou um dos melhores discos do ano.

Memória de uma cidade dividida


Era em tempos uma das artérias comerciais centrais da Berlim Ocidental, mantendo hoje uma impressionante oferta de lojas (incluindo o enorme Ka De We). Não é o pólo de referência das lojas mais caras, como podemos ver ali perto, em Kurfunstendamm, a oferta revelando-se um pouco mais em conta. A Tauentziestrasse apresenta contudo um outro motivo de interesse além do muito comércio: uma estátua que evoca os dias em que a cidade viveu dividida.


Criada por Brigitte e Martin Matschinsky-Denninghoff, a estátua foi simplesmente intitulada ‘Berlin’ e foi ali colocada em 1987, assinalando os 750 anos da cidade.

‘Berlin’
Tauentziestrasse (junto à esquina com a Marburger Strasse)
Metro: Wittenberg Platz (U-1, U-2, U-3)

Em conversa: Twin Shadow (1)


Iniciamos hoje a publicação de uma entrevista com Twin Shadow que serviu de base ao artigo ‘Com casa em Brooklyn mas a olhar o mundo’ publicado na edição de 13 de Novembro do DN Gente.

A sua vida já correu mundo… Ajude-nos a fazer esse mapa.
Nasci na capital da República Dominicana. Mudei-me depois para a Florida quando tinha uns três anos. Para Miami… Que era uma cidade violenta, que é o que se conhece dos filmes. Mudámo-nos depois em busca de um lugar mais pacífico… E vivemos numa ilha por uns tempos… Cresci nessa pequena ilha. Ia à escola fora da ilha, mas deixei a escola ao fim de um ano. Afastei-me. Não vivia em casa, mas com amigos, depois com uma namorada. E a dada altura fartei-me de estar ali. Comecei a interessar-me pela música quando tinha 16 anos. Fui para Boston, onde entrei numa banda punk, por uns dois anos e meio. E perdi depois o interesse na música. Sentia que não me estava a satisfazer. Mudei-me novamente para Nova Iorque. Andei em digressão com uma banda. Mas tocava apenas baixo e não escrevia as canções. Senti então que tinha de me afastar outra vez… Ofereceram-me um emprego em Copenhaga a fazer e tocar música para uma companhia de teatro. E não sabia o que fazer… E fui. Foi aí que começou a minha relação com uma rapariga e com a Europa. Andando de um lado para o outro…

A música entra na sua vida na etapa em que vive na ilha…
E pela igreja. Cantei num coro de igreja… Foi aí que fiz muita da minha formação. Foi aí que pude cantar pela primeira vez. O director musical dava-me sempre solos para cantar… Tinha oportunidades. Foi aí que descobri que podia abrir a boca e cantar bem alto…

E levou muito tempo a encontrar o seu lugar, a sua identidade na música, que agora expressa em Forget, o seu álbum de estreia?
Sinto que venho de vários lugares na vida. E com a música acontece um pouco o mesmo. Não me preocupei em fazer um disco que tivesse um som que fosse diferente. Mas sinto que encontrei um modo de fazer tudo o que gosto de fazer…

É um disco urbano…
Sim, já me disseram isso… Queria pensar no disco como um disco pop. Os discos pop foram sempre muito cheios de diversidade. Se ouvirmos um disco dos Queen, como os que editaram no início dos anos 80, há lá de tudo… De disco a metal… São discos hoje considerados como clássicos. E é bom que um disco tenha elementos diferentes dessa maneira.
(continua)

segunda-feira, novembro 22, 2010

Luz e sombras de Bruce Springsteen (1/3)


Darkness on the Edge of Town (1978), título decisivo na discografia de Bruce Springsteen, regressou às lojas numa fabulosa edição, revista e (muito) ampliada — esta é a primeira parte de um conjunto de textos publicados no Diário de Notícias (20 de Novembro).

Gravado nos Record Plant Studios de Nova Iorque (entre Outubro de 1977 e Março de 1978), Darkness on the Edge of Town contém algumas das canções indissociáveis da mitologia de Bruce Springsteen e da sua condição de derradeiro “romântico” da história do rock. São temas habitados por referências emblemáticas como o apelo da terra (Badlands), o culto do automóvel (Racing in the Street) ou a dependência do trabalho (Factory). No título que dá o título ao álbum, Bruce canta essa condição dramática que consiste em viver numa linha “em que os sonhos se encontram e perdem”.
Darkness on the Edge of Town surge como a unidade de base para esta espantosa edição que oferece nada mais nada menos que seis discos: três de música e três contendo imagens filmadas. No capítulo especificamente musical, além do original remasterizado, podemos descobrir uma espécie de versão “longa”: chama-se The Promise [capa] e reúne 21 registos inéditos das sessões originais de gravação; entre eles estão Racing in the Street, Ouside Looking In e o incontornável Because the Night, escrito para Patti Smith (incluído no álbum Easter, de 1978). Os dois CDs de The Promise existem também em edição autónoma.
Os DVDs incluem um “making of” de Darkness on the Edge of Town, dirigido por Thom Zimny, e ainda dois concertos: um deles, registado em Houston em 1978, é uma preciosidade inédita; o outro tem data de 2009 e funciona como um “revival” do álbum, voltando a reunir Bruce com a E Street Band. Ao todo: quase seis horas de materiais filmados.

Uma revisitação (televisiva) do clã Kennedy


Passou, discretamente, um documentário sobre os Kennedy... em todo o caso, passou — este texto integrava uma crónica de televisão publicada no Diário de Notícias (19 de Novembro).

Uma preciosidade documental (domingo, dia 14, RTP2): Kennedys, o Fim da Inocência refaz a história trágica do clã Kennedy, focando não apenas os dois irmãos assassinados (John e Robert, respectivamente em 1963 e 1968), mas sobretudo as convulsões familiares filtradas pelo olhar dos filhos. Realizado pelo francês Patrick Jeudy, especialista neste tipo de investigação (Eva Braun, Richard Nixon e Marilyn Monroe são algumas das figuras que já abordou), o filme está construído como a narrativa de uma ama das crianças, a partir de um texto do psicanalista Gérard Miller (colaborador regular de Jeudy).
É a prova de que se pode fazer uma televisão realmente (in)formativa que não se refugie no cinismo da “objectividade”, antes explorando modos de narrativa que aceitem lidar com a complexidade do factor humano. Trata-se de uma produção francesa, e não americana (ou inglesa), como pode fazer pensar o título Kennedys, the End of Innocence, usado no site da RTP. Discretamente, terá tido a sua estreia mundial entre nós (está programada para o dia 22, na France 3).

E agora em dueto...


Há uma nova visão para uma das melhores canções do ano. Integrada no mais recente álbum dos Hot Chip, I Feel Better surge agora em versão com a colaboração de Bonnie ‘Prince’ Billy e com novo nome… I Feel Bonnie. Aqui fica o teledisco.

O Natal, segundo os St Etienne

Os St Etienne vão editar um álbum de Natal este ano. O trio, que nos anos 90 editou o EP I Was Born In Christmas Day vai lançar A Glimpse Of Stocking, disco que junta sete canções raras do seu catálogo, sete novas composições e ainda uma versão de Wintertime Love, dos Doors. O disco não vai contudo estar disponível no circuito habitual de lojas. Será antes uma edição limitada à venda por mail order.

Novas edições:
Gonzales, Ivory Tower


Gonzales
“Ivory Tower”
Gentle Threat
4 / 5

Reconhecido pela sua versatilidade (já o ouvimos como pianista, já o escutámos como MC), Gonzales estreou-se este ano no cinema, partilhando com Tiga ou Peaches o protagonismo em Ivory Tower, de Adam Traynor, que passou pelo programa da edição mais recente do festival de Locarno. Se do filme, que fala de uma rivalidade entre irmãos jogadores de xadrez que lutam, não necessariamente por resultados, mas por chegar às mais belas situações de jogo, não ouvimos falar muito, já da sua banda a sonora vale a pena deixar um registo. Ivory Tower é, de resto, uma obra que vale por si, sem a necessidade da caução das imagens ou da narrativa e personagens. É um ciclo de acontecimentos que toma o piano e as electrónicas como elementos num diálogo permanente (ao qual não estranha a presença, como produtor, de Alez Ridha, habitualmente referido como Boyz Noise). Sem um rumo de género definido, lançando antes sucessões de acontecimentos, o alinhamento passa por paisagens essencialmente cenográficas (como em Bittersuite ou Final Fantasy, onde passam ecos da música de um Philip Glass), assimilações entusiasmantes do legado do disco (como se escuta em Knight Moves, com vocalizações de Feist), em visões inesperadas (como num momento em que o disco se cruza com uma linha de piano à la Steve Reich em Never Stop ou, novamente com este mesmo compositor como referência, um mergulho em climas prog em Smoothered Mate) ou mesmo ocasionalmente visitando a canção (em The Grudge, com palavras sem filtro, no mais belo momento de todo o disco). Apesar da multidão de caminhos seguidos, o piano, mesmo quando na linha do horizonte, acaba por desenhar um fio condutor. Essencialmente instrumental, com pontuais intervenções vocais Ivory Tower chama a atenção para um talento na composição de música para o ecrã que o cinema não pode agora ignorar.

Discos Voadores dia 27 no Incógnito


Esta semana os Discos Voadores regressam ao Incógnito. É já no sábado, com a música, como sempre, a ouvir-se a partir das 23.30…

O muro (onde antes havia mais)


O muro foi derrubado há já mais de 20 anos. Há porém pedaços de muro ainda dispersos pela cidade de Berlim, memórias que não deixam assim esquecer os dias em que a cidade viveu dividida. Já por aqui referimos por várias vezes que a zona que hoje respira modernidade em Potsdamer Platz era em tempos cortada pelo muro. E a memória desse muro está ainda viva por aqueles lados. Não numa extensão de muro, como vemos ali perto junto ao Martin Gropius Bau, nem como na East Side Gallery, junto às margens do Spree. Dois pedaços de muro, isolados, como se uma escultura se tratasse, moram hoje nos relvados que encontramos na reconstruída Potsdamer Platz.

A vida é feita de pequenos nadas

Este texto, sobre o romance Correcções, de Jonathan Franzen, foi originalmente publicado na edição de 13 de Novembro do DN Gente.

Entramos no mundo familiar dos Lambert pela casa na pequena cidade onde vivem, há longos anos, Alfred e Enid. Ele está reformado e vive dias vazios sem um passatempo que o anime. Ela está decidida a reunir os filhos e netos para um último Natal na sua velha casa de família. Conhecemos depois os filhos, um a um. Chip, que dera aulas numa universidade mas acabara despedido (depois de um envolvimento com uma aluna) e agora trabalha num pequeno jornal nova-iorquino e está atolado em dívidas à irmã. Gary, que ganhou estabilidade a trabalhar num banco mas atravessa tempo de crise no casamento. E Denise, chef num restaurante da moda cuja vida pessoal se mete em temperos complicados...
Como canta Sérgio Godinho, "a vida é feita de pequenos nadas". E é desses pequenos nadas que, ao longo das páginas de Correcções, Jonathan Franzen constrói um romance que, centrado na história de uma família, acaba por nos dar um retrato da vida americana em finais dos anos 90. Originalmente publicado em 2001, valendo ao escritor norte-americano um National Book Award, acaba de voltar às livrarias numa nova edição (D. Quixote). O livro chega num ano em que o nome de Jonathan Franzen atingiu um ainda mais expressivo patamar de notoriedade, não apenas por ter surgido na capa da Time (coisa rara para um escritor) e ter publicado o novo Freedom (a sair entre nós em 2011) que foi bastante elogiado por Barack Obama, que o teve como leitura de férias este Verão.

domingo, novembro 21, 2010

Abbas Kiarostami em discurso directo (2/2)


[1] Para o seu novo filme, Cópia Certificada/Copie Conforme, o cineasta iraniano Abbas Kiarostami deslocou-se a Itália, à Toscânia. Nas suas deslumbrantes paisagens, ele encena o encontro de uma francesa (Juliette Binoche), proprietária de uma galeria, e um inglês (William Shimell), escritor a promover o seu livro mais recente: é um diálogo marcado pelas diferenças e cumplicidades das relações humanas. Esta é a conclusão de uma conversa, registada no último Festival do Estoril, que serviu de base a uma entrevista publicada no Diário de Notícias (18 de Novembro).

Pensando no seu filme Shirin (sobre uma plateia de mulheres que assistem a um filme), será que esse ritual tem, sobretudo, uma dimensão feminina?
Sim, existe uma comunidade das mulheres que é diferente e nem sequer sinto necessidade de justificar a resposta. Não tenho nenhum prova nem nenhum manifesto a apresentar. É aí que reside toda a beleza e complexidade da nossa existência.

Como foi o trabalho com Juliette Binoche? Houve margem para alguma improvisação?
Creio que há duas dimensões desse trabalho: uma escrita, outra espontânea. Na verdade, sinto-me ainda demasiado próximo do filme, preciso de mais tempo para avaliar tudo isso. Em todo o caso, se o filme tem algum valor e interesse, creio que decorre da proximidade que existe entre Juliette, enquanto mulher, e a sua personagem.

Esse tempo de que precisa leva-o, por vezes, a descobrir aspectos dos seus filmes que, afinal, desconhecia?
Não diria descobrir, mas é, de facto, possível ter um olhar de natureza diferente. Digamos que, face a Cópia Certificada, tenho ainda um olhar de técnico, não consigo ter o espírito virgem do espectador. Pergunto-me se o filme está bem feito ou não, se tem a boa duração, como funcionam as cenas, se devia ter posto música ou não...

Em vários dos seus filmes, há personagens de cineastas: podemos deduzir que são personagens com alguma dimensão autobiográfica?
Se há tantos cineastas nos meus filmes, isso quer dizer que me faltou imaginação para transformar essas personagens observadoras em marceneiros ou escritores. Por isso, devo também dizer que todos os filmes que fiz são inspirados em situações que eu próprio testemunhei.

E em que quase todos os filmes, há cenas de personagens a conversar em automóveis em movimento...
Gosto muito do espaço fechado de uma automóvel porque envolve uma intimidade que, de alguma maneira, nos é imposta. Além disso, agrada-me que essa intimidade seja vivida em movimento. Não é preciso “parar” o tempo, como quando falamos numa sala: é como se nos deslocássemos paralelamente ao tempo e à vida... Já respondi muitas vezes a essa questão, mas só agora me apercebi de outro aspecto: é o valor do silêncio no interior do automóvel. Numa conversa como esta, um momento de silêncio pode ser embaraçoso: olhamos para o relógio e dizemos que é preciso ir embora. Dentro de um automóvel, é como se o silêncio fosse legítimo: a cada interrupção, cada um olha a paisagem e, um pouco mais tarde, o diálogo pode ser retomado de forma natural.

Talvez possamos, um dia, gravar uma entrevista num automóvel.
É sempre melhor! No Irão, com os meus alunos isso acontece-me muitas vezes. Por vezes, não tenho tempo para falar com eles. Como sei que todos os dias, devido ao trânsito em Teerão, sou obrigado a fazer uma hora de automóvel, digo para aparecerem em minha casa e fazermos o trajecto juntos. Os alunos ficam sempre encantados e dizem-me mesmo que essas conversas são mais produtivas que as aulas.

"Harry Potter": boletim meteorológico


No sábado, 20 de Novembro, ficou a saber-se que o filme Harry Potter e os Talismãs da Morte - Parte I acumulou mais de 60 milhões de dólares de receitas no primeiro dia do seu lançamento nas salas dos EUA. Na prática, isto significa que o filme irá concluir o fim de semana ultrapassando claramente a marca dos 100 milhões (valor ao qual se poderá começar a acrescentar as receitas dos outros territórios onde já estreou, incluindo Portugal).
Daí o boletim meteorológico — aliás, mediático — que, na manhã do dia 21, se pode traçar para as próximas horas e, em boa verdade, com grande margem de segurança, para toda a semana que vai começar:
1) os números serão assunto abundante de abundantes notícias;
2) quase ninguém lembrará que a perspectiva financeira sobre a vida dos filmes não autoriza nenhuma dedução sobre as suas componentes artísticas;
3) quase ninguém referirá que a compreensão da vida económica dos filmes, em particular de uma gigantesca produção como esta, deve implicar também os números do orçamento e das campanhas publicitárias;
4) a boa performance comercial de qualquer outro filme cujos valores (de produção e bilheteira) sejam menores (e são quase todos os outros...) será sistematicamente ignorada.

* * * * * *

Esta meteorologia da cultura financeira dominante do cinema, e para o cinema, pode ainda incluir um complemento caricato que seria apenas involuntariamente divertido, se não fosse apoteoticamente contrário a qualquer forma de inteligência:
5) com o mesmo à vontade com que se celebram as proezas financeiras de "Harry Potter" pode sempre, ao lado, no noticiário político, deixar-se uma sugestão mais ou menos explícita contra o "imperialismo" americano — não se compreende, aliás, como o jornalismo que celebra de forma tão grosseira as finanças do cinema americano, ignorando a sua fascinante pluralidade criativa, continua a alimentar uma ideologia do mais rasteiro anti-americanismo.

Ecos do Norte (no hemisfério Sul)


Um maestro finlandês inicia, à frente de uma orquestra neo-zelandesa, um ciclo dedicado à obra sinfónica do seu compatriota Jean Sibelius. E apresenta soberbo cartão de visita para esta nova série de edições que a Naxos vai lançar com belíssimas gravações das Sinfonias nºs 1 e 3.

Datadas respectivamente de 1898 e 1907, as Sinfonias números 1 e 3 de Sibelius correspondem a uma etapa de franca afirmação da obra do compositor não apenas entre finandeses, mas já com ecos pelo mundo fora (a Sinfonia Nº 3 foi inclusivamente resultado de uma encomenda da Royal Philarmonic Society na sequência de uma passagem por Londres em 1905). A Sinfonia Nº1 surge num período imediatamente posterior ao dos primeiros grandes triunfos de Sibelius com poemas sinfónicos de fulgor nacionalista que havia apresentado na década de 90 do século XIX. A Finlândia não tinha até então uma identidade musical própria, as escolas russas (e particularmente o romantismo de Tchaikovsky) sendo um natural ponto de partida, Sibelius reflectindo contudo sinais de uma demanda que da sua obra sinfónica faria uma das referências maiores de uma visão de ecos do romantismo na música do início do século XX. Já a Sinfonia nº 3 traduz um alargar de horizontes ao mundo para lá das suas fronteiras mais próximas, procurando ao mesmo tempo uma lógica de contenção que se traduz numa das suas mais belas composições. Nascido em 1980, o finlandês Pietari Inkinen (na foto) desenvolve carreira em paralelo como violinista e maestro. Nomeado como segundo director artístico da New Zeland Symphony Orchestra em 2007, Inkinen já dedicou algumas das suas gravações a compositores do seu país, nomeadamente Rautavaara e Sibelius. O disco que agora assinala a abertura de um ciclo dedicado a Sibelius é na verdade o terceiro que dedica ao compositor no catálogo da Naxos.

Luzes, música... modelos

Discografia Kraftwerk - 19
'Das Model' (single), 1978


Um segundo single extraído do alinhamento do álbum The Man Machine, de 1978 dava então (e ainda nesse mesmo ano) visibilidade maior à mais perfeita canção pop que os Kraftwerk alguma vez haviam criado. Originalmente apenas editada em single no mercado alemão (no Reino Unido, por exemplo, só chegaria ao 45 rotações nos anos 80), a canção surgiu assim pela primeira vez em single na sua versão em língua alemã. Das Model não teve particular impacte nesta sua primeira vida como single, o grande êxito devendo-se de facto à reedição que chegaria em 1981. A capa do single sugere as silhuetas da banda na sua pose em palco característica da época.




Imagens de uma actuação televisiva dos Kraftwerk, ao som de Das Model.

Uma história na Baviera

Ciclo Carl Orff – 3
‘Die Bernauerin’ (1947)
Ostermeyer, Lippert, Popp, Laubentahl
Coro da Rádio da Baviera / Orquestra da Rádio de Munique - Dir. Kurt Eichhorn.
Orfeo, 1992


Carl Orff desenvolveu uma importante relação com o teatro. E um dos mais claros exemplos dessa ligação surgiu em finais dos anos 40 através da descoberta do legado de tradições poéticas da Baviera e de uma peça de Friedrich Hebbel baseada na figura de Agnes Bernauer. Die Bernauerin, estreada em 1947, é uma peça de teatro onde os momentos de texto se cruzam com a música de Carl Orff, a sua linguagem rítmica, o seu trabalho vocal e as cores características das suas orquestrações sugerindo uma continuidade face a trabalhos anteriores. A grande novidade desta obra reside sobretudo como o diálogo falado se liberta da música, contudo surgindo como o motor primeiro para que esta depois aconteça.
Há um ano foi editada, em DVD, pela Wergo, uma gravação de uma apresentação ao vivo de Die Bernauerin, com encenação e Hellmuth Matiasek, as vozes protagonistas de Christoph Gehr, Julia Urban e Fred Maire e sob direcção de Mark Mast. Em disco (capa neste post) há uma gravação disponível em CD (Orfeu, 1992) com a orquestra e coro da rádio da Baviera, com as vozes de Ostermeyer e Lippert e a direcção de Kurt Eichhorn.

Mais informação e imagens aqui.