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terça-feira, março 20, 2018

segunda-feira, dezembro 25, 2017

domingo, outubro 22, 2017

Sob o olhar de Raymond Depardon (2/2)

RAYMOND DEPARDON
Líbano — Beirute, guerra civil, um falangista cristão
1978
A exibição do filme 12 Jours, de Raymond Depardon, fica como um dos momentos altos da 18ª edição da Festa do Cinema Francês — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Outubro), com o título 'Ser ou não ser humano'.

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As fotografias de Raymond Depardon na guerra civil do Líbano, em 1978, podem servir de padrão — estético e moral — da sua extraordinária visão. Por um lado, reconhecemos nelas um incontornável testemunho jornalístico; por outro lado, nunca, em nenhuma imagem, sentimos que a complexidade do real se fixa num qualquer “simbolismo” capaz de garantir uma qualquer manchete de vida efémera. Há, talvez, outra maneira de dizer isso: Depardon é um dos grandes humanistas das imagens contemporâneas, e tanto mais quanto o seu trabalho não depende dos “choques” visuais que alguma televisão todos os dias favorece.
Apresentado fora de competição, em Maio, no Festival de Cannes, o filme 12 Jours é uma expressão exemplar da sua visão do mundo, tendo ficado como um dos mais prodigiosos títulos desta edição do certame. O registo documental da situação jurídica dos pacientes de um hospital psiquiátrico envolve, necessariamente, a evidência da loucura e a extrema dificuldade (legal, antes do mais) de lidar com as suas manifestações individuais. O que distingue Depardon das abordagens correntes, mais ou menos especulativas, é que ele não utiliza os meios do cinema para ilustrar um “tema”. Porquê? Porque, justamente, filmar é deparar com as resistências, explícitas ou ocultas, do objecto eleito pelo olhar e pela câmara.
Não se pense, todavia, que isso resulta da complexidade “psicológica” do assunto tratado. Em boa verdade, Depardon tem filmado, por exemplo, a França rural com a mesma atenção expectante. Não para sobrepor a sua verdade àquilo que filma, antes enfrentando a suprema dificuldade de promover as imagens a uma prova definitiva de verdade — é, de facto, um trabalho interminável, da mais pura dedicação humana.

quarta-feira, outubro 18, 2017

Sob o olhar de Raymond Depardon (1/2)

A exibição do filme 12 Jours, de Raymond Depardon, fica como um dos momentos altos da 18ª edição da Festa do Cinema Francês — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (14 Outubro), com o título '“É preciso olhar as coisas que não queremos olhar"'.

Raymond Depardon é um dos mais bem guardados segredos do cinema francês: grande fotógrafo do nosso tempo, membro da agência Magnum há quase quatro décadas, é também um cineasta de subtil visão documental. 12 Jours, o seu filme mais recente (apresentado em Cannes, extra-competição), constitui um dos grandes acontecimentos da 18ª edição da Festa do Cinema Francês — dia 15 (19h30), no São Jorge, em Lisboa; dia 28 (19h30), no Rivoli, no Porto.
O projecto só foi possível graças ao apoio da Escola Nacional da Magistratura de Bordéus: “Se tivéssemos tentado fazer este filme em Paris, acho que não teríamos conseguido.” Porquê? Antes do mais, porque essa instituição recorre com regularidade a outros filmes do próprio Depardon, como Délits Flagrants (1994) ou 10e. Chambre (2004), sobre o funcionamento dos tribunais. Depois, porque aí encontrou a disponibilidade para documentar o modo como a lei lida com a loucura ou, mais exactamente, os pacientes que, sem o seu consentimento, foram hospitalizados em unidades de psiquiatria: “A magistratura tem-se escudado na ideia de que os loucos têm também direito à sua imagem. Nessa medida, duplicaram o sistema vigente nas prisões, o que, para todos os efeitos, é outra questão: na prisão, as pessoas perderam os direitos cívicos, o que não acontece no caso das personagens de 12 Jours — podem até votar e a sua assinatura é reconhecida como válida.”
Que está, então, em jogo? Precisamente os 12 dias que o título refere: de acordo com a legislação francesa, o internamento compulsivo é avaliado nesse período de tempo por um juiz que, tendo em conta os relatórios dos médicos, decide da eventual continuação desse internamento, determinando se a libertação do paciente envolve algum tipo de perigo (para os outros ou para si próprio).
Não é um filme de “suspense”, mas um estudo humanista. Depardon recorda a sua singular pedagogia: “Das 72 pessoas que filmámos, nenhuma obteve autorização para sair em liberdade. Talvez que o efeito positivo daquelas audiências tenha decorrido da própria presença do cinema, como se se dissesse a cada paciente: “ao ser filmado, você está a ser considerado”. Em qualquer caso, era algo que lhes fazia bem — mais do que uma consideração, um reconhecimento da sua existência”.
Como noutros momentos da sua trajectória (por exemplo, nos anos 70, quando fotografou um asilo em Itália), Depardon sabia que teria de enfrentar a acusação de “voyeurismo”. De facto, o que está em jogo é bem diferente e pode resumir-se no seu axioma profissional e ético: “É preciso olhar as coisas que não queremos olhar”. Aliás, acrescentando uma interrogação contundente, também ela muito pedagógica: “Porque é que as pessoas não falam de voyeurismo a propósito de tantas coisas que se vêem todos os dias na televisão?”
12 Jours foi também uma estreia técnica: pela primeira vez, Depardon utilizou câmaras digitais, equipadas com grandes e sofisticadas objectivas (apenas disponíveis através de aluguer a empresas de Los Angeles). E também não foi surpresa ouvir o espanto de algumas pessoas que recomendavam que filmasse com câmaras mais pequenas, ainda que de menor qualidade. “Já me tinham sugerido a utilização de um formato rudimentar quando filmei os ciganos em Profils: Paysans (2001-2008). Devo reconhecer que, curiosamente, quando se trata de ciganos ou loucos, há sempre quem ache que se deve filmá-los com um formato de menor qualidade. Ora, a minha perspectiva é completamente diferente: é preciso filmar aquelas pessoas da melhor maneira possível, como se fossem Brad Pitt ou Isabelle Adjani.”

quinta-feira, junho 29, 2017

Mulheres fotografam mulheres

EVE ARNOLD
Marilyn Monroe
Los Angeles, 1960
É o tema de uma exposição promovida pela agência Magnum em Nova Iorque: 'Women seeing women' — do mundo da publicidade a cenários de guerra, eis uma mostra capaz de expor a especificidade do feminino, escapando a clichés visuais, sociais ou mediáticos.
ALESSANDRA SANGUINETTI
Camilla
Buenos Aires, 1999

domingo, maio 28, 2017

CANNES: próximo da loucura

Segundo a lei francesa, 12 dias é a duração máxima durante a qual um indivíduo pode ser internado sem consentimento num hospital psiquiátrico; passado esse período, numa sala de audiências do próprio hospital, tendo em conta os relatórios médicos, um juiz tem de avaliar se o internamento do paciente deve ou não ser prolongado. Raymond Depardon, fotógrafo da Magnum (lembremos as suas espantosas imagens dos conflitos no Líbano) e notável documentarista, filma, justamente, essas audiências. Na sua brevidade de menos de hora e meia, o seu filme, intitulado apenas 12 Dias, é um pequeno prodígio de uma verdade eminentemente física que, em última instância, nos aproxima da loucura e dos seus sobressaltos — sem atitudes panfletárias nem moralistas, eis um dos objectos mais singulares de todo o festival.

[ SOUND + VISION / METROPOLIS ]