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sábado, abril 23, 2011

Um Bernstein menos divulgado


Um violinista (William Terwilliger), um violoncelista (Charles Bernard), um pianista (Andrew Cooperstock) e a voz de Marin Mazzie numa viagem pela música de câmara de Leonard Bernstein.

A música de câmara está longe de representar a mais divulgada das facetas de Leonard Bernstein como compositor. É por isso uma viagem de (re)descoberta a que se propõe no alinhamento deste novo disco recentemente lançado pela Naxos. O alinhamento recupera algumas das primeiras obras do compositor, duas delas datando ainda dos seus tempos de estudante (nomeadamente a Sonata para violino e piano, de 1939 e o Trio para violino, violoncelo e piano, de 1937). Por estas duas obras, mais a Sonata para clarinete e piano (que data de 1942, e que foi então a primeira peça publicada do compositor, aqui em arranjo para violino e piano), não passam ainda evidentes as marcas de atenção ao universo ao seu redor e ao mundo do seu tempo que o afirmariam como uma voz central da música americana. Há antes sinais de uma busca de relacionamento entre instrumentes, o interesse pela pulsão do ritmo já sendo contudo evidente em certos instantes. O alinhamento do disco acolhe, na recta final, peças de outras origens. Em concreto, arranjos recentes, para pequenos conjuntos de músicos, de canções que fizeram história, uma de Peter Pan (1950), outra de 1600 Pennylvania Avenue (de 1976), as quatro demais extraídas do sublime Candide, uma das obras maiores de Bernstein, aqui em leituras para violino e piano (arr. de Eric Stern) que, mesmo sob um minimalismo de recursos a dois instrumentos, transpiram a riqueza (e o latente humor) da composição original.

domingo, março 13, 2011

As artes do palco, segundo Bernstein


Numa caixa de sete CD a Deutsche Grammophon propõe um panorama sobre a obra para “teatro” de Bernstein. Entre o musical, a cantata e a ópera, Theatre Works é uma antologia essencial da sua obra, juntando gravações dirigidas por Tilson Thomas, Kent Nagano e o próprio Bernstein.

O tempo tem vindo a dar razão aos que cedo reconheceram em Leonard Bernstein não apenas uma das mais vivas vozes de uma identidade musical americana mas também um dos grandes compositores do século XX. Herdeiro de, por um lado, toda uma herança maior da música ocidental (admirador de Mahler, de quem foi importante divulgador num tempo em que a sua música não morava ainda entre o repertório sinfónico global como hoje conhecemos) e, por outro, atento observador da América do seu tempo, fez da sua música uma expressão do seu aqui e do seu agora, cruzando linguagens várias, muitas então vistas como realidades exteriores aos “cânones”, encontrando no jazz, na música popular e até mesmo nos palcos da Broadway as referências que lhe deram, devidamente assimiladas, importantes marcas de identidade. Figura de importante perfil político, fez da sua música, sobretudo a que expressava uma carga narrativa, espaço para aprofundar mais ainda toda uma série de visões sobre a cultura e sociedade americanas do século XX.

Ganha assim peso maior o volume de obras que agora encontramos reunidas nesta caixa editada pela DG. Cronologicamente arrumadas segundo a data de estreia, em alguns casos reflectindo contudo versões tardias (e, podemos dizer, “melhoradas”), as cinco obras reunidas sugerem um interessante percurso evolutivo, com ponto de partida assinalado em On The Town (musical de 1944 aqui numa gravação de 1992 dirigida por Michael Tilson Thomas, captada no Barbican em Londres), caminhando pelo tempo fora até chegar à White House Cantata (criada a partir do musical 1600 Pennsylvania Avenue, estreada postumamente em 1997, aqui sob a direcção de Kent Nagano). São contudo peças centrais desta antologia os “clássicos” West Side Story e Candide e a ópera A Quiet Place, em todos os casos em gravações dirigidas pelo próprio Bernstein. De West Side Story recupera-se a pouco estimulante versão gravada com Kiri Te Kanawa e José Carreras nos anos 80 na qual se perde o fulgor vocal (menos polido, mais vivo) de leituras anteriores em disco ou mesmo das que chegaram à versão em cinema. Candide apresenta-se na soberba versão final que Bernstein apurou em 1989 e que desta obtra faz hoje uma das suas peças maiores, num mundo adiante das fronteiras do musical, da música popular e da ópera, não deixando nunca de os observar dentro da linha do horizonte. A ópera A Quiet Place (que inclui Trouble In Tahiti) é um drama familiar, um retrato vivencial da América de meados do século XX, e representa um dos outros grandes feitos de Bernstein ainda por merecer devido reconhecimento. Aqui, todavia, numa gravação que data de 1986, ou seja, poucos anos depois da altura da sua estreia.



Um excerto de A Quiet Place numa gravação de 1986 dirigida pelo próprio Leonard Bernstein.

sábado, fevereiro 26, 2011

Diálogos (com o jazz por perto)


Duetos para clarinete e piano, com o jazz por perto, entre a música de Bernstein, Gershwin, Novaceck e D’Rivera, pelo clarinetista Jon Manasse e pelo pianista Jon Nakamatsu, em gravação editada pela Harmonia Mundi.

O jazz correu entre algumas das obras que, na primeira metade do século XX, ajudaram a inventar, aos poucos uma identidade claramente americana na música para orquestra. Afinal, nada mais senão uma expressão natural do aqui e do agora que definia uma música que assim procurava expressar uma resposta à velha questão “quem sou eu” lançada pelos compositores (e de certa forma aqueles ao seu redor a quem se dirigiam) sem apontar necessariamente todas as suas genéticas a tradições europeias que, sobretudo até Charles Ives, haviam definido os caminhos de muita da música que, do outro lado do Atlântico, nascia a pensar nas salas de concertos. George Gershwin e, mais tarde, Leonard Bernstein, são dois exemplos maiores de compositores que levaram à sua música não apenas um patamar de diálogo entre o jazz e as tradições “clássicas” ocidentais, mas também uma evidente curiosidade por expressões da cultura popular a que, na verdade, o jazz não era também presença estranha. A Sonata for Clarinet and Piano (1942) de Bernstein e Three Preludes (1926) e I Got Rhythm (do musical Girl Crazy, de 1930), de Gershwin, são assim peças centrais neste disco onde os caminhos do jazz e os da tradição ocidental de genética europeia se cruzam, o retrato caminhando depois rumo ao presente com Four Rags For Two Jons (2006) de John Novacek e The Cape Cod Flies (2009) de Paquito d’Rivera (estas duas em primeiras gravações). Duetos para piano e clarinete, ou seja, duas vozes com história no jazz, juntando aqui a dupla Jon Manasse e Jon Nakamatsu.

domingo, janeiro 30, 2011

Um olhar político


Foto: Arquivo da Filarmónica de Nova Iorque

Teve recentemente edição em Portugal, pela Bizâncio, um livro que percorre a vida de Leonard Bernstein observando sobretudo o seu papel político e cívico, naturalmente não afastando a música deste retrato. Este texto foi originalmente publicado na edição de 15 de Janeiro do DN Gente com o título ‘A Vida Política de um Músico Americano’.

Temeu ver o seu nome na "lista negra" dos apontados a dedo na América dos tempos de McCarthy. Antes, nos anos 40, integrou associações e grupos de esquerda. Lutou pela candidatura (derrotada) de Eugene McCarthy nas primárias do Partido Democrata em 1968 e chegou a assustar a administração Nixon quando correram rumores sobre o que poderia representar a Missa que estava a compor para a inauguração do Kennedy Center, em 1970. Um dos nomes maiores do século xx, maestro (e comunicador) de feitos reconhecidos e um dos mais importantes compositores americanos de sempre, Leonard Bernstein foi, também, e desde cedo na sua carreira, uma figura ciente de um papel político que fez questão de cumprir. Leonard Bernstein - A Intervenção Cívica de Um Músico Americano, de Barry Seldes (ed. Bizâncio) é um retrato biográfico atento a essa mesma história. Como se lê no livro, "Bernstein não fazia grande destrinça entre as esferas política e musical da sua vida". E se uma obra musical, ainda em tempo de afirmação, causava divisões de opiniões, já as suas primeiras manifestações de intervenção política geraram momentos mais crispados. "Havia gente a denunciar Bernstein pelas costas", recorda Barry Seldes. O livro menciona, de resto, diversas informações registadas em relatórios do FBI. "Manteve-se fiel à esquerda espanhola" e "estava empenhado na formação do novo Partido Progressista, que tinha por objectivo restaurar a aliança dos tempos da guerra entre os EUA e a URSS ou, pelo menos, travar o progresso da guerra fria", lemos no livro.

Nos anos 50, a visibilidade da sua música ganhou outro patamar, ao mesmo tempo que a sua vivência política lhe valeu momentos de ansiedade. "Tanto era O Miúdo Prodígio Irremediavelmente Destinado ao Sucesso", de acordo com o número da Look de Março de 1950, como um perigoso vermelho, segundo o Red Channels publicado em Junho" do mesmo ano. Em 1953, descreve Seldes, o "novo secretário de Estado John Dulles mandou retirar obras de comunistas ou simpatizantes do comunismo de bibliotecas de Informação Internacional e das emissões do Voice Of America". Entre as obras havia gravações de peças de Bernstein.

Receou, então, o pior. Não foi, contudo, chamado a depor perante as comissões da House UnAmerican Activities Committee ou do Senado. Prestou então um depoimento escrito, que "aparentemente serenou as autoridades". Esse depoimento "parece ter aberto a porta à sua remoção da lista negra", e em finais dos anos 50 assumia o controlo da Filarmónica de Nova Iorque, tinha novo contrato discográfico e obtinha novos sucessos.


Amigo pessoal dos Kennedy, a sua relação com o poder muda nos anos 60. E em 1963, Jackie pediu-lhe que actuasse nas cerimónias fúnebres do presidente assassinado, escolhendo a Sinfonia N.º 2 de Mahler e dedicando-lhe a sua própria sinfonia Kaddish. Não abandonou, contudo, ao longo da década, a intervenção cívica e política. Participou em marchas e apoiou a candidatura de Eugene McCarthy às presidenciais de 1968.

O seu nome voltaria a estar envolvido em casos nos media, o mais sonoro de todos em 1969, quando Felicia Bernstein, a mulher de Leonard, organizou no apartamento uma festa para angariação de fundos para o grupo radical Panteras Negras, descrita depois num artigo de Tom Wolfe que fez história. Não seria a última vez que o nome Bernstein estaria ligado a um "caso" político. Mas depois dos anos 70 outra moderação tomou conta de grande parte da sua agenda.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Quando Auden inspirou Bernstein


Longe de representar a face mais reconhecida da sua obra, as três sinfonias de Leonard Bernstein (compostas entre as décadas de 40 e 60) representam um dos espaços através dos quais o compositor expressou mais profundamente não apenas ecos da sua identidade judaica mas também manifestações de uma muito pessoal demanda espiritual. A Sinfonia Nº 2 (com o subtítulo The Age Of Anxiety) nasceu em finais dos anos 40 na sequência de uma viagem a uma Europa devastada pela guerra e da consciência da real dimensão do holocausto. O seu verdadeiro momento inspirador foi, contudo, a leitura de um extenso poema de W.H. Auden – com o título The Age Of Anxiety: A Barroque Eclogue, vencedor de um Pulitzer em 1948 - que acabaria por representar o “argumento” para uma sinfonia que propõe uma narrativa. A história de quatro solitários que se encontram num bar nova iorquino e da noite que se segue ganhou forma, na visão de Bernstein, no grande auditório, com a Orquestra Gulbenkian, juntamente com a pianista Dana Ciocarlie, sob direcção do romeno Christian Badea (na foto). É uma obra exigente, instrumentalmente desafiante (sobretudo para o piano, que toma um papel de protagonista), com um “episódio” de travo jazzístico (para piano e percussão) em The Masque durante o qual, mesmo sentados nos seus lugares, os restantes músicos da orquestra saboreavam claramente o irresistível apelo do ritmo. A abrir o programa, outra composição que conta ecos dos dias de guerra nos quarentas: Fanfarre For The Common Man (de 1942), curta fanfarra criada pelo também norte-americano Aaron Copland a pedido da Orquestra Sinfónica de Cincinatti, como “uma significativa contribuição para o esforço de guerrra”.
Contudo, o momento da noite em que a orquestra brilhou mais foi quando, já depois do intervalo, nos revelou uma leitura magnífica da romântica 7ª Sinfonia de Antonin Dvorák. Christian Badea e orquestra, como um corpo uno, respondendo de forma intensa a uma música que nasceu em dias de turbulência interior para o compositor checo.

terça-feira, setembro 14, 2010

Bernstein, para ler

Dois livros novos visitam memórias de Leonard Bernstein, chamando novas atenções para uma figura cuja importância (como compositor, e não apenas como maestro, entenda-se) começa a ser devidamente reconhecida em várias frentes.

Assinado por Jack Gotlieb, que durante anos trabalhou como assitente e editor de Bernstein, publica Working With Bernstein (Amadeus Press, 384 pp.). Juntando alguns ensaios já publicados a textos inéditos, Gotlieb reune no livro uma série de olhares e reflexões sobre Bernstein, recordando por exemplo as sessões de gravação de West Side Story ou de Candide, afirmando que a Sinfonia Nº 3 devia ter sido deixada na sua versão original, que o bailado Dybukk é a obra do compositor que levaria para uma ilha deserta e que a sua Missa representou o momento de renovação mais significativo do teatro musical do nosso tempo. Ao mesmo tempo entra em cena The Politics Of Leonard Bernstein, de Barry Seldes (University Of California Press, 296 pp.), um olhar dirigido ao homem político evocando várias das suas ideias e atitudes, algumas delas tendo gerado artigos que deram que falar nas páginas dos jornais da época.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Cenas da vida conjugal

É um dois em um, mas feito de partes completamente diferentes, entre o Trouble In Tahiti de Bernstein e L’Ocasiona fa Il Ladro, de Rossini, não morando nada em comum senão parte da estrutura de um cenário que, na verdade, ganha mais sentido quando em cena entra uma obra que, estreada nos EUA em 1952, só agora foi levada a um palco por estes lados. E vale mesmo a pena ir ao São Carlos ver, finalmente, este Trouble In Tahiti.

Cruzando linguagens do seu tempo e que reflectem os universos ao seu redor, Trouble In Tahiti coloca em cena não apenas traços evidentes da identidade musical de Leonard Bernstein, como transporta para um palco de ópera uma interessante narrativa sobre a conjugalidade. Projectada na América dos cinquentas, num tempo em que a vida no subúrbio era emoldurada com tons de idílio, a ópera apresenta-nos um casal que, ao cabo de 11 anos de casamento, pouco mais parece partilhar senão os minutos de vida conjunta em casa, de noite, de manhã… E pouco mais. Concebida com uma alma quase cinematográfica, com as sucessivas cenas a evoluir como se definidas por uma montagem em paralelo, foca o fosso que se estabeleceu entre o casal. Durante o período de um dia no qual ele passa pelo escritório e ginásio e ela pelo psiquiatra e pelo cinema, cruzando-se na hora de almoço, cada qual inventando desculpa de última hora para não irem juntos a um mesmo restaurante, a narrativa cativa e partilha atenções com a música e a cenografia.

A produção apresentada, que se enquadra no programa Jovens Intérpretes, é uma bela surpresa. A orquestra esteve em forma, em pontuais instantes afogando contudo, mas nunca de forma dramática, as vozes (que deram conta do recado). Brilhante mesmo nesta produção é o trabalho de encenação, cenografia, figurinos e vídeo. Um espaço físico com alma de loja tipo Habitat, apoiado por projecções em vídeo que juntam dinamismo (e toda uma sucessão de lugares) ao contexto, é vivo palco para suportar uma música, também ela viçosa. Um certo humor corta, em instantes certeiros, o retrato do gelo de tempos difíceis de um casal. Do todo nascendo um grande momento de palco.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Ópera de Bernstein estreia em Lisboa

Tem hoje estreia em Lisboa, no Teatro Nacional São Carlos, uma das duas óperas assinadas por Leonard Bernstein. Apresentada pela primeira vez em 1952, é uma ópera em apenas um acto e toma como centro narrativo a conjugalidade, focando em concreto o espaço familiar de um casal que confronta a realidade do seu quotidiano com o suposto idílio da vida suburbana de classe média, na verdade um ideal americano dos anos 50. Musicalmente Trouble In Tahiti cruza vários terrenos e géneros, traduzindo uma linguagem aberta às formas e interesses do seu tempo que sempre caracterizou a obra de Bernstein. Na imagem, a capa de uma das mais célebres gravações da ópera, dirigida pelo peóprio Leonard Bernstein.

A ópera é apresentada num registo “double feature” com L’Occasione Fa Il Ladro, de Rossini, uma farsa igualmente em apenas um acto. Ambas são apresentadas no quadro do programa Jovens Intérpretes. A direcção musical é de Moritz Gnann e a encenação de André Heller-Lopes.

Trouble In Tahiti
Dinah
Luisa Francesconi
Sam João Merino
Trio João Oliveira, Marco Alves dos Santos e Ana Franco

L'Occasiona fa Il Ladro
Don Parmenione João Merino
Martino João Oliveira
Conte Alberto João Cipriano
Don Eusebio Marco Alves dos Santos
Berenice Raquel Alão
Ernestina Ana Franco

As duas óperas são apresentadas hoje e sexta às 20.00 e, domingo, às 16.00. Haverá ainda representações a 5 de Março, 27 de Abril e a 19, 21 e 23 de Maio. Bilhetes entre os 5 e 15 euros.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Os melhores de 2008: discos

Começamos hoje a apresentar as listas dos melhores do ano. Em primeiro lugar, a dos discos que mais marcaram a história de 2008.

N.G.

2008 foi um ano intenso em acontecimentos para o verbo ouvir. Veteranos e estreantes assinaram feitos que escreveram a história de 12 meses que nos deram banda sonora da qual é quase difícil fazer agora escolhas (porque necessariamente deixam de lado títulos e nomes não menos interessantes e importantes para a história do ano que os que aqui hoje se ordenam em listas top 10). Já iremos à produção nacional e à clássica. Comecemos pelo espaço pop/rock onde, sem dúvida, o ano elege dois discos fulcrais: o primeiro dos Vampire Weekend (traduzindo inteligente passo adiante para estímulos que brotam da assimilação da herança pop new wave, acrescentando África e memórias da tradição clássica europeia) e o que se revelou no regresso dos Portishead. Third, de resto, acaba por merecer o título de “disco do ano” não apenas pela aposta ousada de novas visões para a canção, como por ser tradução prática da coragem de um nome veterano, e com identidade formada, que aceita o desafio de se reinventar e não jogar no mais do mesmo, enfim, no seguro, na hora de retomar o contacto com quem os ouve. A surpresa arrebatou. E a sua passagem por palcos nacionais tudo confirmou. Da história dos grandes regressos de 2008 convém não esquecer ainda nomes como os Bomb The Bass ou Grace Jones. Jonathan Meiburg “separou-se” dos Okkervil River, ganhando com a decisão os Shearwater. The Notwist assinaram o melhor álbum mais injustamente ignorado do ano. Simon Bookish deixou as electrónicas e descobriu no seu passado que pode colocar o que aprendeu na preparação para ser compositor ao serviço da pop. Kelley Polar já o havia entendido e volta a surpreender. Byrne e Eno dão, por seu lado, uma lição de “mestria” num soberbo álbum de canções que mostra que não é preciso inventar a novidade para criar um disco que possa marcar o presente. De um breve balanço sublinhe-se ainda, e para falar de discos que acabaram fora do top 10, os belos álbuns de estreia de nomes como os Late Of The Pier, MGMT, Fleet Foxes, Last Shadow Puppets, Lykke Li, Santogold...

1. Portishead "Third"
2. Vampire Weekend "Vampire Weekend"
3. Shearwater "Rook"
4. The Notwist "The Devil You + Me"
5. Simon Bookish "Everything / Everything"
6. Kelley Polar "I Need You To Hold On While The Sky Is Falling"
7. The Ruby Suns "Sea Lion"
8. Department Of Eagles "In Ear Park"
9. David Byrne + Brian Eno "Everything That Happens Will Happen Today"
10. Spiritualized "Songs in A & E"

Entre nós o ano foi agitado. Como há muito não se via, sublinhe-se. E a melhor das heranças que 2008 nos deixa é a do reencontro do pop/rock português com a nossa língua. Terminam assim dez anos de yé yé (com mais escorregões que momentos que um dia justifiquem a memória), de sonhos pop que ainda não se concretizaram. E em grande parte porque o nosso pop/rock em inglês soa tão estranho lá fora como para nós o é a pronuncia de KD Lang quando canta o Fado Hilário (se bem que a cantora canadiana lhe dê uma intensidade que nem todo o fadista alcança). Isto para nem falar dos tropeções na gramática das letras, mas enfim. Cada um que cante como entender... Mas se verificarmos o que se passa lá fora, concluímos que o verdadeiro sucesso internacional da produção nacional em 2008 são os Buraka Som Sistema! Valerá então a pena tentar o inglês só para ver se a coisa ganha passaporte?... Alguns dos momentos mais marcantes do ano nacional fizeram-se em português. B Fachada, Samuel Úria, Macacos do Chinês, Tiago Guillul, Os Pontos Negros, João e a Sombra, Feromona... A estes podemos juntar os veteranos Mão Morta (numa aventura falada), Rui Reininho (em estreia a solo que lhe dá o seu melhor disco desde os anos 80) e Rádio Macau. E na selecção de 2009 esperam-se as estreias de Os Golpes e, até que enfim, a dos Doismileoito. Por seu lado, o fado já conheceu anos de colheita mais farta... O melhor do ano, contudo, coube a um regresso (e uma estreia ao mesmo tempo). O regresso é o de António Pinho Vargas, a solo, ao piano. A estreia, a de David Ferreira como editor em nome próprio. Que haja mais “investidas” em 2009!

1. António Pinho Vargas "Solo"
2. Rui Reininho "Companhia das Índias"
3. Mão Morta "Maldoror"
4. B Fachada "Viola Braguesa"
5. Dead Combo "Lusitania Playboys"
6. Noiserv "One Hunderd Miles From Thoughtlessness"
7. Tiago Guillul "IV"
8. Rocky Marsiano "Outside The Pyramid"
9. Buraka Som Sistema "Black Diamond"
10. Camané "Sempre de Mim"

O universo da “clássica” tem quase mil anos de composições escritas à disposição de todos os que acreditam que a música começou antes de Elvis ter entrado nos estúdios da Sun Records para gravar os seus primeiros singles. Porém, quem programa o que se escuta nos palcos portugueses muitas vezes parece esquecer-se dos últimos cem anos (assim como os primeiros 500), acabando a oferta por navegar, salvo pontuais excepções (como o foram este ano os centenários de Messiaen e Carter ou no ano passado o de Shostakovich), em volta de uma espécie de cânone de mestres e eleitos. Nada contra o que se ouve. Falta apenas poder ouvir mais, sobretudo os compositores vivos, aqueles que, tal como os Portishead, Animal Collective ou Radiohead, fazem a história do nosso presente. Valem-nos os discos. E aí o ano tanto nos deu sublimes novas gravações de peças fundamentais na história da música (a Criação de Haydn por McCreesh ou Brahms por Kent Nagano), como redescobriu pérolas esquecidas (os concetros com que Boulez encerra a gravação da obra orquestral de Bartók). A elas juntam-se primeiras gravações de obras de Nico Muhly ou Giya Kancheli. O ano destacou ainda talentos em afirmação como, sobretudo, o maestro venezuelano Gustavo Dudamel, que registou em Fiesta o ambiente, de facto festivo, que tem corrido palcos do mundo com a Orquestra Simón Bolívar. O centenário de Messiaen foi devidamente assinalado em edições e reedições. Já o de Eliott Carter passou ao lado... O ano deu-nos ainda uma magnífica antologia de Philip Glass. E uma sublime caixa com gravações históricas de obras de Bernstein, dirigidas pelo mesmo. Mas do seu 90º aniversário (assinalado pelo mundo fora), nicles junto de quem faz os programas de concertos de música sinfónica mais mediatizados por estes lados... No surprises, como diriam os Radiohead...

1. Leonard Bernstein "Bernstein Conducts Bernstein"
2. Kent Nagano "Brahms - Symphony Nº 4"
3. Gustavo Dudamel "Fiesta"
4. Nico Muhly "Mothertongue"
5. Philip Glass "Glassbox"
6. Paul McCreesh "Haydn - The Creation"
7. Giya Kancheli "Little Imber"
8. Pierre Boulez "Bartók - Concertos"
9. Andreas Scholl "Crystal Tears"
10. Leif Segerstam "Rautavaara - Manhattan Trilogy"

J.L.

Discos? Em boa verdade, quase toda a gente passou a falar de downloads: numa sociedade de fetichização dos "objectos", o objecto-disco entrou em crise económica e, sobretudo, simbólica. Mas quando ouvimos Patti Smith (acompanhada pelos sons assombrados de Kevin Shields) a ler a sua obra poética em The Coral Sea, será que pode fazer sentido a noção de que se vai fazer o download de... um poema? Talvez, mas isso não impede que possamos continuar a desejar um disco como... um livro. Em todo o caso, a dificuldade de estabelecer hierarquias (e também aquilo que não ouvi), levam-me a valorizar o retorno à matéria primordial dos sons: a voz humana. E também, nem que seja pelo prazer do contraste, às arrebatadoras paisagens electrónicas (?) que nascem das experiências da alemã Antye Greie-Fuchs, aliás, AGF.

1. Patti Smith e Kevin Shields "The Coral Sea"
2. AGF "Words Are Missing"
3. Aldina Duarte "Mulheres ao Espelho"
4. Spiritualized "Songs in A & E"
5. Portishead "Third"
6. Beck "Modern Guilt"
7. The Cinematic Orchestra "Live at the Royal Albert Hall"
8. The Fireman "Electric Arguments"
9. Vampire Weekend "Vampire Weekend"
10. Amy Winehouse "Frank & Back to Black"