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sexta-feira, maio 04, 2018

"Star Wars" nunca existiu

1. O que é uma genuína cultura popular? Ou quando é que uma dinâmica cultural deixa de ser gerida pelos seus valores narrativos e simbólicos para passar a existir em função das opções do marketing e, genericamente, do mercado?

2. São perguntas que se justificam a propósito da atribulada existência do fenómeno Star Wars. No caso português, aliás, com um sinal inequívoco do poder normalizador desse marketing. Ou seja: a partir de certa altura, a designação "A Guerra das Estrelas" (de facto, o título oficial com que o primeiro filme da saga se estreou no nosso país) foi rasurada do espaço público — triunfou a expressão Star Wars.

3. Curiosamente, esta reconversão mercantil do produto continua a gerar resistências nos mais diversos sectores, a começar pela base de fãs que os filmes geraram em todo o mundo. Há mesmo quem trabalhe sobre as versões "modernizadas" dos primeiros títulos de Star Wars (nomeadamente nas edições em DVD e Blu-ray), criando, ou melhor, recriando os filmes com as componentes, sobretudo visuais, das primeiras cópias.

4. O que está em causa não é qualquer altercação pueril sobre os filmes "bons" ou "maus" que a saga contém — ninguém discute o seu lugar central na transfiguração técnica, temática e simbólica do cinema nas últimas décadas e, em particular, nas suas dinâmicas industriais e comerciais. O que está em causa é, isso sim, a defesa das matrizes originais das obras, aliás de acordo com o ponto de vista de George Lucas que, em 1988, a propósito da "colorização" dos filmes a preto e branco, se mostrava indignado com a manipulação da herança cultural cinematográfica, classificando-a mesmo de barbárie.

5. Há alguns meses, o jornal Le Monde produziu um video eloquente e didáctico, resumindo a complexidade de todas estas questões.

quinta-feira, abril 05, 2018

Os subsídios da arte e o golo de Ronaldo

1. Quem pensou no assunto, ensinou-nos que os limites da linguagem que usamos definem os limites do nosso mundo.

2. A palavra arte, por exemplo, reentrou de rompante no quotidiano português por causa das discussões em torno dos subsídios estatais a determinadas actividades artísticas, em especial o teatro.

3. Poucos dias depois, a mesma palavra arte está em tudo o que é jornal, televisão, site ou blog para definir um golo marcado por Cristiano Ronaldo — uma "obra de arte", escreve-se, diz-se.

4. No primeiro caso, a palavra arte surge como um contratempo que vem perturbar a pacatez do nosso quotidiano; no segundo, a mesma palavra projecta-nos num espaço eufórico e libertador que, escreve-se, diz-se, nos torna melhores como portugueses.

5. Não vejo os nossos políticos a questionar esta duplicidade da palavra arte — o que pode levar a supor que não querem pensar nisso ou, talvez, não sabem como pensá-lo. E que vivem bem com esses limites da sua própria linguagem.

segunda-feira, março 26, 2018

FACEBOOK: talvez tenham ouvido falar?

Na sequência da imensa fuga de informações de 50 milhões de perfis do Facebook, a empresa de Mark Zuckerberg publicou um anúncio de apresentação de desculpas em alguns dos principais jornais de língua inglesa: The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal, nos EUA, e The Observer, The Sunday Times, Mail on Sunday, Sunday Mirror, Sunday Express e Sunday Telegraph, no continente europeu [Vanity Fair]. Lema: "Temos a responsabilidade de proteger a vossa informação" [sugere-se click para ampliar a imagem].
Saúda-se o gesto.
Pergunta-se se Zuckerberg acredita que a sua "comunidade" se define apenas por uma forma de gestão técnica — e tanto mais quanto isso o conduz a colocar alguma religiosidade na relação com os seus consumidores, já que agradece o facto de esses mesmos consumidores "acreditarem" no Facebook.
Acima de tudo, fica-se perplexo com a ligeireza com que Zuckerberg coloca a questão. A saber: "Talvez tenham ouvido falar de uma quiz app construída por um investigador universitário que, em 2014, permitiu a fuga de dados do Facebook de milhões de pessoas." Como? Talvez tenham ouvido falar... Incapaz de assumir o facto de o Facebook ter contaminado as relações humanas a nível planetário, Zuckerberg parece ser, ele próprio, o sacerdote de uma nova religião, alheia à existência de jornais e jornalismo : as notícias, mesmo sobre dezenas de milhões de pessoas, são um incidente. Talvez tenham ouvido falar...

quarta-feira, março 07, 2018

quarta-feira, janeiro 31, 2018

"The Post": jornalismo e verdade (3/3)

Rodagem de The Post
— Steven Spielberg e Tom Hanks (ao centro), Meryl Streep (à direita)
A publicação dos "Pentagon Papers", em 1971, é pretexto para um notável filme sobre o trabalho jornalístico, com assinatura de Steven Spielberg — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Janeiro), com o título 'Spielberg celebra o jornalismo e a exigência da verdade'.

[ 1 ]  [ 2 ]

Para além da actualidade da reflexão sobre os modos de convivência, porventura de conflito, entre imprensa e poder político, The Post é mais um filme que desmente, ponto por ponto, a noção simplista (com grande cobertura mediática) segundo a qual a produção cinematográfica americana se esgota numa colecção de aventuras de super-heróis e efeitos especiais.
Aliás, The Post pertence a uma galeria de grandes filmes políticos que os EUA produziram nos últimos anos, incluindo A Ponte dos Espiões, também de Spielberg, sobre um episódio da Guerra Fria, Detroit, de Kathryn Bigelow, evocando os motins de 1967 naquela cidade, ou Derradeira Viagem, de Richard Linklater, centrado num veterano da guerra do Vietname cujo filho, cerca de quatro décadas mais tarde, morre em combate no Iraque.
Nada disso implica qualquer negação do “star system” de Hollywood. Bem pelo contrário: ao entregar os papéis de Bradlee e Graham a Tom Hanks e Meryl Streep, respectivamente, Spielberg joga com o seu prestígio popular para nos envolver na teia de ideias e afectos decorrentes da sua prática profissional. Em particular no caso de Streep, a sua admirável composição de uma mulher com importantes poderes num mundo dominado por valores masculinos faz mais pela exaltação do factor feminino do que a histeria de muitos discursos panfletários, indiferentes à multiplicidade de factores de cada conjuntura histórica.
Estamos perante um brilhante relançamento do mais genuíno cinema liberal de Hollywood. Entenda-se: liberal não envolve, neste contexto, qualquer sentido partidário, decorrendo do empenho em discutir o lugar da verdade no interior das dinâmicas, eventualmente das contradições, de uma sociedade democrática. The Post é mesmo um filme cujos valores narrativos nos remetem para momentos emblemáticos da produção dos anos 60/70 como Sete Dias em Maio (1964), de John Frankenheimer, Três Dias do Condor (1975), de Sydney Pollack, ou Os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula. Vale a pena recordar que este filme de Pakula narra o trabalho de Carl Bernstein e Bob Woodward, também jornalistas de The Washington Post, sobre o escândalo Watergate e a subsequente queda de Nixon, em 1974 — dir-se-ia que, com quatro décadas de antecipação, Pakula realizou a sequela do filme de Spielberg.

>>> Trailer de Os Homens do Presidente.

sábado, janeiro 27, 2018

"The Post": jornalismo e verdade (2/3)

A publicação dos "Pentagon Papers", em 1971, é pretexto para um notável filme sobre o trabalho jornalístico, com assinatura de Steven Spielberg — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Janeiro), com o título 'Spielberg celebra o jornalismo e a exigência da verdade'.

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A revelação dos “Pentagon Papers” abalou profundamente a vida americana, reforçando as argumentações políticas e as manifestações populares contra a continuação da guerra (que terminaria com a queda de Saigão, em Abril de 1975, e o triunfo do Vietname do Norte, anexando o Vietname do Sul).
Na origem do documento está a criação de uma equipa de investigadores da história do Vietname no século XX, analisando, em particular, a presença dos EUA naquela região asiática. Reunidos por Robert McNamara, secretário da Defesa dos presidentes John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson (de 1961 a 1968), tais investigadores produziram um documento de sete mil páginas cujo impacto se pode condensar em dois vectores fundamentais: primeiro, a inventariação das muitas formas de envolvimento dos EUA na Indochina desde as décadas de 1940/50, no tempo do presidente Harry S. Truman; depois, o reconhecimento da impossibilidade de uma vitória militar no conflito em que os EUA se tinham empenhado de modo especialmente intenso desde o começo dos anos 60.
O filme de Spielberg aborda esse processo a partir de um momento de peculiar dramatismo, pouco depois de uma primeira divulgação de alguns elementos dos “Pentagon Papers” nas páginas de The New York Times, a 13 de Junho de 1971. E o mínimo que se pode dizer da sua invulgar energia emocional é que, apesar de sabermos ou podermos saber o que aconteceu, nada disso retira a The Post um “suspense” tão elaborado quanto contagiante.
Mais do que um confronto de discursos políticos, Spielberg narra uma saga de pessoas envolvidas num complexo labirinto profissional e moral. Quando The Washington Post tem acesso aos “Pentagon Papers”, surge também uma questão de concorrência jornalística: era a oportunidade de um jornal ainda de escassa projecção nacional desafiar o mítico The New York Times. Mas o problema de fundo afigurava-se bem diferente: tendo em conta que a administração Nixon accionara os mecanismos legais para impedir qualquer nova publicação de extractos do documento, The Washington Post estava forçado a ponderar a equação resultante das tensões entre segredos de Estado e interesse público. Como diz o editor Ben Bradlee a Katharine Graham, proprietária do jornal, podiam ser todos presos.

quinta-feira, janeiro 25, 2018

"The Post": jornalismo e verdade (1/3)

A publicação dos "Pentagon Papers", em 1971, é pretexto para um notável filme sobre o trabalho jornalístico, com assinatura de Steven Spielberg — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Janeiro), com o título 'Spielberg celebra o jornalismo e a exigência da verdade'.

Um dos cartazes americanos do novo filme de Steven Spielberg, The Post, utiliza uma velha frase coloquial: “truth be told”. À letra: “verdade seja dita”. É uma expressão que, regra geral, serve para reforçar o carácter verdadeiro de algo que está mais ou menos implícito no que já foi afirmado. Por exemplo, se dizemos “hoje está muito frio”, podemos acrescentar “verdade seja dita, os dias têm estado muito frios”.
Trata-se, como é óbvio, de contar uma história que tem a ver com a vontade e, mais do que isso, o empenho em dizer a verdade sobre determinados factos. The Post narra a odisseia dos jornalistas de The Washington Post que, na sua edição de 18 de Junho de 1971, começaram a divulgar os chamados “Pentagon Papers”. Através das informações contidas nesse documento secreto, tornou-se claro para o público americano que a administração do presidente Richard Nixon tinha a clara noção de que, apesar do reforço do investimento militar no Vietname (com crescentes perdas de vidas humanas), não era possível ganhar a guerra.
Acontece que, no actual contexto cinematográfico e político, “truth be told” adquire outras ressonâncias, veementes e incontornáveis. Isto porque The Post surge numa América marcada pelo conflito de Donald Trump com muitos sectores da actividade jornalística. O presidente vai acusando os mais diversos órgãos de informação de produzirem notícias falsas (“fake news”) sobre a sua administração, ao mesmo tempo que diversos jornais e televisões, de The New York Times à CNN, passando por The Washington Post, vão desenvolvendo um trabalho pedagógico de desmontagem das mentiras e manipulações de factos por parte de Trump.
Não se trata, portanto, de aplicar o efeito mais ou menos retórico condensado na expressão “verdade seja dita”. O que está em jogo é a importância e, mais do que isso, a urgência de dizer a verdade. Nesta perspectiva, The Post é um filme que consegue a proeza de ser um esclarecedor fresco histórico sobre a sociedade americana de há quase meio século, ao mesmo tempo que possui o fulgor de um gesto simbólico capaz de ecoar no presente em que o descobrimos.

segunda-feira, janeiro 15, 2018

"Este clima de censura" [citação]

>>> Assinei este texto [Le Monde] por uma razão que, a meu ver, é essencial: o perigo da purificação nas artes. Sade na Pléiade vai ser queimado? Leonardo da Vinci vai ser designado como um artista pedófilo e os seus quadros queimados? Vão retirar os Gauguin dos museus? Destruir os desenhos de Egon Schiele? Proibir os discos de Phil Spector? Este clima de censura deixa-me sem voz e inquieta pelo destino das nossas sociedades.

CATHERINE DENEUVE
Tribuna / Libération
14-01-2018

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Da liberdade sexual
— um texto de 100 mulheres francesas

>>> A vaga purificadora não parece conhecer limites. Além, censura-se um nu de Egon Schiele num cartaz; aqui, apela-se à retirada de um quadro de Balthus de um museu porque seria uma apologia da pedofilia; na confusão entre o homem e a obra, pede-se a interdição da retrospectiva de Roman Polanski na Cinemateca e obtém-se o adiamento da que seria consagrada a Jean-Claude Brisseau. Uma universitária avalia o filme Blow-up, de Michelangelo Antonioni, como "misógino" e "inaceitável".

Os exemplos estão aí e importa, antes do mais, expo-los na sua violência e intolerância — são exemplos de uma vaga contra a arte, contra a complexidade da natureza humana, contra o humanismo. Estas são palavras de um texto admirável, publicado por uma centena de mulheres no jornal Le Monde, chamando a atenção para os trabalhos forçados do puritanismo:

>>> É próprio do puritanismo, em nome de um suposto bem geral, apropriar-se dos argumentos da protecção das mulheres e da sua emancipação para melhor as prender a um estatuto de eternas vítimas, pobres coisinhas dominadas por demónios falocratas, como nos bons velhos tempos da bruxaria.

Entre as assinaturas do texto estão os nomes das actrizes Ingrid Caven e Catherine Deneuve, da escritora Catherine Millet e da editora Joëlle Losfeld. A sua reflexão, que importa ler na íntegra, não tem nada a ver com qualquer branqueamento de crimes sexuais, qualquer indiferença face ao crime de violação ou qualquer defesa de submissão das mulheres a ditames machistas — é normal (quer dizer, é da norma) que o burburinho "social" as queira reduzir a tal dimensão; importa, por isso, também por isso, lidar com a complexidade argumentativa das suas palavras. Sob pena de as relações humanas, sexuais ou não, passarem a ser vividas como cenas de um tribunal sem rosto, gerido pelas sanções sem recurso de uma cultura ditatorial. À suivre.

>>> Trailer de Blow-up (1966).

sábado, janeiro 06, 2018

"The Boston Globe": as fotos do ano

FOTO: Craig F. Walker / Boston Globe
Mason Anderson tem 2 anos e quer ir brincar para a rua; a avó, Susan Anderson Lopes, explica-lhe que isso só poderá acontecer depois do pequeno almoço. A cena familiar decorre num contexto preciso: Justin Anderson, pai de Mason, morreu de uma overdose de fentanyl e heroína em Novembro de 2016 — Susan ficou encarregada da sua educação.
A fotografia, publicada pelo jornal The Boston Globe a 14 de Setembro de 2017, resultou de um trabalho de Craig F. Walker sobre a existência, no estado de Massachusetts, de milhares de crianças com pais toxicodependentes, colocadas sob custódia do Estado ou criadas pela família. É uma das melhores imagens do ano escolhidas pelo jornal entre as que foram obtidas pelos seus fotógrafos — vale a pena conhecer o notável portfolio.

domingo, dezembro 31, 2017

Pedir desculpa em 2017

Será que temos todos que pedir desculpa pelo ano de 2017?... A pergunta não é essa, mas talvez pudesse ser. Em qualquer caso, aquilo que propõe um video de David Botti, do New York Times, é uma antologia amarga e doce das figuras que, ao longo do ano que agora termina, surgiram no espaço mediático a pedir desculpa — quatro minutos de catarse cultural.

sexta-feira, outubro 27, 2017

Uma memória de JFK [por Errol Morris]

Ordenada por Donald Trump, a divulgação de mais de 2800 documentos relacionados com o assassinato do Presidente John F. Kennedy (no dia 22 de Novembro de 1963, em Dallas) veio alargar a já gigantesca literatura sobre um crime cuja memória permanece associada a uma hipótese de conspiração que, em qualquer caso, ninguém provou de modo irrefutável — trata-se de um "imenso tesouro" para a pesquisa da verdade, segundo as palavras do New York Times.
Na sua secção de video, o jornal repôs uma pequena preciosidade cinematográfica assinada pelo grande Errol Morris: chama-se The Umbrella Man e apresenta-nos o escritor, investigador e professor Josiah Thompson — autor de Six Seconds in Dallas: A Micro-Study of the Kennedy Assassination (1967) —, dissertando sobre o misterioso "homem do guarda-chuva", presente em várias imagens (fotográficas e cinematográficas) da parada das ruas de Dallas em que JFK encontraria a morte — uma bela e didáctica reflexão sobre a verdade, ou melhor, a produção de verdade.

sexta-feira, outubro 20, 2017

Marcelo e o povo

FOTO: Nuno André Ferreira / DN
FOTO: Nuno André Ferreira / SIC Notícias
1. Imagens como estas têm proliferado nos últimos dias: o Presidente da República visita as zonas afectadas pelos fogos, multiplicando encontros emocionados com pessoas que aí vivem e que, na maior parte dos casos, perderam familiares e ficaram com as casas e bens destruídos.

2. Não é fácil olhar para estas imagens, perguntando que iconografia é esta que estamos a viver — ou que nos obrigam a viver. E não é fácil porque o nosso pensamento corre o risco de ser sugado pelo determinismo com que muitos discursos televisivos contaminaram o espaço social. Que determinismo? O que leva a perguntar, por exemplo, a um jogador de futebol "que emoção sentiu" quando marcou o golo — como se a emoção fosse um objecto de descrição matemática e, pior do que isso, como se a emoção envolvesse uma verdade única e unívoca que ninguém pode recusar.

3. As coisas complicam-se um pouco mais porque, no limite, tal ideologia mediática nos pode empurrar para o cinismo que, hoje em dia, triunfa em muitos discursos jornalísticos. Na perspectiva de tais discursos, seria preciso perguntar: "o Presidente está ou não a sentir as emoções que exibe?".

4. Como falar disto? Talvez começando por contemplar (e admirar) a inteligência política de Marcelo Rebelo de Sousa. Deste modo, ele sabe que funciona como escape simbólico dos dramas que assombram o país, conseguindo, pelo menos, que as descargas afectivas que suscita se polarizem na sua própria figura, desse modo impedindo que as linguagens mediáticas dominantes se entreguem a uma qualquer acumulação de cenas histéricas sem objecto narrativo — ou cuja narrativa se esgota na produção de histerismo.

5. Mas o Presidente consegue um pouco mais do que isso. Subitamente, através dele, o significante povo reaparece nos circuitos de comunicação. Reaparece, literalmente: há muito desaparecido das argumentações políticas (a não ser, pontualmente, e de forma simplista, como signo de "militância" nos discursos do Partido Comunista), o povo que rodeia Marcelo expõe-se, subitamente, como entidade cuja existência — vida e morte — não pode ser negada.

6. Não é coisa secundária, tal evento. Desde logo, porque temos sido afogados na figuração populista do "povo" que, na mais completa impunidade, prolifera há 40 anos no espaço telenovelesco. Depois, porque nomear o "povo" serve, por vezes, apenas para lhe sobrepor alguma celebração do sucesso de quem é identificado pelas suas origens "populares", desse modo superando as "limitações" dessas mesmas origens — observe-se, a esse propósito, o discurso-padrão em torno do sucesso financeiro de Cristiano Ronaldo, organizado como telenovela "épica" da humildade das origens à acumulação dos milhões.

7. Agora, o povo chora, grita, sente angústia, indignação e revolta. Expõe, afinal, o supremo escândalo político: o de que não o conhecem, nem reconhecem, a não ser quando chegam os bombeiros e se instala a mágoa infinita de todas as perdas. Contra o cepticismo de muitos (a começar por mim), temos, agora, um Presidente que não se substitui demagogicamente ao povo, antes pergunta que lugar ele tem ou pode ter na paisagem social que somos e, com mais ou menos talento, tentamos construir — talvez consigamos, pelo menos, recuar a algo de primordial e contemplar o que há de povo em cada um de nós.

sábado, outubro 07, 2017

Kazuo Ishiguro não estava na lista...

Na sequência da atribuição do Nobel da Literatura a Kazuo Ishiguro, um vento de surpresa, aqui e ali tingido de indignação, varreu muitos sectores do jornalismo planetário — afinal, o premiado não estava na lista...
Ah, a lista! A famosa lista! Todos os anos, em todos os recantos do mundo, há jornalistas (?) que constroem especulações mais ou menos anedóticas, não poucas vezes em tom autoritário, sobre quem vai ganhar (o que, para eles, é o mesmo que quem "devia" ganhar) o Nobel da Literatura. Como? Porque... eles sabem que há uma lista! Nunca a mostram, nem sequer conseguem apresentar qualquer indício da sua material existência. O certo é que se entregam a essa suprema e disparatada arte da "antecipação", como se informar fosse, não tratar o que acontece, mas construir oráculos dedicados a revelar o que vai acontecer...
Provavelmente, na maioria dos casos, essas mesmas intervenções jornalísticas até se congratularam com o reconhecimento de Ishiguro. Mas, repare-se, não é isso que está em causa — é, isso sim, um modelo de (des)informação que acredita, ou quer fazer acreditar, que possui a chave mágica para dar conta dos mecanismos de funcionamento de tudo e mais alguma coisa, desde os incidentes que podem preceder um golo num jogo de futebol até às reuniões absolutamente fechadas e secretas da Academia Sueca.
Em qualquer caso, registe-se a lamentável ocorrência: em muitos casos de intervenção informativa, a notícia sobre Ishiguro ficou-se por um exercício pueril de ilusionismo jornalístico, dispensando o essencial. Que essencial? As qualidades do homem que, por acaso, até é escritor, mas que deve pagar pelo pecado de quem não estava na lista...

>>> Palavras de Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca, sobre Kazuo Ishiguro.

quarta-feira, outubro 04, 2017

A IMAGEM: Jessica Rinaldi, 2017

FOTO: Jessica Rinaldi / Boston Globe

— Myriam Ruiz Rivera aguarda no exterior das urgências, depois do seu pai, Luis Alberto Ruiz Irizarry, ter tentado suicidar-se na sequência da devastação de Porto Rico pelo furacão Maria [fotos do mês de Setembro do Boston Globe].

segunda-feira, setembro 04, 2017

Furacão Harvey — um testemunho jornalístico

Vale a pena conhecer a simplicidade radical deste video do New York Times sobre os efeitos do furacão Harvey no Texas — realizado e montado por Deborah Acosta, nele acompanhamos apenas a reentrada de uma família em sua casa, nos arredores de Houston, avaliando os estragos provocados pela água.
É um testemunho jornalístico que dispensa qualquer simbolismo compulsivo, desse modo recusando a "espectacularizão" gratuita com que todos os dias deparamos no pequeno ecrã (sendo a tragédia do Harvey um mero exemplo de tal prática). A televisão impôs uma prática formatada da voz off que, em muitos casos, nos desliga da própria realidade que, supostamente, nos está a ser apresentada. Não que a voz off não possa ser um peculiar recurso das mais diversas narrativas (e escusado será lembrar que, de Hitchcock a Godard, a história do cinema está recheada de exemplos fascinantes). Acontece que, como o demonstra o austero trabalho de Acosta, é possível olhar — e registar — o mundo à sua volta sem lhe sobrepor um qualquer discurso determinista e moralista. Importa, enfim, revalorizar a dimensão mais pudica do exercício do olhar.

terça-feira, agosto 22, 2017

Imagens do eclipse

Em menos de dois minutos, através de um video do New York Times, eis o eclipse do sol visto nos EUA — aventura no espaço, aventura no tempo.

segunda-feira, agosto 21, 2017

O eclipse em directo

É verdade: nos EUA também acontecem fenómenos que não decorrem, directa ou indirectamente, da administração Trump. Hoje, por exemplo, é dia de um eclipse solar que poderá ser observado ao longo de uma faixa transversal de todo o território do país.
Da comunidade científica aos meios de comunicação, vive-se uma entusiástica mobilização geral. Eis algumas pistas: na rádio pública, NPR, com participação musical do Kronos Quartet; nas páginas do New York Times; ou no site da NASA — aqui fica também o canal YouTube da NASA.

quarta-feira, agosto 09, 2017

Gösta Peterson — fotografia & moda

GÖSTA PETERSON
Auto-retrato
1966
Gösta Peterson, admirável individualista que deixou uma marca profundamente transformadora na história das relações entre fotografia e moda, faleceu no dia 28 de Julho, contava 94 anos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Agosto), com o título 'A herança de Gösta Peterson'.

Eis uma efeméride que vale a pena reter: no próximo dia 27 [de Agosto], completam-se 50 anos sobre a edição de The New York Times Magazine [capa à esquerda] em que surgiu na capa Naomi Sims (ilustrando um porfolio de moda). Para além da austera e intemporal elegância da pose, tal publicação envolveu um fundamental simbolismo jornalístico, artístico e social: pela primeira vez, uma publicação de moda fazia capa com uma modelo de pele negra. Para a história, Sims (falecida em 2009, aos 61 anos) ficou mesmo como a primeira “supermodel” afro-americana.
Todas estas memórias foram revisitadas esta semana por causa da notícia do falecimento, a 28 de Julho, de Gösta Peterson, autor da fotografia de Sims [outro exemplo do portfolio no fim do texto]. Mais de três décadas depois da sua publicação, em 2009, seria um dos destaques na exposição do MoMA, “The Model as Muse”; aliás, Sims surgia noutra capa igualmente histórica, na revista Life [capa em baixo, à direita] de 17 de Outubro de 1969 (neste caso, fotografada por Yale Joel).
Gösta Peterson fica quase sempre secundarizado, ou é mesmo omitido, quando se evocam aqueles que, de uma maneira ou de outra, marcaram a evolução das relações entre fotografia e moda. Figuras lendárias como Irving Penn (1917-2009), Helmut Newton (1920-2004) ou Richard Avedon (1923-2004) terão um corpo de trabalho incomparavelmente maior e mais ousado nas suas muitas ramificações criativas. O certo é que Peterson foi um criador capaz de gerar imagens que modificaram as matrizes da moda e, em última instância, a própria percepção social da figura feminina.
A sua proeza mais significativa terá sido a “invenção” de Twiggy. Embora a jovem inglesa (de seu nome verdadeiro Lesley Hornby, nascida em 1949) já estivesse presente nos circuitos europeus da moda, foi em 1967, com a sua chegada aos EUA, que Twiggy se transfigurou num ícone internacional — nesse processo, foi decisiva a sessão de fotografia que realizou com Peterson [foto em baixo], historicamente encarada como aquela que consagrou a sua imagem quase andrógina, olhos grandes e cabelos curtos (os sintomas de tal revolução iconográfica tinham sido antecipados no cinema, em 1966, com Blow-up, a obra-prima de Michelangelo Antonioni).
De origem sueca, nascido em Estocolmo a 25 de Abril de 1923, Peterson estudou ilustração, começando por trabalhar numa agência publicitária. Por sugestão de um familiar, mudou-se para Nova Iorque em 1948. A curiosidade pela fotografia levou-o a começar a usar a sua câmara para registar cenas de rua, num estilo de “reportagem” que, de alguma maneira, iria contaminar o seu trabalho na moda.
Quando olhamos para as suas imagens — publicadas em revistas como a Elle, Esquire ou Harper’s Bazaar —, podemos observar o modo como nos legou uma herança de dessacralização do próprio espaço público. Tal como Robert Doisneau (1912-1994), na Europa, ou Saul Leiter (1923-2013), nos EUA, além dos fotógrafos já citados, Peterson celebrou a elegância e o charme como elementos do quotidiano. Com ele, a moda existe como ritual democrático.

>>> Obituário no New York Times.

Naomi Sims, 1967
Twiggy, 1967

quinta-feira, julho 27, 2017

Ronaldo sai do Real... aliás, não sai...

I. Esta notícia é do dia 16 de Junho, por acaso do jornal Record. E digo "por acaso" num sentido estritamente estatístico: por todo o mundo (e estamos a falar de uma dimensão, de facto, mundial) a notícia correu como coisa consumada — Cristiano Ronaldo tinha dito, claramente dito, que não voltava a Madrid nem ao Real Madrid.

II. Um mês depois, os mesmos meios de comunicação que tinham dado a dramática notícias, celebravam outra — veja-se a euforia pueril da Marca. Ou seja: Ronaldo vai continuar a ser jogador do Real Madrid!

III. Como? Importa-se de repetir...

IV. Infelizmente, o próprio espaço jornalístico recalca a discussão destas tão particulares dinâmicas mediáticas.

V. Poderá dizer-se que, quando surgiu a primeira notícia, havia razões consistentes para a divulgar. Talvez — mas não é isso que está em causa. O que está em causa é que os mesmos modelos de (des)informação que são capazes de trucidar na praça pública um político por causa de uma qualquer pormenor contraditório nas suas palavras, mostram uma sistemática indiferença pelas contradições discursivas dos jogadores de futebol — como se nem sequer fosse legítimo identificar as componentes anedóticas daquilo que dizem. Eis a narrativa mitológica: Ronaldo era um herói porque ia sair, continua a ser um herói porque vai ficar.