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quarta-feira, outubro 28, 2009

O século de Francis Bacon

FRANCIS BACON
Study for Head of George Dyer
1967

Na pintura de Francis Bacon encontramos os despojos de um incessante combate com os corpos e suas imagens. São cenas, retratos, coisas realistas e outros fantasmas criados por alguém que se reconhecia de uma geração marcada pelo signo da guerra: "Nasci em 1909. Desde então, houve dúzias de guerras e conflitos em todo o mundo, a começar pelos acontecimentos da Irlanda e a Primeira Guerra Mundial, pouco depois do meu nascimento. Tenho a impressão que as pessoas da minha geração não conseguem, de facto, imaginar uma humanidade sem guerra" (in Entretiens, Michel Archimbaud; Gallimard, 1996) — Francis Bacon nasceu em Dublin, a 28 de Outubro de 1909, faz hoje cem anos.
O maior legado de Bacon [foto] está na sua obstinada fidelidade à figura humana. Fideli-dade ou infidelidade, já que, embora manten-do-se distante da tentação abstraccionista, ele foi pintando corpos alheios a qualquer forma "natural", por assim dizer expondo-os a partir do avesso e, nessa medida, emprestando-lhes uma vibração cruelmente realista. Atraído pela fotografia e pelo cinema (em particular, pela singularidade dos fotogramas), Bacon deixou uma obra imensa e fascinante que resiste a dissolver-se num universo de imagens estereotipadas, enredadas no determinismo da sua "mensagem". Ele foi, afinal, um viajante solitário das euforias e medos do factor humano — faleceu em Madrid, a 28 de Abril de 1992.

>>> Site oficial de Francis Bacon.
>>> Francis Bacon no arquivo da
BBC.
>>> 11 Set. 2008/4 Jan. 2009: exposição na
Tate Britain.

domingo, agosto 02, 2009

José Afonso, 80 anos

José Afonso faleceu a 23 de Fevereiro de 1987. Passam hoje 80 anos sobre a data do seu nascimento. É um daqueles momentos em que os números redondos apelam sempre a alguma paragem para reflexão. Trata-se de um equívoco, claro, quanto mais não seja porque a cronologia não é uma forma de destino. Em todo o caso, faz sentido dizer que as muitas apropriações da extraordinária obra do criador de Venham Mais Cinco (incluindo as que aconteceram sob o seu olhar tolerante) nem sempre fizeram justiça a um universo que, mesmo sem renegar toda a sua intensa carga política, não pode ser reduzido a nenhum discurso panfletário, muito menos partidário. Aqui fica, por isso, uma sugestão de leitura da entrevista com Zélia Afonso, viúva do cantor, conduzida por João Céu e Silva e hoje publicada no Diário de Notícias — "Zeca Afonso foi sempre mal-amado" ajuda-nos, antes de tudo o mais, a limpar o espírito para voltarmos a escutar as palavras e a música de José Afonso.

>>> Site oficial da Associação José Afonso.

quinta-feira, abril 23, 2009

Berga an der Elster, Alemanha, 1945

Esta fotografia, datada de Maio ou Junho de 1945, regista um momento vivido poucas semanas depois da libertação de um campo de prisioneiros, em Berga an der Elster, onde os nazis mantiveram, em condições de escravatura, cerca de 350 soldados americanos: sob a vigilância dos americanos que investigavam os crimes de guerra, vários alemães, membros do Partido Nazi, desenterram os corpos de soldados assassinados no campo — foram encontrados 22 cadáveres.
É um documento que faz parte de um conjunto de imagens obtidas por Elmer Martin, soldado e fotógrafo, e conservadas por Jim Martin, seu filho. Em declarações à imprensa, Jim reconheceu que já há mais tempo devia ter divulgado o portfolio do pai porque "se trata da história" e as "pessoas devem ver isto". Este é, afinal, um exemplo dramático e incontornável do modo como o fazer da história — nomeadamente dos crimes nazis durante a Segunda Guerra Mundial — é um processo com tanto de didáctico como de interminável. Na sua reportagem, a CNN dá conta da história das imagens agora divulgadas e também das memórias de alguns sobreviventes.
Foi a 23 de Abril de 1945, faz hoje 64 anos, que foram libertados a maior parte dos campos de trabalho montados pelos nazis. Neste video podemos ver uma reportagem com Anthony Acevedo, soldado americano do sector médico que esteve encarcerado no campo de Buchenwald — para além dos crimes cometidos no campo, Acevedo refere também como as regras do "realismo" político nem sempre favoreceram a simples, e moralmente obrigatória, divulgação dos factos.

quinta-feira, abril 09, 2009

Pet Shop Boys: os primeiros 25 anos

Faz hoje 25 anos que os Pet Shop Boys lançaram o seu primeiro single: West End Girls, que teria um teledisco assinado por Eric Watson e Andy Morahan [a que pertence o fotograma reproduzido em cima]. Passado um quarto de século, a vitalidade pop mantém-se intacta e o duo tem sabido transcender as próprias modas que foi instaurando pelo caminho — os textos que se seguem evocam essa trajectória fascinante e foram publicados no Diário de Notícias (4 de Abril).

N. G.: A 9 de Abril de 1984 chegava pela primeira vez às lojas de discos um single dos Pet Shop Boys. No lado A surgia um tema que pouco mais de um ano depois os levaria ao primeiro lugar de tabelas de venda do mundo fora, lançando definitivamente a carreira desta dupla. Era West End Girls, numa versão ainda distinta da que em 1985 o mundo conheceu. Mais próxima do som da música de dança que então se escutava na noite novaiorquina, a versão original de West End Girls era produzida por Bobby Orlando, um dos nomes de referência do hi-nrg (ler high energy), som que então saía da club scene e conquistava talentos emergentes na música pop. Apesar de ignorada pelas rádios e pelo público em geral, a versão original de West End Girls vincou desde logo uma ligação do grupo à música de dança (que ainda hoje se mantém viva). E deu-lhes o primeiro êxito entre DJ e discotecas, sobretudo nas noites de cidades como Los Angeles e São Francisco, conquistando ainda alguma visibilidade na Bélgica e França. A versão mais pop, editada um, ano depois, vincou o piscar de olho ao hip hop da linha vocal de Neil Tennant.

A arte das canções

N. G.: Poucos imaginarão que uma entrevista a Sting, em tempo de promoção do que seria o último álbum dos The Police, está na origem de uma decisão que definiu um caminho para uma banda que então procurava dar os seus primeiros passos. Eram um duo, juntando um jornalista (enviado da revista Smash Hits a Nova Iorque para fazer a entrevista) e um antigo estudante de Arquitectura. Na altura já respondiam como Pet Shop Boys. E 25 anos depois são reconhecidos como um dos nomes mais importantes da história da música pop.
Neil Tennant, hoje globalmente conhe-cido como a (muito característica) voz dos Pet Shop Boys, era então jornalista. Licenciado em História em 1975, trabalhava desde finais de 70 no mundo editorial. Foi editor da Marvel, trabalhando depois numa sucessão de publicações, até acabar como editor da Smash Hits [capa aqui ao lado, da edição de 7-20 Set. 1988, já com os Pet Shop Boys na capa], revista sobre música pop com grande projecção na primeira metade dos anos 80. Chris Lowe, por seu lado, tinha estudado Arquitectura, chegando a ver uma obra sua (uma escadaria) construída em Milton Keynes. Ambos tocavam instrumentos desde os dias de escola. Tennant fora violoncelista e guitarrista, e chegara mesmo a ter uma primeira banda. Lowe tocara trombone...
Em 1981 os caminhos de ambos cruzaram-se numa loja de alta fidelidade em Kings Road, em Londres. A partilha de interesses e o entusiasmo pela música pop juntou-os, nascendo a parceria que até hoje já gerou 56 singles, dez álbuns de originais, quatro de remisturas, um disco ao vivo, algumas antologias, um musical de palco, uma banda sonora alternativa para um filme mudo de Sergei Eisenstein (o clássico Couraçado Potemkine) e uma série de digressões, algumas delas registadas em vídeo ou DVD.
Começaram a trabalhar num pequeno estúdio em 1982. A princípio apresentavam-se como West End, acabando por mudar o nome para Pet Shop Boys (a relação mais próxima com a designação devendo-se ao facto de uns amigos terem então uma loja de animais).
Em Agosto de 1983, num serviço para a revista para a qual então escrevia, Neil Tennant parte para Nova Iorque. Sting e as canções do álbum Synchronicity eram o motivo da viagem. Porém, foi numa pausa para almoço que a viagem acabou por marcar a vida dos Pet Shop Boys. Admiradores do som hi-nrg que se ouvia nas noites dançantes de Nova Iorque e São Francisco, mas que escutavam do lado de cá do Atlântico, tinham já contactado um dos seus mais destacados produtores.
Chamava-se Bobby Orlando [foto] e pelo correio tinha recebido uma primeira maqueta com canções dos Pet Shop Boys. Foi ele quem almoçou com Neil Tennant, terminando a refeição com um acordo: Bobby Orlando aceitava produzir um disco para o duo britânico. Alguns meses mais tarde, West End Girls chegava às discotecas. Na versão original, ficou, contudo, bem longe dos resultados que, um ano depois, transformaria a canção num êxito global.
A relação com Bobby Orlando ficou por esse episódio. Em 1985, separados do produtor norte-americano, assinam pela EMI, focam todas as atenções no grupo e Tennant deixa a Smash Hits. O primeiro single, Opportunities (Let’s Make Lots Of Money), passa discretamente pelos últimos lugares da tabela de vendas... Regressam a estúdio, com Stephen Hague, para regravar West End Girls. E quando a nova versão surge, em Outubro de 1985 [capa], leva-os ao número um em vários países.
Era o definitivo lançamento de uma carreira que, desde então, nunca conheceu momentos de pausa. Somaram êxitos com dimensão global sobretudo até meados dos anos 90, com canções suas como Suburbia, It’s A Sin, What Have I Done To Deserve This?, Rent, Heart, Left To My Own Devices e Can You Forgive Her ou versões de clássicos como Always On My Mind (de Elvis Presley), Go West (Village People) ou Where The Streets Have No Name (U2).
Demarcaram um terreno e linguagem seus, vincando inteligência, elegância, eclectismo e um profundo conhecimento dos ingredientes que fazem uma grande canção pop. 25 anos depois, como o novo Yes o reafirma, são ainda uma dupla activa, criativa e em tudo consequente.

Canções e suas imagens

J. L.: Quando olhamos para a capa do álbum Very (1993), deparamos com uma austeridade formal conduzida a um extremo puramente poético. Não só os Pet Shop Boys não aparecem, como aquilo que nos é dado ver tem tanto de intrigante como de potencialmente abstracto: Very apresenta-se, através de uma espécie de peça gigante de Lego, de formato quadrado e cor laranja, como se aguardasse a edificação de uma qualquer estrutura a que poderá servir de base de sustentação.
Todas as imagens de Very foram trabalhadas a partir desses pressupostos figurativos e, mes-mo quando Neil Tennant e Chris Lowe surgem em tais imagens, apresentam-se como figuras mais ou menos futuristas, subtilmente paródicas, de um mundo em que é normal usar... capacetes de astronauta (?) com muitas cores. É nessa pose [imagem no início deste texto] que se mostram no genial teledisco de Go West, dirigido por Howard Greenhalgh, cruzando a imagem da Estátua da Liberdade com a simbologia da Revolução Soviética!!!
Estranho? Talvez. Mas a palavra exacta para definir este universo de muitas contaminações estéticas não será “estranheza”. Podemos tentar outra, menos agressiva e, como convém, mais clássica: elegância. O universo formal dos Pet Shop Boys é devastadoramente elegante, não porque se esgote numa pose mais ou menos mediática (e, afinal, efémera), antes porque se fundamenta num metódico e hipersofisticado trabalho de síntese sobre elementos originais ou singelamente roubados a outros universos. Nessa perspectiva, no mundo plural da iconografia pop, eles pertencem à galeria de honra onde residem alguns (poucos) eleitos como Madonna ou David Bowie.
Afinal de contas, estamos a falar de um duo de criadores que compuseram uma banda sonora para O Couraçado Potem-kine (1925), de Sergei Eisenstein, rea-firmando a sua paixão por algumas memórias da arte soviética [foto-grama]. Para além do desafio imenso de “sobrepor” nova música a um dos marcos incontornáveis da mise-en-scène cinematográfica, os Pet Shop Boys começaram por apresentar essa banda sonora num concerto/projecção realizado a 12 de Setembro de 2004, na Trafalgar Square, em Londres. Como quem diz: a vida das formas é feita de permanentes exercícios de transfiguração e deslocamento em que todas as imagens e todos os sons podem ser refeitos, repensados e reencenados.
Por alguma razão, os Pet Shop Boys têm um álbum que dá pelo nome de Bilingual (1996). De facto, cada coisa que se diz (ou canta) pode ser dita noutra língua. A elegância é também a arte da democracia formal. E da sua felicidade estética.

>>> Teledisco de West End Girls.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

40 anos de Led Zeppelin

É apenas uma efeméride: foi a 12 de Janeiro de 1969 — faz hoje 40 anos — que foi lançado o primeiro álbum dos Led Zeppelin, de seu nome Led Zeppelin (tendo em conta os II, III e IV que se seguiram, por vezes citado como Led Zeppelin I). Mas não é possível resistir à sua dupla "mensagem": por um lado, a sensação cruel de que o tempo da revolução do rock (ou, se quiserem, do rock revolucionário) está cada vez mais distante; por outro lado, que desse tempo continua a soprar um vento enérgico que não se pode reduzir à mera "nostalgia" da prática corrente das efemérides.
A banda que aqui se lançava no mercado discográfico — Jimmy Page (guitarra), Robert Plant (voz), John Paul Jones (baixo) e John Bonham (bateria) —, em parte gerada pelo desmembramento dos Yardbirds (de Page), afirmava-se através de uma nova relação com a herança do blues. Era um som que colhia no primitivismo das suas inspirações uma carga de energia ampliada pela electricidade, abrindo as paisagens do heavy metal.
Juntamente com grupos como os Deep Purple, os Led Zeppelin emergiam, assim, como um fenómeno ambíguo, feérico e sinfónico, exterior à dicotomia Beatles/Stones. Para além das atribulações da época, o seu som resistiu como só os clássicos podem resistir [ouça-se aqui em baixo o exemplo de Dazed and Confused] — manda a ditadura do calendário que se diga: parece que foi ontem...

quarta-feira, novembro 19, 2008

Você disse Mickey?...

Ontem, dia 18 de Novembro, Mickey, a personagem mais célebre de Walt Disney, completou 80 anos — este texto foi publicado no Diário de Notícias, com o título 'Disney pop'.

Provavelmente, há toda uma geração de espectadores que descobriram Mickey de forma indirecta e mais ou menos perversa. Penso, claro, nas variações que Andy Warhol criou sobre o rato dos estúdios Disney, por assim dizer conferindo-lhe a dignidade (e também a lógica de multiplicação iconográfica) de outras referências mais ou menos universais, desde Marilyn Monroe à lata das sopas Campbell.
A esse propósito, aliás, vale a pena perguntar se Walt Disney alguma vez imaginou, ou desejou, que a sua figurinha animada pudesse vir a ser transfigurada em símbolo de um estado do capitalismo em que a proliferação das formas de consumo se confunde com a ilusão de uma felicidade utópica. É bem certo que, ao comemorarmos 80 anos de Mickey, vivemos uma das crises mais agudas desse sistema económico/cultural que, afinal, o gerou, produziu e reproduz. Seja como for, talvez que a sua resistência decorra da sua própria raridade nostálgica. Na verdade, não sendo uma personagem ciclicamente relançada por novos filmes, Mickey passou a existir como ícone de um museu imaginário de que o DVD constitui, por assim dizer, o pavilhão nobre (em termos comerciais, pelo menos). E não deixa de ser desconcertante que o título mais emblemático de Mickey, Fantasia (1940), seja também o testemunho paradoxal de um mundo já ferido pela violência da Segunda Guerra Mundial.
Um dos mais irónicos exemplos da maleabilidade iconográfica de Mickey tem a chancela de Madonna e Herb Ritts, um dos fotógrafos que mais subtilmente soube interpretar e encenar a exuberância pop da Material Girl. É uma fotografia em que ela se apresenta com as orelhas de Mickey, no ambiente cool de um hotel de Tóquio. Obtida em 1987, serviria de capa ao single de Dear Jessie, tema do álbum Like a Prayer (1989). E não dizemos que Madonna se apresenta "disfarçada de Mickey", mas sim "com orelhas de Mickey". Warhol bem o mostrou: um ícone é, afinal, uma coisa que podemos usar.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Centenário de Henri Cartier-Bresson

HENRI CARTIER-BRESSON Washington, 1961

Foi o fotógrafo do "momento decisivo", consagrado e mitificado por essa capacidade de fixar o instante exacto em que o caos do mundo se organiza em ordem mágica — uma fotografia. O certo é que tal rótulo (porque acabou por se transformar em rótulo) tende a simplificar, ou mesmo banalizar, a imensa riqueza do seu trabalho. Na verdade, Henri Cartier-Bresson (1908-2004) não foi uma espécie de precurso da estupidez dos "apanhados" em que, supostamente por mérito de algum olhar, se reproduz o ridículo humano. Ele foi, mais que tudo, um retratista do factor humano, um dos grandes humanistas do século XX, celebrando a fotografia como uma prática capaz de integrar a pose clássica da pintura e a ânsia de movimento do cinema. Cartier-Bresson nasceu em Chanteloup-en-Brie, próximo de Paris, a 22 de Agosto de 1908 — faz hoje 100 anos.

>>> Site oficial da Fundação Henri Cartier-Bresson.
>>> Henri Cartier-Bresson na agência
Magnum.
>>> Henri Cartier-Bresson no
MOMA.

quinta-feira, julho 03, 2008

Warhol 2008

A revista Interview antecipou as comemorações dos 80 anos do nascimento de Andy Warhol com um número que serve, de uma só vez, de evocação e discussão das relações entre arte e mercado — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 Junho), com o título 'Fazer arte, fazer dinheiro'.
NOTA: a referência a Drácula (1974), de Paul Morrissey, contém um erro, já que o filme não era a três dimensões — foi Frankenstein (1973), também dirigido por Morrissey e produzido por Warhol, que estreou em muitas salas em 3D (incluindo em Lisboa, no antigo Monumental).

Face à imagem [em cima] que ilustra este texto, será inevitável o leitor evocar de imediato a memória de Andy Warhol (1928-1987). A paradoxal serenidade do seu rosto triste e também, claro, a sua famosa cabeleira branca são elementos essenciais da homenagem proposta por Marc Jacobs (fotografado por Mikael Jansson). A fotografia de Jacobs integra um número muito especial da Interview (Junho/Julho), revista que o próprio Warhol criou em 1969: trata-se de antecipar a data do 80º aniversário do nascimento de Warhol (6 de Agosto), propondo uma viagem através das memórias dos que com ele conviveram e, ao mesmo tempo, expondo os mais diversos trabalhos, atitudes e filosofias que colhem inspiração na sua vida & obra.
A escolha de Marc Jacobs como uma espécie de projecção fantasmática de Warhol não tem, obviamente, nada de acidental (aliás, é um outro grande plano do seu rosto, da mesma série, que figura na capa desta edição da Interview). Na sua qualidade de designer de moda muitas vezes associado a outros géneros de criações, incluindo a publicidade, Jacobs encarna de forma exemplar o conceito, “war-holiano” por excelência, de uma arte constantemente envolvida com o mercado, sem hipocrisias nem preconceitos.
Em entrevista com Glenn O’Brien, director editorial da Interview, Jacobs coloca de forma subtilmente irónica as questões que podem envolver a validação pública da arte. Evocando uma polémica desencadeada por uma instalação de malas numa loja da Louis Vuitton (marca francesa de que o próprio Jacobs é o actual director artístico), lembra que se produz sempre alguma agitação quando se desafiam as formas correntes de rotular os objectos ou comportamentos: “Se a coisa estiver instalada numa exposição num museu, então já se torna uma espécie de performance conceptual? (...) Quando vamos a uma loja de discos e lá diz ‘alternativa’ para descrever um determinado género de música, não será que qualquer música é alternativa a outro tipo de música?”.
Os temas lançados pela entrevista de Jacobs e, de um modo geral, toda a contagiante alegria criativa deste número da Interview são tanto mais pertinentes quanto partem do reconhecimento da existência de uma entidade: o mercado. Mais do que isso: assumem o seu carácter absolutamente incontornável. Convém, aliás, não esquecer um dos mais perversos axiomas enunciados pelo próprio Warhol: “Fazer dinheiro é arte, trabalhar é arte e os bons negócios são a melhor arte.”
São, no fundo, ideias cândidas. Mas são ideias cuja actualidade se mantém, quanto mais não seja porque se demarcam do mercantilismo televisivo que, muito objectivamente, odeia todas as formas de arte (veja-se o triunfo global das telenovelas e dos seus valores narrativos e humanos). São, afinal, ideias enraizadas na prática de um homem que, também ele, se encontra catalogado por muitos rótulos. Leia-se, a propósito, o depoimento de Paul Morrissey, cineasta que trabalhou numa série de filmes produzidos por Warhol, incluindo o célebre Drácula (1974), em 3D: “Não era alguém com que se podia aprender, mas sim alguém que se destacava e suscitava respeito; não bebia, não tomava drogas e nunca acumulava dívidas. Não queria perder dinheiro e era responsável. Pagava as suas contas.”
Andy Warhol: Knives (c. 1981-82)

segunda-feira, junho 30, 2008

"Woodstock negro"

Wattstax é o nome por que ficou conhecido um festival de música afro-americana realizado a 20 de Agosto de 1972, no Los Angeles Coliseum. Com a participação de Richard Pryor, Isaac Hayes, Rufus Thomas, Carla Thomas e The Staple Singers, entre muitos outros, o evento acabou por entrar na história como um "Woodstock negro", evocando as memórias dramáticas da agitação social que tinha varrido a zona de Watts, L.A., sete anos antes. Sobre o festival existia um filme — Wattstax (1973) — dirigido por Mel Stuart. Agora, surge esta especialíssima edição da banda sonora, numa caixa com três CDs. São momentos exuberantes de uma genuína celebração colectiva.
O trailer que aqui se reproduz é de 2003 e diz respeito ao relança-mento do filme, comemorando o 30º aniversário da sua estreia.

domingo, junho 15, 2008

Os bichos de Vieira da Silva

13 de Junho de 2008: a data do centenário do nascimento de Maria Helena Vieira da Silva justificou um reencontro com a sua pintura e, em particular, com um documentário de 1976 sobre os seus espaços íntimos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Junho), com o título 'Cerimónia secreta'.

Em 1976, José Álvaro Morais filmou um documentário sobre Vieira da Silva que adoptava no título uma expressão de Arpad Szenes, marido da pintora: Ma Femme Chamada Bicho. Era uma frase da intimidade e o mais tocante do filme nascia dessa sensação de sermos convocados para qualquer coisa de privado, a meio caminho entre as rotinas do quotidiano e os sabores de uma cerimónia de secretos artifícios. No derradeira cena, a pintora mostrava uma vez mais o seu belo gato branco e cinzento, surgindo com um rosto absolutamente teatral, pintado de tinta negra, contrastando com os seus cabelos grisalhos. No plano final, Vieira da Silva apresentava-se assim, de rosto negro, de braço dado com Arpad Szenes, passeando ao sol.
Ao rever tais imagens, não pude deixar de pensar nas obscenidades que agora nos rodeiam, promovendo a privacidade dos “famosos” (não necessariamente pintores de grande mérito) a uma espécie de norma de percepção das relações humanas. De facto, havia em Vieira da Silva uma resistência à vulgarização mediática que, embora decorrendo de um pudor ancestral, correspondia também a uma filosofia de sereno radicalismo. A saber: não faz sentido supor que podemos “revelar” a intimidade de um ser humano porque essa intimidade é algo que muda de lugar e significação cada vez que julgamos apropriá-la. Chama-se a isso, aliás, estar vivo.
Daí que haja no seu universo visual um paradoxo activo e, à sua maneira, festivo. É algo que nasce do sentimento de que cada quadro regista uma experiência concreta (lembremos as suas representações do 25 de Abril), ao mesmo tempo abrindo para um labirinto potencialmente infinito e irredutivelmente abstracto.
Em tempos de triunfo dos muitos artifícios das imagens digitais, a pintura de Vieira da Silva, mesmo nos seus mistérios mais resistentes, remete-nos para a verdade humana do nosso ver e sentir. É, por isso, uma pintura em que o assumido primitivismo nos projecta sempre num desejo de futuro. Um desejo sem nome, mas de acontecer certo, preciso, como um bicho.

>>> Site oficial do Museu Arpád Szenes - Vieira da Silva.

terça-feira, junho 10, 2008

Dia de Portugal

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

*****

> Este video é uma produção da companhia S.A. Marionetas, de Alcobaça.

quarta-feira, maio 14, 2008

Sinatra, dez anos depois

As luzes não brilharam em Las Vegas na noite em que "A Voz" se despediu. Não foram apagadas, mas iluminaram a cidade dos palcos e casinos com menos intensidade que o habitual. Estávamos a 14 de Maio de 1998. Doente há algum tempo, assolado por um segundo ataque cardíaco, Sinatra morria no Cedars-Sinais Medical Center, ao lado da mulher Barbara e da filha Nancy. Terá dito "I'm losing" pouco antes de nos deixar. O inventor da canção pop enquanto fenómeno maior da música para as massas saia de cena, diz a lenda, com um frasco de Jack Daniels e moedas para o telefone no bolso.

Sinatra foi o mais versátil, completo e bem sucedido da sua geração. E também o que mais sobreviveu ao tempo, reinventando-se a cada nova etapa na história do entretenimento e suas ferramentas de comunicação para o grande público. Dos palcos dos anos 30 aos primórdios da gravação digital utilizando transmissão de registos por linha de telecomunicações (que permitiu a construção dos álbuns de duetos que editou nos anos 90), Sinatra conheceu e dominou os veículos de difusão ao serviço da sua obra. Do cinema à televisão, dos palcos aos discos, afirmou-se pelas inegáveis qualidades vocais e pelo reconhecido carisma da sua figura. Os biógrafos gostam de falar das muitas faces de Sinatra. Ou, mesmo, dos "vários" Sinatras. Uns inclusivamente contraditórios entre si (como o foi, por exemplo, o contraste entre as campanhas pelos direitos dos negros à performance em palcos para brancos na América de 60 e o controverso contrato que o levou a Sun City, na África do Sul, em inícios de 80). Ao evocar "A Voz" (como em muitos círculos acabou reconhecido), é natural que se transcenda a memória da música. O Sinatra das mulheres. O Sinatra entre políticos (também aqui espelho de contradições, ora apoiando o democrata J. F. Kennedy, ora os republicanos Nixon e Reagan). O Sinatra com alegadas ligações a submundos de negócios menos transparentes. O Sinatra editor (foi dos primeiros músicos a lançar a sua própria etiqueta discográfica, a Reprise). O Sinatra actor...

Inspirado por Bing Crosby (pioneiro no recurso ao microfone em palco), Sinatra cedo soube que estar em cena implicava um acto de comunicação, de partilha e de sugestão de empatia. A personalidade vincada levou-o a afastar-se de uma carreira diluída entre um grupo (e militou no de Tommy Dorsey), em 1939, ao cabo de apenas quatro anos de vida musical. No mesmo ano em que se estreava, com Our Love, somava, com I'll Never Smile Again, o seu primeiro número um. As décadas seguintes levaram-no por um versátil, e consistente, caminho enquanto cantor Dominou o swing. Mas brilhou mais ainda frente a grandes orquestras, sob atenta dedicação de maestros (e arranjadores) como Gordon Jenkins, Nelson Riddle ou Billy May. Viveu momentos melhores, outros piores. E por mais de uma vez soube sair de cena, para regressar em melhor ocasião. A sua discografia corre tempos, géneros, autores e compositores que, como Sinatra, escreveram a história da música popular no século XX. Sem a sua voz, teria sido um século diferente.
(versão editada de um texto originalmente publicado no suplemento DNGente, do DN, a 10 de Maio).



Aqui se escuta (e vê) It Was A Very Good Year, canção do sublime September Of My Years, talvez o melhor dos álbuns de Sinatra. Gravado em 1965, a assinalar os 50 anos, mostra uma voz em pico de forma, canções de escrita maior e magníficos arranjos de Gordon Jenkins.