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quinta-feira, junho 25, 2015

Novas edições: FFS

"FFA"
Domino / Popstock
4 / 5

De supergrupos está a história cheia de exemplos, uns mais interessantes outros nem por isso. Já a ideia de juntar duas bandas – com todos os elementos de cada uma – num esforço comum, é coisa digna de, logo pela ideia, chamar outra atenção. E na hora de responder à chamada forem os Franz Ferdinand e os Sparks a dizer “presente”, a coisa promete… Os primeiros foram a mais entusiasmante das bandas britânicas nascidas nos noughties, com dois álbuns (os dois primeiros) e uma mão-cheia de canções a morar entre as melhores colheitas da década. Os segundos são veteranos e um dos maiores casos sérios de criatividade e expressão de personalidade na história pop/rock de berço americana, com obra que já passou por caminhos do glam rock a um barroco sinfónico, com disco sound e pop electrónica pelo meio… Juntos respondem pelas iniciais. Ou seja, FFS… A ideia de uma colaboração foi sendo falada ao longo dos anos até que finalmente ganhou fôlego, surgindo o disco num tempo em que nem uma nem outra das bandas vivia um momento particularmente intenso. Na verdade, e apesar de alguns bons momentos no seu mais recente álbum, os Franz Ferdinand perderam o “momento” por volta do terceiro álbum. Por seu lado os Sparks, que viram o belíssimo musical baseado em Ingmar Bergman passar a leste das atenções, não editam um álbum de calibre maior desde o fenomenal Lil’ Beethoven de 2002.

FFS mostra quão fértil pode ser o diálogo quando falta a voz ao monólogo. E conjunto de 12 canções serve um bálsamo aos admiradores de ambas as bandas num alinhamento de canções que cruzam formas e épocas, doseiam personalidades e ideias, sendo mais presente (ou pelo menos mais impositivo) o fulgor com que os Sparks sempre encararam as suas canções, a angulosidade dos Franz Ferdinand não estando contudo toldada, a soma revelando afinal a alma compósita que justifica em pleno a ideia de colaboração que, ao contrário do que parodia a canção que incluem quase no final do disco – Colaborations Don’t Work -, funciona. E muito bem.

O alinhamento abre ao som de Johnny Delusional, canção pop perfeita que reacende a luminosidade clássica dos Sparks, é o perfeito cartão de visita para nos dar a conhecer este encontro, definindo um patamar de diálogo que será talvez mais equidistante de ambos os protagonistas um pouco mais adiante, em Save Me From Myself. Mesmo mostrando Call Girl ou So Desu Ne uma proximidade maior aos registos mais habituais de Kapranos e companhia ou mostrando The Power Couple ou Colaborations Don’t Work um claro posicionamento entre os terrenos dos manos Mael, o álbum procura de facto a diluição de contribuições, o que é facilitado pela alma pop, o bom humor e a inteligência que sempre habitou a essência da alma dos dois grupos. As peculiaridades vocais de Russel Mael e o gosto barroco dos arranjos mais habituais nos Sparks acabam por vezes a destacar-se, não se notando contudo aqui ecos de guerras de egos. Pela música passa um entendimento como por vezes nem dentro de uma mesma banda se faz notar. O resultado é um disco pop de fôlego clássico, um álbum bem disposto e até mesmo divertido. Para almas bem dispostas eis que está encontrada uma das melhores propostas para a banda sonora deste verão.

sexta-feira, junho 19, 2015

Novas edições: Hot Chip

"What Makes Sense"
Domino Records
3 / 5

Lançando um primeiro olhar sobre a discografia dos Hot Chip notamos, além de uma capacidade em resistir ao tempo – já vão num sexto álbum -, uma expressiva sucessão de canções que moram entre os melhores momentos que a pop feita com electrónicas e vontade de dançar nos deu a ouvir nos últimos anos. Porém, será que conseguimos apontar a algum álbum do grupo essa mesma capacidade em se inscrever entre os mais marcantes do seu tempo. Nem por isso, é verdade, o mais próximo de ter atingido semelhante estatuto sendo talvez The Warning, o segundo que editaram, lançado em 2006. Já One Night Stand (de 2010) que guarda algumas das melhores canções dos Hot Chip, foi uma relativa desilusão como álbum, revelando grandes disparidades entre os grandes singles e temas menores que depois ali coabitavam. Why Makes Sense surge quatro anos após o menor (em ideias e feitos) In Our Heads e sucede a experiências relativamente mais interessantes em projetos em paralelo, dos 2 Bears à carreira a solo de Alexis Taylor. Huarache Lights, lançado como single de avanço há algumas semanas, não podia ter sido melhor cartão de visita, revelando uma canção com luminosidade pop e viço dançável ao nível dos clássicos maiores dos Hot Chip. O álbum, não sendo uma desilusão, não está nunca ao nível desse primeiro avanço. É mesmo assim um dos mais seguros conjuntos de canções da obra dos Hot Chip, revelando sinais de algum classicismo pop na escrita da canções (em Dark Night) e ecos de referências em alguma pop dos oitentas, como se escuta em Easy to Get ou Started Right (esta com um refrão que lembra uns Level 42, o que não sei se será grande ideia…). Há convidados de peso, como Posdnuos dos De La Soul (em Love is the Future, onde o grupo cede à ordem deep house revivalista do momento) ou de Bernard Flower em Need You Know, versão de um original com assinatura Sinnamon, que sugere ecos terrenos de visões house abertos entre finais dos oitentas e inícios dos noventas. No tema título, que encerra o alinhamento, reencontram a excelência pop do single de avanço. Mas mesmo entre alguns belos momentos, What Makes Sense está longe de ser o disco memorável que os Hot Chip tardam em fazer. Esperamos que, mesmo assim, o álbum não seja reduzido à brilhante ideia de design gráfico que usa como capa.

Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever

sexta-feira, junho 05, 2015

Novas edições:
Leonard Cohen

"Can’t Forget: A Souvenir of The Grand Tour"
Sony Music

Numa época na qual muitos consumos na cultura popular valorizam sobretudo os valores da novidade imediata, a próxima chegando logo a seguir em regime rei morto rei posto, a perenidade e vitalidade obra de veteranos como Bob Dylan, David Bowie, Tom Waits ou Leonard Cohen são verdadeiros bálsamos, muitas vezes traduzindo mais verdade e frescura que tantas novidades fabricadas ao jeito dos sabores do momento (e que logo serão esquecidas mal mude o azimute dos paladares). Em 2014, aos 80 anos, apresentou o álbum de estúdio Popular Problems no qual ficou claro que ainda tem histórias para contar e até mesmo desejos em, alguns instantes, explorar musicalmente novos desafios. Ainda em 2014 lançou depois o disco ao vivo Live in Dublin. Agora, um ano depois, em Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour, revela-se uma outra face do seu trabalho num disco que traz registos captados durante a sua mais recente (e longa) digressão.

Se por um lado este é já o quarto título nascido de registos gravados durante a digressão, por outro Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour é um álbum diferente uma vez que junta a instantes de concertos, alguns outros momentos captados durante soundchecks, havendo assim ali um espaço para experimentar ideias antes de as mostrar frente a uma plateia. Se por um lado há aqui um ou outro velho clássico – como Field Commander Cohen, com um cheirinho de Rhum and Coca Cola, o velho clássico de 1945 das Andrews Sisters – os acepipes mais desejados entre o alinhamento do novo disco são dois temas nunca antes mostrados em disco e versões de La Manic de Georges Dor e Choices, de George Jones. Never Gave Nobody Trouble, um blues em tons próximos de alguns instantes de Popular Problems, o também novo Got A Little Secret (em tempero R&B clássico) e uma nova leitura de Joan of Arc, gravados em ensaios, são tesouros maiores de um alinhamento que justifica a soma de mais um título na discografia de Cohen.

As suas palavras ocasionais, de contador de histórias bem humorado, juntam a dada altura instantes igualmente memoráveis a este conjunto de gravações. Nos últimos anos habituámo-nos a esperar mais a surpresa e menos o silêncio de um vulto que teima (felizmente) em não baixar braços e a sair de cena. Can’t Forget: A Souvenir of the Grand Tour tem tudo menos o tom de despedida que em tempos julgávamos estar registado no álbum Old Ideas ou na primeira coleção de gravações nascida da digressão que depois o devolveu à estrada (com várias e bem sucedidas visitas a estes lados). Ou seja, ficamos à espera das cenas dos próximos capítulos…

Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever

quinta-feira, maio 14, 2015

Novas edições: Calexico

“Edge of The Sun” 
City Slang / Popstock
4 / 5

Tucson é uma relativamente discreta cidade no sul do Arizona, com o deserto em volta e a fronteira de Nogales não muito distante. É um lugar onde das paisagens nasce uma sensação de familiaridade com a desolação das histórias de pioneiros do velho oeste. Mas é também um lugar como tantos outros que, perto de fronteiras, são espaço onde as linhas que demarcam política e geograficamente os territórios são de uma nitidez que contrasta com a forma como as realidades culturais de ambos os lados acabam inevitavelmente por dialogar. É dali que nos chegam os Calexico, cuja obra – que está a caminho de soprar as vinte velas – traduz de facto as marcas de uma cultura raiana, brotando de uma alma americana, mas frequentemente exibindo ecos de uma assimilação de marcas da cultura mexicana com o sentido de verdade de quem sabe bem do que está a falar. Porque, afinal, mais que os russos que Sarah Palin achava que via da porta do seu quintal (no Alasca), a cultura mexicana habita toda aquela região.

Três anos depois de Algiers, álbum de estúdio nascido na região de New Orleans, eis que surge Edge of The Sun, álbum que em tudo se enquadra numa lógica de continuidade face à obra anterior do grupo e que, mais até que em muitos outros episódios seus, é um disco que convive profundamente com o México. Antes de essencialmente gravado, entre Los Angeles e Athens (da Georgia), o disco conheceu um período de busca de ideias e inspiração numa viagem de dez dias a Coyoacán, um bairro na cidade do México. Dali Joey Burns e John Covertino trouxeram ideias e imagens das quais emergiram depois as canções (e as histórias) que agora escutamos.

Edge of The Sun é um bom exemplo da maioridade de uma música que assenta raízes sobre o universo americana – e de toda uma melancolia que muitas vezes, como o vento, corre sobre estas referências – mas busca na expressão da cultura raiana não um sentido de exotismo geográfico, mas uma marca de uma genética real que serve as narrativas e garante uma luminosidade que varre o alinhamento. Há instantes onde a música que chega do México toma o protagonismo, mas há mais aqui que um diálogo de culturas e um jogo de cenários. Há uma assimilação de dados que correm em ambos os sentidos, que jogam em favor de canções que tanto assimilam essa ideia de diálogo de culturas como cruza paisagens instrumentais de tempos e origens diferentes. Um bom exemplo da identidade mestiça que aqui emerge escuta-se em Cumbia de Donde, onde a tradição não esconde a presença de discretas, mas importantes, electrónicas. Ou Miles From The Sea ou Tapping on The Line (aqui com a presença vocal de Neko Case) que sublinham quão central a este universo é toda a tradição americana. Um dos mais belos álbuns dos Calexico, Edge of The Sun não parece preocupado em marcar uma agenda de novos caminhos ou aventuras. Aceita antes nas marcas de identidade, numa consciência do aqui e do agora, nos jogos de cruzamentos que noz fazem ser quem somos, os pontos de partida para mais uma exemplar coleção de canções que contam depois com o valor acrescentado das contribuições, não apenas de Neko Case, mas também de elementos dos Band of Horses e Iron & Wine. O disco tem o sabor de um filme, de tão visuais e pungentes que são as sugestões que fazem esta música. Continuam num bom caminho, portanto. Quantas bandas o conseguem fazer ao cabo de duas décadas de trabalho?

Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever

quinta-feira, março 26, 2015

Novas edições:
Courtney Barnett

“Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit”
CD, Marathon Artists / Popstock
4 / 5

Estará na hora de juntar uma nova voz a um grupo seleto de vozes femininas que usam o saber da palavra e a angulosidade da guitarra para desenhar canções que são expressão do que somos e do tempo em que vivemos? Talvez seja cedo para conclusões de longo prazo, mas a verdade é que depois de promissores EPs lançados ao longo dos dois últimos anos, a estreia em álbum da australiana Courtney Barnett não só confirma em pleno as melhores expectativas como nos coloca perante um dos melhores discos que a cultura rock nos mostrou nos últimos tempos (e convenhamos que tem sido departamento em relativa dieta de boas ideias nos anos mais recentes).

O cativante, bem humorado e longo título Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit sugere que há talvez aqui alguém que pense mais que apenas se sente sem pensar. E é na força dos jogos de palavras, que escutamos por uma voz entre o falado e cantado, que com bom humor e também a crua franqueza com que nos diz que se a pusermos num pedestal nos vai desiludir, que pode residir uma primeira abordagem a um conjunto de canções das quais, audição após audição, surge precisamente a ideia do contrário do alerta lançado. Ou seja: não desapontam (mas vale a pena não a colocar já num pedestal, que há ainda muita estrada e conquistas pela frente). Nota-se sobretudo um saber de contador de histórias, tendo já havido que a apontasse como continuadora de uma escola (também vinda daqueles lados do mundo) que teve os Go Betweens – ou seja a dupla Grant e McLennan – como referência maior (e que responsabilidade nesta comparação!).

Musicalmente o disco não foge ao que os EPs já conhecidos sugeriam (e aí afasta-se do terreno dos criadores de Cattle and Cane). Ou seja, há por aqui ecos de uma formação feita entre heranças do grunge e de uma certa luminosidade brit pop (não deixo de pensar nas Elastica ao escutar Pedestrian at Best ou nuns Sleeper ao ouvir Aqua Profunda!) e em Debbie Downer há mesmo umas teclas subtis com alma vintage que lembram a ingenuidade pop da new wave de primeira geração). Há também aquele tom desencantado na relação do canto com a guitarra que Patti Smith ou PJ Harvey assimilaram e transformaram cada qual na sua voz. E há sobretudo sinais de não alinhamento nas muitas micro-tendências dos caminhosindie recentes. Courtney Barnett tem a sua voz, as suas memórias, conta as suas histórias e estas são as suas canções.

As canções revelam uma alma inteligente, atenta e capaz de escrever pequenos retratos do mundano desinteressante do nosso tempo e comentários sobre pequenos nadas na forma de canções simples e diretas. O alinhamento de Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit foge (sem a intenção de mostrar que está a fugir) aos sabores do momento. Cruza uma intemporalidade rock’n’roll com um gosto vintage por referências da cultura elétrica de finais do século XX. Ao contrário do que o título sugere, o rock aqui levanta-se da cadeira, vibra e pensa.

Courtney Barnett é nome a acompanhar com atenção e este álbum é um dos melhores cartões de visita em clima rock que o ano escutou neste primeiro trimestre.

Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever

quinta-feira, março 12, 2015

Novas edições:
Dutch Uncles

“O Shudder”
CD Memphis Industries / Popstock
4 / 5

Num mundo tão cheio de tantos discos há sempre aqueles que injustamente vão ficando para trás, adiando o momento da sua (re)descoberta ou de um outro melhor momento para um contacto mais bem sucedido com os seus autores… Vejamos os Japan… Editaram dois álbuns nos anos 70 sem que ninguém neles reparasse. Mais dois em 1980 sob discreta atenção. E quando, em 1981, editam a sua obra-prima Tin Drum, a coisa chegou com um “boa noite e muito obrigado”, partindo David Sylvian para uma das mais brilhantes carreiras a solo do nosso tempo e os demais músicos para aventuras mais ou menos cativantes, os Japan deixando uma obra que o tempo aprendeu a tomar como referencia maior do seu tempo (OK, os dois álbuns de 1978 são mais curiosidade de uma banda ainda sem bússola afinada, mas contam a primeira parte de uma história ímpar da pop de então).

Não é por acaso que falo dos Japan na hora de falar sobre os Dutch Uncles. Não pelo berço made in UK (os Dutch Uncles são de uma pequena cidade na zona da grande Manchester, ao passo que os Japan eram do sul de Londres). Nem apenas pelo facto de terem já editado três álbuns antes daquele que hoje nos faz deles falar. Mas porque há na sua música um gosto pelo labor de ideias, criando canções de algumas complexidade formal que, todavia, e tal como na etapa final da obra dos Japan, não evitam nunca a forma “clássica” de arrumar os elementos da canção. Este é um argumento que se manifesta a um nível estrutural na forma de pensar a canção já que, entre discos de uma Kate Bush – etapa de inícios dos oitentas – ou Talking Heads encontramos sugestões mais próximas da sonoridade com que os Dutch Uncles agora se apresentam.

Há assim um antes a ter em conta antes deste surpreendente Oh Shudder. Num clima pop/rock anguloso, com guitarras herdadas de memórias pos-punk encetaram em 2009 uma discografia com Dutch Uncles, evoluindo em continuidade no seguinte Candenza (2011) mas sugerindo desejos de busca de novos rumos no bem mais interessante Out Of Touch In The Wild (de 2013). É nesse álbum de 2013 que ganha protagonismo outra ordem instrumental, abrindo o caminho a uma mais evidente manifestação de cores e linhas desenhadas com electrónicas, com ocasionais presenças de madeiras e sem esquecer a mais clássica presença de guitarras, pianos e percussões. As canções exploram agora novas potencialidades que um labor mais exigente na instrumentação pode levar à canção, juntando à (relativa) invulgaridade da voz aguda de Duncan Wallis uma paleta de tons e luzes que instalam no ouvinte uma perplexidade inicial que rapidamente cede lugar a um relacionamento de atenção para com o detalhe e progressivo entendimento com canções que, desafiantes num primeiro contacto, em pouco se transformam numa presença saborosa e familiar.

O gosto pelo talhar de formas menos imediatas mas em claro contexto pop – como em tempos escutámos também nuns Tears For Fears ou nos últimos álbuns de uns XTC – serve assim um álbum onde se expressam contos e cantos sobre cenas da vida aos vinte e poucos anos. Ou seja, transporta angústias, algumas delas comuns a quem ainda ali não chegou, mas expressa-as num ponto da situação no patamar dos 25 e arredores. Saúde, sexualidade, o relacionamento com os outros… E integra os textos num contexto cenicamente elaborado, onde por vezes talvez a orquestração roube atenções. Mas que, em conjunto, não só faz deste conjunto de canções o melhor disco dos Dutch Uncles até à data como assegura a 2015 um belo exemplo do que pode ser a pop quando não está com vontade de correr atrás dos sabores mais fáceis da multidão que domina o momento.
Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever

segunda-feira, março 09, 2015

Novas edições:
Madonna



Podemos agora arrumar as noticias e comentários sobre a fuga para a Internet das novas canções ou a queda que ofuscou o que quase ninguém falou (que os Brits Awards são hoje uma premiação em tudo inconsequente). Mais até que a digressão que vem a caminho (e que, para já, não mostra uma data agendada por estes lados), a edição de Rebel Heart é talvez a mais importante notícia que Madonna nos dá de há muito a esta parte. Não por ser o seu 13º álbum ou pelo naipe de colaboradores que convoca. Mas porque, ao dar-nos o seu melhor disco em dez anos, mostra acima de tudo que é capaz de ser autora e intérprete de algumas das melhores canções pop do nosso tempo. E lembra que todas as notícias que davam outras vozes como candidatas a tomar-lhe o lugar mais dia menos dia não só eram exageradas como, ao incorrer no erro de comparar uma obra veterana com um caso pontual de sucesso, eram mais uma expressão da era dos 15 minutos de fama (que contrasta com a solidez com a qual Madonna alicerçou a carreira). Pena que por vezes ela mesma tenha sentido vontade para responder a quem ia entrando em cena, assinando nos últimos anos os dois maiores tropeções da sua discografia. Esses sim mais complicados que o tombo nos Brits.

Podem ler aqui o texto completo

quinta-feira, março 05, 2015

Novas edições:
Father John Misty

“I Love You, Honeybear”
Sub Pop
4 / 5

Devemos contudo começar pelo nome do protagonista. Chama-se na verdade Joshua Tillman, tem uma obra em disco que remonta ao início do século – começou a fazer canções quando trabalhava numa padaria, aproveitando o que restava das horas escuras (antes de picar o ponto) e editou primeiros discos há uma dúzia de anos. Em finais dos noughties juntou-se aos Fleet Foxes – que tinham já discos editados – com eles tocando como baterista (e ocasionalmente cantando), tendo participado no álbum Helplessness Blues (2011), despedindo-se dos colegas em 2012 para retomar um caminho solitário. Poucos meses depois estreia-se sob o alter ego Father John Misty, editando logo nesse ano Fear Fun, um primeiro álbum repleto de figuras que lembram as mitologias do Laurel Canyon. Agora, e depois de um episódio intermédio quase invisível – a banda sonora (com edição limitada) para uma curta-metragem assinada pela sua mulher – eis que Joshua Tillman encontra o caminho certo para a personagem pela qual continua a vestir as suas canções. I Love You, Honeybear é contudo um disco tão pessoal, que tematicamente ilude as noções de fronteiras entre o alter-ego e a voz criativa que para ele pensa estas canções. Celebração de um casamento, com sinais evidentes de dedicação jurada, mas também ocasionais tiradas de cortante humor, o álbum projeta o tom profundamente confessional das palavras e narrativas num quadro instrumental com gosto pela construção de cenografias, que tanto nos podem levar a inesperados devaneios quase pop (com electrónicas) em True Affection a caminhadas melancólicas de genética americana, onde não falta mesmo uma carga elétrica, de bluesassombrados, nos instantes finais. Com gosto pelo trabalho de orquestração, este é um disco que, apesar da ténue relação que Tillman teve com os Fleet Foxes, resolve o aparente impasse que entre o grupo se parece ter instalado desde a edição do último álbum. E junta Father John Misty a uma galeria de cantautores que, como o algo esquecido Faris Nourallah, cruzam a alma da pradaria com a sensibilidade indie urbana do nosso tempo, criando uma pop folk refletida e de boa arte final.

Este texto foi publicado originalmente na Máquina de Escrever

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Novas edições:
Damon & Naomi

“Fortune”
CD, 20/20/20
4 / 5

Quando, com uma digressão japonesa ainda pela frente, Dean Wareham anunciou a saída (e o fim) dos Galaxie 500 em 1991, Damon Krukowski e Naomi Young deram por si com um lote de sessões inacabadas em estúdio nas mãos. Os tempos que se seguiram viram-nos de mangas arregaçadas, a trabalhar na editora livreira que eles mesmos haviam criado dois anos antes e pela qual estavam a relançar textos de autores dos séculos XIX e XX como Guillaume Apollinaire, Antonin Artaud ou Fernando Pessoa. Desafiados a regressar a estúdio, acabaram por completar um álbum, que editaram em 1992 com o título More Sad Hits, encetando um percurso musical pós-Galaxie 500 que assim não fechou nas experiências posteriores de Wareham (via Luna ou em parceria com Britta Phillips) a expressão de descendências de uma das mais marcantes bandas indie norte-americanas de finais dos oitentas e inícios dos noventas. A música nunca esgotou os horizontes criativos de Damon e Naomi. Ele foi trabalhando sobretudo a escrita (entre a poesia e a prosa, chegando mesmo a escrever sobre música, publicando na Pitchfork). Ela, por seu lado, foi focando atenções na fotografia e trabalho em vídeo, tendo mesmo assinado telediscos, apresentando agora um primeiro filme da sua autoria. Tem por título Fortune, é uma curta-metragem com cerca de 30 minutos, sem palavras mas com banda sonora feita de canções suas e de Damon. Ou seja, o novo álbum de Damon & Naomi não é senão a banda sonora para este filme que reflete sobre a perda de um pai (um artista), situação na verdade não estranha ao passado recente na vida pessoal de Naomi.

Fortune, que representa o primeiro conjunto de novas gravações de Damon & Naomi desde o álbum False Beats and True Hearts. Mais que uma explicação para a narrativa as canções surgem como um complemento que com as imagens anda de mãos dadas, revelando um corpo de canções, ajustadas ao ritmo das cenas, sempre toldadas pela melancolia, e nas quais vão alternando as vozes de Damon e Naomi. Os arranjos são subtis mas longe de minimalistas, seguindo pistas de uma linguagem que tem as memórias dos Galaxie 500 na sua genética mas todo um percurso a dois vivido em discos publicados depois de 1992.

Sem esconder o tom elegíaco que o filme ajuda a materializar, as canções fazem de Fortune um belo álbum sobre a perda e a memória. Mesmo longe de descritivas, são parte inevitável do corpo do filme, sendo que em disco conseguem ter também uma vida própria. Uma boa banda sonora, portanto.

Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever

sexta-feira, janeiro 30, 2015

Novas edições:
Mark Ronson


Será Uptown Funk o Get Lucky de 2015?… É cedo para dizer. E, na verdade, o single deu sinais de vida ainda em 2014 e poderá estar “gasto” quando chegar o tempo quente e a estação que habitualmente escolhe os “êxitos” globais do ano… O impacte tremendo de uma canção de alma pop e sangue funk, contando com o protagonismo vocal de Bruno Mars (para quem o verdadeiro frontman deste disco já trabalhou como produtor), foi contudo o melhor cartão de visita para Uptown Special, álbum novo de Mark Ronson talhado a rigor com a construção de um possível blockbuster na mira…

Podem ler aqui o texto completo na Máquina de Escrever

terça-feira, janeiro 20, 2015

Novas edições:
Ghost Culture

A história começou com os tons de secretismo que tantas vezes têm acompanhado a chegada de novos nomes, sobretudo entre os caminhos das novas electrónicas. Mas depois dos mistérios dos primeiros tempos, um nome e uma imagem entraram em cena. E, sem distrações, o discurso voltou-se para a música (e ainda bem). Os eventuais fantasmas que possam assim habitar hoje a música deste projeto do londrino James Greenwood são os que a sua música pode evocar. E há muitos, mas longe de assombrados, entre um álbum de estreia que dele faz a primeira (boa) surpresa de 2015.

Podem ver o texto completo na Máquina de Escrever

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Novas edições:
Panda Bear

"Panda Bear Meets The Grim Reapper"
Domino Records
( 5 / 5 )

Ao contrário do que o título possa sugerir (já que o grim reaper não é senão a figura da morte), o novo álbum a solo de Panda Bear é tudo menos coisa assombrada. O título traduz a noção de algo com o qual não queremos lidar, mas que, com a ajuda de uma máscara, se torna mais fácil de digerir.
Com os Animal Collective (a que pertence) em pausa, Panda Bear aprofunda aqui a relação com uma busca incansável por novas formas de pensar a canção e os sons que a servem. Usando as máquinas como principal ferramenta de trabalho, e abordando linguagens que podemos por vezes arrumar mais perto de uma pulsão de dança, é do contraste entre a familiaridade dos ritmos e formas com a busca de sonoridades e o âmago ímpar das narrativas e personagens das canções que vive a alma de um álbum que, depois de discos fulcrais como Person Pitch (2007) e Tomboy (2011) reafirmam o espaço a solo da obra de Panda Bear como um dos mais interessantes e visionários do atual panorama indie. Vale ainda a pena notar que a canção Tropic of Cancer, com travo de balada à la 60’s deixa claro como o assimilar de memórias pode também alimentar a criatividade de alguém que olha em frente quando compõe.
O disco junta ainda o Príncipe Real à toponímia da música. Tal como os Strawberry Fields de Liverpool, o largo lisboeta tem agora o seu nome inscrito no mapa da música do nosso tempo.

Este texto foi publicado na edição de 7 de janeiro da revista Time Out.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Novas edições:
The Dø

“Shake Shook Shaken”
Get Down
( 4 / 5 )

Entre a Finlândia e a França, depois de um encontro há alguns anos por ocasião de um trabalho de gravação de música para cinema, assim se tem feito a carreira da dupla The dø. Desde então Olivia Merilahti e Dan Levy têm mantido um espaço de trabalho conjunto, tendo pelo caminho assinado uma discografia que acolhe agora um terceiro álbum de estúdio. Trabalhado, como é o método habitual entre os dois, com pontos de partida encontrados em ideias talhadas e registadas em separado, mais tarde cada um confrontando o outro com as respetivas sugestões e, daí em frente, caminhando em par até ao disco final, Shake Shook Shaken traz de novo, sobretudo, não apenas uma maior arrumação das ideias, como uma focagem de rumos no sentido de procurar um caminho próprio no muito fértil terreno da pop electrónica. Houve já quem tecesse comparações a soluções que evocam os primeiros álbuns dos (suecos) The Knife, assim como a La Roux (e eu aqui acrescentaria um afinar do ângulo ao que ouvimos no seu disco de estreia). Convenhamos que são azimutes que em tudo fazem sentido perante a cativante coleção de 12 canções que fazem do terceiro álbum dos The Dø um disco com potencial para os colocar num patamar de maior visibilidade, sem que para tal tenham tido de comprometer a personalidade da identidade que os trouxera até aqui. Há um evidente investimento na composição de melodias simples, assim como um cuidado claro numa clara disposição dos elementos cénicos em jogo. Explorando em alguns momentos uma relação com linguagens herdadas e assimiladas de ensinamentos colhidos na música de dança, o disco vinca contudo uma vontade em afirmar a procura de um lugar no mapa pop atual, evidenciando canções A Mess Like This ou Lick My Wounds um desencanto que é tempero que molda sob alguma melancolia o clima dominante, mesmo em instantes eventualmente mais efusivos. E é nesse caminho, entre almas doridas e as cores de electrónicas aparentemente luminosas, que Shake Shook Shaken se revela como uma das boas surpresas que a pop electrónica deu a 2014.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Novas edições:
Stars

“No One is Lost”
Soft Revolution
4 / 5

Há uns dez anos os Stars foram um entre os nomes da cena indie canadiana que ganharam maior visibilidade depois do impacte global causado pelo álbum de estreia dos Arcade Fire (que, como em tantas outras ocasiões, teve consequências no mapa geográfico dos sons de então). Depois de dois álbuns mais notados, continuaram o seu percurso – que em parte conta igualmente com uma vida em paralelo de alguns dos seus elementos nos Broken Social Scene. Dois anos depois de The North apresentam um novo álbum que, sem escapar à identidade indie pop que tem cruzado a sua obra, procura em várias ocasiões trazer para bordo das canções uma mais intensa presença não só de electrónicas mas também de sugestões de dança e libertação. Há que ter aqui em conta o contexto em que as canções nasceram, uma vez que o grupo alugou para as suas sessões de trabalho um espaço num edifício com um clube gay no andar de baixo, as frequentes visitas à pista de dança acabando por contaminar (discreta mas eficazmente) a alma de canções que acabam a celebrar um sentido de prazer festivo que, mesmo sem a dose de otimismo a rodos que inundava o alinhamento do mais recente disco dos seus compatriotas The New Pornographers, faz de No One Is Lost um saboroso novo contributo para uma “escola” que, enraizada em genéticas clássicas – dos Smiths aos New Order e alguns mais caminhos de então – e plena de sinais de relacionamento com fenómenos nas suas mesmas latitudes estéticas e geográficas (dos Metric aos já referidos These New Puritans), acrescenta ao cardápio indie canadiano ocasionais flirts saborosos com o disco ou nele encontram uma bola de espelhos que ilumina o resto das canções. Não há aqui revolução nem uma nova vaga em estado latente. Apenas referencias clássicas e históricas a saborear o gosto pela partilha de referências, num estado de alma que procura formas de sonhar com melhores dias. Um belo disco indie pop, já agora.

quinta-feira, dezembro 04, 2014

Novas edições:
Antony and The Johnsons

“Turning”
Secretly Canadian
4 / 5

Pode ser uma banda sonora mas, ao mesmo tempo, é também um disco gravado ao vivo, documentando memórias de 2006 num tempo em que Antony Hegarty contou com a colaboração do realizador Charles Atlas para criar uma experiência em palco que explorasse questões ligadas com a identidade de género. Questões e experiências que ganharam depois expressão no filme Turning – onde ambos são necessariamente protagonistas – e do qual surge finalmente este retrato. Estão aqui o filme – em DVD – mas também o registo áudio de uma presença em palco cénica e instrumentalmente elaborada. Com a presença de instrumentação bem mais variada que em muitas das digressões habituais de Antony and The Johnsons, o registo de palco documenta assim uma sucessão de leituras com arranjos bem elaborados de canções na sua maioria retiradas do alinhamento dos seus primeiros álbuns, em alguns casos abrindo horizontes a outras que nasceriam discograficamente mais tarde. A atitude “de câmara” que preside à direção musical do espetáculo garante um sentido de unidade a peças de épocas distintas, integrando sobretudo ecos do álbum de estreia – como o belíssimo Cripple and The Starfish – num corpo comum onde a voz não é assim p único elo de ligação possível. São momentos de palco como este, onde se junta mais que uma soma simples dos acontecimentos já antes registados em disco, que justificam os grandes álbuns ao vivo. E este é claramente o mais cativante dos vários discos “ao vivo” de Antony & The Johsnons (mesmo que em algumas discografias seja essencialmente encarado como apenas uma banda sonora).

terça-feira, dezembro 02, 2014

Novas edições:
Björk

“Biophilia Live”
One Little Indian
5 / 5

Com uma agenda de edições onde não costuma haver muitas surpresas, os finais de ano costumam abrir alas a retrospetivas, reedições e discos ao vivo. Entre os registos de palco têm surgido este ano uma série de registos de arquivo, a “quadra” que se aproxima tendo agora juntando algumas gravações mais recentes aos escaparates. Só esta semana surgem, entre outros, novos discos ao vivo de John Grant (dele aqui falámos ontem), Leonard Cohen e Björk. Fiquemos pela cantora islandesa por agora, para assinalar a chegada de um “pack” (2CD + DVD) onde se apresenta um retrato da sua mais recente digressão e do qual tivemos, por estes lados, contacto por ocasião da passagem do filme-concerto Biophillia Live. O filme, realizado por Nick Fenton e Peter Strickland, representa a pièce de résistence do DVD, colocando-nos (uma vez mais) frente a imagens da atuação no Alexandra Palace, em Londres, que assinalou o final da digressão. Ao lado, os dois CD asseguram a parcela áudio da edição. Em conjunto encerra-se um capítulo no qual, como em episódios anteriores, Björk juntou um conceito e uma demanda à vontade de fazer novas canções. Desta vez houve uma ideia a presidir ao conceito: a natureza. Ou, melhor ainda, o encontrar de formas para, instrumental e tematicamente, expressar diretamente a natureza em canções. Se entre os temas do álbum Biophilia (de 2011), que nos trouxe o seu mais interessante conjunto de canções desde os dias de Vespertine (2001), se exploravam já essas relações no mapa dos temas, no filme-concerto reparamos que não só havia já na construção instrumental uma busca de ligação igualmente focada para com a natureza e as possibilidades de geração de sons que o mundo natural pode oferecer à música. Explorando ora a força da gravidade, entre outras mais forças do mundo físico, as canções de Biophilia ganham com a sua apresentação em palco a capacidade de materializar as ideias que estão na sua origem, aproveitando (naturalmente) as potencialidades instrumentais chamadas a palco para reinventar alguns temas antigos (curiosamente com alguma atenção maior para com o alinhamento do álbum Post). Juntamente com um coro feminino e dois músicos, Björk tem neste disco (com DVD) o seu melhor retrato de palco até aqui registado.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Novas edições:
John Grant

and the BBC Philharmonic Orchestra
"Live in Concert"
Bella Union / Edel
4 / 5

Há precisamente um ano dava um brilhante concerto no Cinema São Jorge, confirmando a vitalidade que a chegada de uma relação mais intensa com as electrónicas (e com a Islândia) tinha trazido à sua música. Em 2014 vimos John Grant a coassinar a canção que representou a Islândia na Eurovisão, escutámo-lo numa das versões que celebraram a memória de Goodbye Yellow Brick Road, de Elton John e, agora, podemos partilhar de uma experiência que levou por palcos do Reino Unido numa parceria com a BBC Philharmonic Orchestra. Tal como em tempos o fizeram os Divine Comedy numa experiência semelhante – mas então apenas com visibilidade discográfica em lados B de singles – John Grant apresentou em palco as canções sob arranjos que valorizam a colaboração, sem contudo cair num deslumbramento que eventualmente apagassem a força da escrita e da sua voz. Pelo contrário, o diálogo que se estabelece entre a orquestra e a instrumentação mais frequente em concerto alarga horizontes sem nunca abafar uma escrita que, assim se reconhece uma vez mais, é de impressionante solidez revelando mesmo como nascera já com afinidades naturais para com as cores e sonoridades que a orquestra lhe acrescenta. O alinhamento do concerto caminha entre os dois álbuns a solo do músico – Queen of Denmark (2010) e Pale Green Ghosts (2013), juntando ainda Fireflies (na verdade um extra presente na edição especial do álbum de 2010) e uma memória dos The Czars (a antiga banda de John Grant – que esta semana apresenta um ‘best of’ em disco) em Drug. Retrato de noites diferentes, Live In Concert é um daqueles raros discos ao vivo que traduzem mais que um reencontrar em palco do que já conhecemos. É um olhar sobre uma experiência única que, assim, podemos agora partilhar.

sexta-feira, novembro 28, 2014

Novas edições:
Neil Young

“Storytone”
Warner
3 / 5

Poucos meses depois de ter lançado um disco feito de versões de canções de autores como Bob Dylan, Bruce Springsteen ou Willie Nelson, Neil Young apresenta no seu segundo disco de 2014 um novo conjunto de canções onde explora, sobretudo, a relação da sua escrita com as várias possibilidades de arranjos que encontra na linha do horizonte, do trabalho com orquestra (que representa a esmagadora maioria do alinhamento) ao relacionamento com uma big band, não deixando de visitar, em dois instantes, o som mais “crú” e elétrico de uma banda de rock. Storytone é essencialmente um álbum tranquilo no qual, através de um conjunto de composições de recorte clássico, Neil Yong reflete sobre o mundo em que vivemos e os desequilíbrios gerados pelo homem, reafirmando uma consciência ambientalista que antes já expressara em diversas ocasiões. Não o faz contudo segundo um programa ideológico ou uma agenda ativista, não deixando, por exemplo, de celebrar (uma vez mais) a sua paixão pelos carros – a quem dedicou mesmo um livro recentemente – quando canta I Want To Drive My Car. Aos 69 anos, com uma voz de tonalidades frágeis – que contrasta com a segurança da escrita e a continuada vontade em não fechar a sua música numa redoma de formas repetidas – Neil Young aceita juntar em Storytone a “arte final” de um álbum a um olhar pela nudez das mesmas canções tal e qual saíram originalmente dos seus dedos, juntando numa edições do disco, e como extra, as versões em maquete acústica dos mesmos temas. Entre as duas leituras, além das narrativas e reflexões que as canções veiculam, passa assim uma possibilidade de contacto com o que de diferente pode nascer de uma ideia original para voz e guitarra, ocasionalmente piano ou harmónica e a visão final de uma canção.

quarta-feira, novembro 26, 2014

Novas edições:
The Voyeurs

“Rhubarb Rhubarb”
Heavenly Records
3 / 5

Uma nova geração de bandas indie com passaporte britânico e berço na segunda década do século começa a dar o ar da sua graça, para já parecendo mais coleções de referências que, propriamente, líderes de uma qualquer (eventual) nova mensagem. Apesar de se apresentarem como The Voyeurs, a banda de que hoje falamos já tinha editado um primeiro álbum há dois anos, então com o mais extenso nome Charlie Boyer and The Voyeurs, o que não surpreende dadas as evidentes ligações a memórias da primeira “família” CBGB que ali se evocava, de Jonathan Richman com os Modern Lovers aos Television, numa coleção de canções que contou, na cadeira da produção, com a presença de Ewdin Collins. Agora, com nome reduzido a The Voyeurs, e azimutes das atenções devolvidos a este lado do Atlântico, apresentam um segundo álbum que, mesmo longe da linha da frente dos acontecimentos mais interessantes que os terrenos pop/rock deram a colher em 2014, não deixa de ser uma coleção de canções que sabem bem saborear e adivinham mesmo agradáveis momentos frente a um palco. Entre ecos do glitter rock e uma reconhecida admiração pela “fase berlinense” de Iggy Pop, mas sem esquecer ocasionalmente a força inspiradora de um Syd Barrett, as canções de Rhubarb Rhubarb fazem do disco um docinho com sabor retro, que se serve entre ecos do pastiche e sinais de personalidade que fazem da carteira de formas revisitadas um corpo com evidente unidade. Há uma voz que sabe vestir heranças clássicas da teatralidade ao serviço do rock’n’roll (como, por exemplo, Bett Anderson também o fez em tempos nos melhores dias dos Suede), um saber na gestão de sonoridades (que nunca perdem a nitidez dos respetivos sabores) e uma vontade em talhar hinos pop/rock capazes de animar uma pequena multidão. Há canções sobre violência doméstica ou sobre o que fica depois de uma noitada, quando o dia começa a regressar. Há guitarras em regime elétrico fuzzy e mellotron. São ainda primeiros passos em busca de algo. Que arrumam, de forma mais certeira que no álbum anterior, as linhas pelas quais se querem coser. Agora falta ver até onde a inspiração os poderá levar em cenas dos próximos capítulos.

terça-feira, novembro 25, 2014

Novas edições:
Superfood

“Don’t Say That”
Infectious
2 / 5

E depois de fechado o capítulo do revivalismo dos 80s (o que não quer dizer que não apareça quem o faça, como ainda hoje há quem procure referências nos 50s, 60s ou 70s) agora o mapa coloca as ementas dos noventas à disposição dos interessados. Com berço em Manchester, os Superfood não querem enganar ninguém. E apontam os azimutes das linhas mestras do seu álbum de estreia não apenas aos muitos ecos do brit pop como a formas de diálogo entre os ritmos e as guitarras que teve na cidade um vórtice central de acontecimentos (ou a coisa não tivesse acabado conhecida como Madchester). Naquele que é o seu álbum de estreia, Don't Say That, o quarteto parece procurar reencontrar o clima de festim despreocupado com que então se vivia em tempos de vacas gordas. Abrem uma janela para o lado onde a atualidade informativa não parece lançar sombras e dedicam-se à construção de pequenos momentos de luz e farra, navegando entre várias marcas de referência do que foi a pop britânica para guitarras na primeira metade dos noventas. Apesar da competência instrumental, e mesmo tendo na canção que usa o nome da banda um belo momento, não há contudo aqui uma única composição do calibre daquelas que colocaram nomes como os Blur, Pulp, Stone Roses ou Suede no mapa da época que comporta as memórias que aqui dão vida a novos temas. Talvez num próximo disco, e com menos sede de pastiche, lá cheguem.