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domingo, setembro 18, 2016

Novas aventuras dos Beatles (1/2)

Os Beatles estão de volta através de um notável documentário/ensaio de Ron Howard: este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Setembro), com o título 'Cinema evoca a aventura musical dos Beatles'.

O novo filme de Ron Howard, The Beatles: Eight Days a Week, talvez pudesse parafrasear o título de uma comédia de Woody Allen. Qualquer coisa como: “Tudo o que você sempre quis saber sobre os Beatles, mas não sabia como perguntar...”
Afinal de contas, há muito que os quatro de Liverpool estão inscritos na história da cultura popular. As convulsões de usos, costumes e ideias ao longo da década de 1960 não podem ser compreendidas sem passar pelas suas canções, desde a contagiante simplicidade de She Loves You até à ousadia experimental de A Day in the Life. E tudo isso vivido na vertigem de quem foi queimando etapas criativas a uma inusitada velocidade — as gravações dessas duas canções, por exemplo, estão separadas apenas por quatro anos, de 1963 a 1967.
Essa vertigem surge como o centro irradiante do filme de Ron Howard, por certo um dos acontecimentos maiores na história recente do documentarismo. Num contexto audiovisual em que passámos a ter um espectacular acesso a muitos materiais informativos, The Beatles: Eight Days a Week celebra um princípio eminentemente cinematográfico, bem diferente da “acumulação” tantas vezes favorecida por modelos televisivos: a reprodução dos clichés mitológicos não basta para compreender a dimensão e os efeitos de um fenómeno, sobretudo de um fenómeno como os Beatles.
Assistimos, assim, à fulgurante ascensão de quatro rapazes unidos pela paixão pela música, desembocando no célebre concerto do Shea Stadium, Nova Iorque, a 15 de Agosto de 1965, quando John, Paul, George e Ringo reconheceram uma amarga verdade: os gritos da assistência tinham desvirtuado a sua própria performance, gerando um “circo” de que, afinal, eles não queriam ser personagens.
Tal concerto constitui uma peça nuclear desta evocação, já que surge, na íntegra, depois do documentário propriamente dito (para uma duração total de 2 horas e 17 minutos). E através de um fascinante paradoxo cinematográfico: de facto, os Beatles queixavam-se de que já nem conseguiam ouvir-se uns aos outros; o certo é que o restauro do som é notável (reequilibrando música e... gritos), tanto quanto o da imagem, aliás tratada por esse talentoso director de fotografia que foi Andrew Laszlo.

Imagens inéditas

A produção de The Beatles: Eight Days a Week combina as mais célebres imagens emblemáticas (incluindo a primeira performance no programa de Ed Sullivan, na CBS, a 9 de Fevereiro de 1964) com momentos íntimos pouco conhecidos ou mesmo inéditos (por exemplo, com o manager Brian Epstein). A tudo isso somam-se os contributos de muitos fãs a que a produção apelou, sobretudo para conseguir alguns registos dos países por onde os Beatles passaram. Isto sem esquecer os depoimentos fundamentais de personalidades como Kitty Oliver (sobre a integração dos negros nos concertos), Richard Lester (que os dirigiu nos filmes A Hard Day’s Night e Help!, respectivamente de 1964 e 1965), Elvis Costello, Whoopi Goldberg ou Sigourney Weaver.
Sendo uma aventura visceralmente musical, The Beatles: Eight Days a Week desenvolve-se também como um conto filosófico sobre a fama, suas euforias e ilusões, proezas e equívocos, num salutar contraponto à ideologia contemporânea dos “famosos” televisivos. É, além do mais, um filme de inequívoca comunhão afectiva, incluindo depoimentos actuais de Paul McCartney e Ringo Starr, e tendo contado com a colaboração de Yoko Ono e Olivia Harrison, viúvas de John Lennon e George Harrison.
Reflectindo as muitas transformações dos nossos tempos, o filme tem estreia mundial a 15 de Setembro, surgindo dois dias mais tarde, nos EUA, no Hulu (serviço televisivo de aluguer). Sem esquecer que, como recorda Ron Howard, os Beatles foram um fenómeno global que não precisou da Internet e dos circuitos da nossa sociedade da informação.

segunda-feira, agosto 08, 2016

"Revolver" — 5 factos

Klaus Voormann
Na sua rubrica "5 coisas que você não sabia...", a revista Rolling Stone evoca alguns factos históricos, por vezes à beira do surreal, sobre o álbum Revolver, dos Beatles, uma obra-prima com 50 anos de vida. Entre as memórias que vale a pena actualizar está a autoria da capa — o seu criador foi o versátil Klaus Voormann, baixo dos Manfred Mann entre 1966 e 1969.

sexta-feira, agosto 05, 2016

"Revolver" — 50 anos

5 de Agosto de 1966 — faz hoje 50 anos que os Beatles lançaram Revolver, o seu sétimo álbum de estúdio. Se é verdade que o movimento do quarteto de Liverpool se faz da cumplicidade de nostalgias várias com as mais ousadas experimentações, esta pode ser a obra ideal para começar a compreender a riqueza e complexidade do seu património — aqui surge o classicismo de Eleanor Rigby a coabitar com a vertigem psicadélica de Tomorrow Never Knows, sem esquecer, claro, a mágoa romântica de For No One ou a sofisticação lúdica de Yellow Submarine. Pequena e perversa memória: Jon Hamm escuta Tomorrow Never Knows no episódio nº 8 da quinta temporada da série Mad Men.

sábado, julho 30, 2016

Os Beatles para crianças

Eddie Veder, Pink e Robbie Williams são alguns dos intérpretes de canções dos Beatles na série de animação Beat Bugs, criada por Josh Wakely [artigo em The Wall Street Journal]. É um exclusivo Netflix, disponível a partir de 3 de Agosto — o trailer promete uma bela reinvenção de alguns temas emblemáticos dos quatro de Liverpool.

domingo, março 27, 2016

FNAC [dia 30]: Sound + Vision Magazine

As reedições dos Beatles vão estar em foco na próxima sessão do nosso Sound + Vision Magazine: um reencontro com um património exuberante, além do mais agora relançado através da recuperação de muitos videos [exemplo aqui em baixo: Penny Lane], finalmente devolvidos à sua qualidade original — FNAC, Chiado [quarta, dia 30, 18h30].

segunda-feira, dezembro 28, 2015

As imagens de 2015:
Beatles em 'streaming'


Tinha havido um falso alarme, há algumas semanas, com uma contagem decrescente que, afinal, anunciava antes uma nova edição da antologia 1, juntando ao áudio os filmes que os Beatles foram criando para as suas canções, editados assim em DVD e Blu-ray. Agora, já com o final do ano em contagem decrescente, chegou a notícia de que a música dos Beatles ia chegar às várias plataformas de streaming na véspera de Natal. Um passo importante na confirmação deste como um espaço de futuro na distribuição da música gravada.

quinta-feira, outubro 15, 2015

Paul McCartney + Michael Jackson

A recente reedição de Pipes of Peace (1983), o quarto álbum a solo de Paul McCartney, gerou um novo teledisco para Say Say Say, um enorme sucesso em que McCartney tinha a companhia de Michael Jackson (partilhando também a composição). O relançamento inclui uma mistura alternativa ("trocando" as duas vozes), precisamente a que sustenta o teledisco encenado e coreografado por Ryan Heffington.

quinta-feira, julho 30, 2015

Nos 50 anos de "Help!"

Faz esta semana meio século que “Help!”, o segundo filme com os Beatles, realizado por Richard Lester, chegou às salas de cinema. Apesar do tom ligeiro nasciam ali ideias que teriam consequência.


Como nota Martin Scorsese, no pequeno ensaio que foi publicado na edição em Blu-ray do filme, Richard Lester, em Help!, “foi tão ousado, à sua maneira, como Resnais o havia sido poucos anos antes em O Último Ano em Marienbad”, observando em concreto o trabalho de montagem e dos movimentos de câmara. Quanto à utilização da cor lembra que era algo “que todos estavam a experimentar naquela altura”, dando como exemplo Blow Up de Antonioni ou Farenheit 451 de Truffaut.

Help! pode ainda ser reconhecido como um importante espaço de primeira exploração de ideias daquilo que anos mais tarde seria o teledisco. As sequências que acompanham You’ve Got To Hide Your Love Away ou Ticket To Ride poderia viver mesmo sem um filme ao seu redor e são claras indicadoras de um registo na relação das imagens com a música que parte do cinema mas aponta horizontes a outra lógica narrativa e de encadeamento de imagens e até mesmo ritmo de montagem.

Podem ler o texto completo aqui, na Máquina de Escrever.

quinta-feira, março 26, 2015

Ringo Starr, opus 18

Uma sugestão de viagem, uma pose bem disposta, discretamente nonchalante, e um som rock, simples e directo, sem complexos de se entregar ao primitivismo da sua energia, embora sem cultivar qualquer mágoa nostálgica — assim é Ringo Starr, sempre fiel à herança dos anos 60 que ele e os seus três companheiros de Liverpool moldaram de forma irreversível. O certo é que o Sr. Richard Starkey Jr. já vai no seu 18º álbum a solo, Postcards from Paradise, mais uma vez mobilizando velhas raposas como Todd Rundgren, Joe Walsh e Dave Stewart. O tema título, composto com Rundgren, tem um delicioso e sofisticado lyric video, encenando uma canção em que Ringo decide construir todo um poema a partir de versos roubados ao património dos Beatles [citações].

segunda-feira, novembro 24, 2014

Discos: os lançamentos desta semana


Hoje chega às lojas (mais as virtuais que as reais, é verdade) um novo disco de David Sylvian. Com o título There’s a light that enters houses with no other house in sight o disco não representa ainda o sucessor de Manafon, traduzindo na verdade mais um esforço coletivo projetado numa obra de grande fôlego na qual Sylvian colabora com o poeta Franz Wright, e conta ainda com contribuições de Christian Fennesz e John Tilbury. O disco surge em três versões, a primeira das quais (acompanhado por um livro) já entretanto esgotada, restando assim o mais “convencional” digipack e o lançamento digital.

Também hoje é lançada uma versão “definitiva” do álbum de estreia dos Frankie Goes To Hollywood. Lançado há 30 anos, Welcome To The Pleasuredome é evocado agora na caixa antológica Inside The Pleasuredome, uma reedição em vinil do álbum original, numa nova prensagem apresentada juntamente com ilustrações criadas por Lo Cole, que assinou as imagens da capa original. A caixa inclui ainda um conjunto de três discos em 10” com remisturas inéditas de Relax, Two Tribes e The Power of Love, juntamente com temas existentes no álbum. Há um livro de 48 páginas com imagens alusivas ao disco, textos de Paul Morrissey e fotos de John Stoddart e Peter Ashworth. Há ainda um DVD com os telediscos da época e misturas em 5.1 dos singles e faixas do álbum, e uma cassete de 90 minutos com remisturas de Relax, um flipbook com uma animação rara e um cartão de acesso a ficheiros em alta resolução destes conteúdos.

Terceira grande chamada de atenção desta semana para uma gravação integral dos Études para piano de Philip Glass, em interpretações de Maki Namekawa. Lançamento assegurado pela Orange Mountain Music, a editora do próprio compositor.

Também esta semana:

Work in Progress – Outtakes 1963 é mais uma coleção de gravações de estúdio dos Beatles em 1963 (e mais um lançamento que surge pela passagem ao domínio público dos materiais desta fase da carreira dos fab four). Dos Beatles surge ainda uma reedição em vinil das históricas antologias “vermelha” e “azul” assim como de 1 e Love.

Também esta semana são editadas as caixas The Velvet Underground (que junta em seis discos materiais alusivos ao terceiro álbum dos Velvet Underground), Love Has Many Faces: A Quartet, A Ballet Waiting To Be Danced, de Joni Mitchell, Cream 1966-1972 (dos Cream, naturalmente, com reedições em vinil) e The Polydor Years, que junta em CD e DVD parte da obra dos Moody Blues.

No departamento das reedições há que assinalar a chegada de um convite ao reencontro com a obra dos Jesus Jones, surgindo os seus discos de estúdio em versões com um CD que corresponde aos discos originais mais alguns temas adicionais, aos quais se junta um outro CD com temas de singles e máxis e ainda um DVD (com telediscos e atuações em televisões e em concerto) como extra. Os Public Enemy reeditam o clássico It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back.

Entre nós chega às lojas uma edição que assinala os 20 anos de Viagens, álbum de estreia de Pedro Abrunhosa com os Bandemónio.

A caixa Original Album Series dedicada a Shirley Bassey junta os seus álbuns Something, Something Else, I Capricorn, And I Love You So e Never Never Never. Surge também uma caixa idêntica com cinco álbuns de Sheena Easton.

Nos terrenos do jazz destaca-se Hamburg 72, de Keith Jarrett (com Charlie Haden e Paul Motian).

Na área da música contemporânea apresenta-se uma edição que junta obras para percussão de Karlheinz Stockhausen. Sob o título Complete Early Percussion Works é um lançamento da Mode.

Outros lançamentos:
Bruce Springsteen – Winterlan 15th December 1978
dEUS – Selected Songs 1994-2014
Echo & The Bunnymen – Porcupine (hardback vinil)
Echo & The Bunnymen – Live In London
Fatboy Slim – The Sets (live at SMS)
Faust - Just
Gotan Project – Club Secreto
I Am Kloot – From Here To There
James Brown – The Singles Collection 1958-62
Kelis – Live in London
Nick Drake – A Treasury (vinil)
Visage – Fade to Grey (orchestral) (single)
Vários – Saint Etienne Presents Songs for a London Winter

Esta é uma seleção pessoal de alguns dos lançamentos desta semana.

segunda-feira, novembro 03, 2014

Novas edições:
The Flaming Lips

"With a Little Help from My Fwends"
Bella Union / Edel
4 / 5

Com uma carreira que remonta aos anos 80, os Flaming Lips conquistaram um patamar de atenção maior com o impacte global (em esferas indie, note-se) dos álbums The Soft Bulletin (1999) e Yoshimi Vs The Pink Robots (2002) onde todo um conjunto de ideias ensaiadas e desenvolvidas em discos anteriores ganhava forma em coleções de canções mais arrumadas, sob uma nitidez na escrita, instrumentação e produção que, sem apagar episódios anteriores – como o mítico Zaireeka (1997), transportou a música dos Flaming Lips a outras dimensões (e públicos). Incansáveis experimentadores, pouco dados ao jogo da cedência, não se fixaram nas formas ali atingidas, mostrando os álbuns seguintes novos sinais de novas demandas. Infelizmente, sem nunca voltar a dar-nos resultados tão marcantes como os que os álbuns de 1999 e 2002 nos haviam mostrado. Houve episódios pontuais interessantes, tiros ao lado e sinais de caminhos novos a trilhar... Um deles conduziu-os ao disco que agora nos mostram e que representa o seu melhor momento desde Yoshimi... Podemos encontrar entre The Flaming Lips and Stardeath and White Dwarfs with Henry Rollins and Peaches Doing The Dark Side of the Moon que em 2009 reinventava o álbum clássico dos Pink Floyd e o disco novamente feito com “amigos” The Flaming Lips and Heady Fwends, de 2012, as bases das ideias que agora os conduzem a esta abordagem, de fio a pavio, às canções da totalidade de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, disco de 1967 dos Beatles. Tal como o tinham feito com os Pink Floyd, entram agora pelas canções dos ‘fab four’ adentro sem as tomar como santinhos de altar. Em With a Little Help from My Fwends aceitam a sua estrutura, letra e melodia, acolhem ainda (e muito naturalmente) o clima de desafio que o psicadelismo então também tinha marcado a própria concepção do disco. Mas juntam ideias, sonoridades, cenografam de modos diferentes. E o mais espantoso é que, mesmo fazendo notar sempre a presença de quem transforma, a alma maior das canções dos Beatles acaba por estar sempre em cena. Com nomes algo surpreendentes como os de Moby, Miley Cyrus, a dupla Tegan & Sara e as presenças mais “naturais” dos Foxygen ou de Ben Goldwasser (dos MGMT), celebra-se um ícone pela sua assimilação e transformação. Afinal é isso que deve fazer um disco que tomamos como referência.

terça-feira, outubro 28, 2014

Ver + ouvir:
Flaming Lips (com Miley Cyrus e Moby),
Lucy In The Sky With Diamonds



Um teledisco para um dos temas de um álbum (a editar em novembro) no qual os Flaming Lips e convidados recriam, de fio a pavio, o alinhamento de Sgt. Peppers' Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Aqui são seus convidados Miley Cyrus e Moby.

terça-feira, outubro 14, 2014

Para ouvir: 'Sgt. Pepper's' pelos Flaming Lips

Uma abordagem, de fio a pavio, às canções do álbum de 1967 dos Beatles Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band é a nova proposta dos Flaming Lips, mais uma multidão de convidados. O site da banda começou a divulgar as colaborações.

Podem ouvir aqui Lucy in the Sky With Diamonds, com Moby e Miley Cyrus.

domingo, outubro 12, 2014

O regresso ao mono dos Beatles (parte 2)


Este texto é parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q., do DN, com o título 'Em busca de autenticidade na memória dos Beatles' e apresenta a caixa que junta, em novas edições em vinil, a obra em ‘mono’ que o grupo registou entre 1962 e 1969.

Quando, em 1963, os Beatles deixaram as gravações em duas pistas e passaram a registar em quatro, as misturas ganharam aos poucos potenciais novos patamares de complexidade e as diferenças entre as versões mono e estéreo puderam aumentar significativamente. Mesmo assim, e como recorda Kevin Howlett no ensaio que abre o booklet da caixa The Beatles in Mono, “até em 1967, quando estavam no momento maior da sua experimentação em estúdio, a mistura em mono de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band era sua prioridade absoluta”. Os quatro estavam presentes na mistura em mono, muitas vezes levando acetatos de teste para casa que, depois de escutados, sugeriam alterações a fazer no dia seguinte. Terminada a mistura em mono deixaram, como relata Howlett, as versões em estéreo nas mãos de George Martin e dos seus engenheiros de som. Vivia-se mesmo assim um período de transição, e até à edição da banda sonora de Yellow Submarine (1969) os Beatles ainda editaram todos os seus discos tanto em mono como estéreo.

Lançado em inícios de 1963, o álbum de estreia Please Please Me chegou numa altura em que, ainda dominado pelo single (e também pelo EP, ou seja, o Extended Play, que podia juntar duas faixas de cada lado num disco com as dimensões de um single), o mercado da música pop/rock começava a refletir uma cada vez mais evidente valorização do formato do álbum. O primeiro álbum dos Beatles vendeu meio milhão de unidades, na sua esmagadora maioria em mono. Os álbuns em estéreo, lembra Kevin Howlett, eram então “editados em pequenas quantidades para um mercado de entusiastas do hi-fi”. Poucos meses depois, o segundo álbum, With the Beatles, pulverizava os números do álbum de estreia, acabando dois anos depois por representar o primeiro disco a ultrapassar a fasquia do milhão no Reino Unido (ainda hoje é o terceiro disco com maior volume de vendas dos Beatles, superado apenas por Sgt. Pepper’s e Abbey Road).

Um exemplo curioso do peso das diferentes misturas na obra dos Beatles pode encontrar-se no facto de a versão mono de A Hard Day’s Night (1964) ter exigido cerca de três vezes mais tempo que a versão em estéreo desse mesmo disco que, então, incluía as canções do primeiro filme com os fab four.

Depois de Beatles for Sale (de 1964) e de Help! (1965, com as canções de um segundo filme) coube a Rubber Soul (1965) a expressão de novos patamares de labor no trabalho em estúdio, o que se revela nas diferenças que encontramos entre as versões mono e estéreo. Curiosamente as misturas de seis das canções na versão estereofónica foram realizadas na mesma manhã em que Isabel II entregava aos Beatles as insígnias MBE (Members of the British Empire), facto que reforça como não era ali que estava o gume da atenção dos músicos. Revolver (1966) leva contudo os desafios de experimentação mais além, e para os quais terá certamente contribuído a presença de Geoff Emerick, um jovem engenheiro de som com 20 anos que George Martin chamou a estúdio. O grupo concentrava então os esforços criativos e preparava-se para deixar os palcos, abrindo espaço para experiências ainda mais elaboradas em Abbey Road que surgiriam com Sgt. Pepper’s e Magical Mistery Tour, ambos de 1967. O segundo, originalmente editado como duplo EP no Reino Unido, surgiu nos EUA como álbum (juntando temas de singles da época no lado B), gerando assim aquela que é a única edição não britânica a figurar naquela que, com o tempo, acabou definida como a discografia canónica dos Beatles em LP.

A nova caixa em vinil The Beatles in Mono junta todas as versões mono destes álbuns a The Beatles (o álbum branco), disco de 1968 nascido segundo um desafio de simplificação instrumental. E inclui ainda – além de um extenso booklet com textos (álbum a álbum), recortes de imprensa e imagens da época – a compilação The Mono Masters, que integra os temas que foram editados em single e ainda elementos da banda sonora de Yellow Submarine. Além das naturais diferenças na forma como os sons estão distribuídos em mono ou estéreo, há diferenças nos discos, e algumas decorrem do facto de terem sido escolhidos takes diferentes. Há versões mais lentas, fades que surgem com outra rapidez, até mesmo detalhes nas performances vocais e instrumentais. O ‘Álbum Branco’, por exemplo, é um minuto mais curto na versão mono... Além disso, a nitidez com que os arranjos dos discos de 1966 e 67 se arrumam nas misturas em mono revelam um espantoso e cuidado trabalho técnico que valoriza canções de uma etapa em que o grupo soube aliar a criatividade à exploração da tecnologia ao seu alcance.

Esta caixa, que representa assim a experiência mais próxima possível do que era, há 50 anos, descobrir a música dos Beatles, surge na sequência de mais dois importantes lançamentos oficiais de arquivo apresentados já este ano. Uma das caixas, com o título U.S. Box, recupera em CD os LP dos Beatles, com capas e alinhamentos diferentes, que a Capitol criou para o mercado norte-americano. A segunda, a Japan Box, junta os álbuns, também diferentes, que a EMI japonesa lançou entre 1964 e 65. Há contudo ainda muito material de arquivo a recuperar...

quarta-feira, outubro 01, 2014

O regresso ao mono dos Beatles (parte 1)

Este texto é parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q., do DN, com o título 'Em busca de autenticidade na memória dos Beatles' e apresenta a caixa que junta, em novas edições em vinil, a obra em ‘mono’ que o grupo registou entre 1962 e 1969.
O exercício da memória tem os seus caprichos (e justificações). E contra a massificação de uma memória de dieta, que é tantas vezes veiculada por modelos greatest hits que reduzem o que outrora aconteceu apenas a excertos das obras dos que ultrapassaram as mais altas fasquias da popularidade (quantas vezes confinando a uma ou uma escassa mão-cheia de canções todo um percurso criativo), há quem procure, sob uma outra lógica, uma busca de um mais rigoroso sentido de verdade que a música de outros tempos em si guarda, para que a possamos reencontrar tal e qual a descobriram os ouvidos de quem a escutou à nascença. Na música clássica ganhou fôlego – sobretudo nos anos 90 – uma forma de entender o reencontro com obras de um passado mais remoto (sobretudo nos repertórios barroco e clássico) através de estratégias “de época”, visando muitas vezes não apenas uma utilização de instrumentos da altura, mas também formações de músicos distintas das atuais e até mesmo optando por modelos de direção de orquestra decorrentes de um ponto de vista definido pelo estudo histórico das obras, dos compositores e do seu tempo. A história da música popular conta-se com menos calendários no arquivo, muita da que falamos datando mesmo de um tempo em que as gravações registaram retratos fiéis (segundo a tecnologia disponível, é certo) das épocas em que essas obras surgiram. A evolução da tecnologia ao serviço do som mudou contudo a forma de ouvir música. E obras que foram registadas há 50 anos chegam hoje até nós em suportes que não eram sequer imaginados então. Uma nova caixa dos Beatles pode assim representar uma importante contribuição para a definição definitiva de um novo paradigma na forma de entendermos a música gravada antes da generalização da gravação estereofónica e a liberalização do acesso do grande público a sistemas de alta fidelidade.

As primeiras canções dos Beatles surgiram em disco há pouco mais de 50 anos e a forma como então chegavam às casas de quem as escutava era completamente diferente. A gravação em “mono” (ou seja, monofónica, concentrando o som num único ponto) era – apesar do estéreo ser então há já muito conhecido – o paradigma vigente, não apenas para quem ouvia discos, mas também quem escutava rádio ou via televisão. Um único altifalante, em todos esses aparelhos caseiros, era a fonte de som. E a mistura dos elementos sonoros era pensada então para assim ser arrumada.

Os temas dos Beatles conheceram edição simultânea com misturas em mono e estéreo desde o início da sua discografia, as primeiras sendo então as que correspondiam às maiores solicitações do mercado – era assim a esmagadora maioria dos gira-discos da altura – e, de resto, até aos dias de St. Pepper’s, a mistura em mono era a prioridade maior para os fab four, muitas das misturas em estéreo para os seus discos de então tendo sido feitas muitas vezes praticamente sem a sua presença. Se nos EUA a Capitol (que editava localmente os Beatles) deixou de apostar no mono a partir de 1968 (o que corresponde ao álbum The Beatles, muitas vezes referido como o “álbum branco”), no Reino Unido semelhante política chegou em 1969, o que, na obra do grupo, fez dos álbuns Abbey Road (1969) e Let It Be (1970) peças exclusivamente misturadas em estéreo.

A progressiva transferência da audição de música gravada para aparelhagens estereofónicas – dos sistemas de alta-fidelidade aos pequenos leitores portáteis de cassetes que surgiriam no final dos anos 70 – foi deixando as velhas edições em mono sair de catálogo. As novas reedições em vinil partiam assim das versões em estéreo, o mesmo acontecendo com a chegada do CD, apesar de George Martin ter, no caso dos Beatles, insistido que as versões em Compact Disc dos álbuns Please Please Me, With the Beatles, A Hard Day’s Night e Beatles for Sale deveriam ser feitas a partir dos masters em mono.

Mesmo assim, e com o tempo, aquelas que tinham representado as misturas às quais os próprios Beatles tinham dedicado as suas maiores atenções tinham acabado arredadas do mercado. Eram coisa para colecionadores, que disputavam as velhas cópias originais dos álbuns em vinil. Tudo mudou contudo em 2009. Na sequência de uma profunda campanha de trabalhos sobre os masters originais do arquivo dos Beatles feita por técnicos dos estúdios Abbey Road – onde a esmagadora maioria das gravações do grupo foram feitas – o acervo em mono acabou por revelar memórias esquecidas e, ouvidas as diferenças, inúmeros pontos de vista diferentes que as mais novas gerações desconheciam.

Ao mesmo tempo que era preparada uma remasterização, o mais fiel possível dos originais, da discografia em estéreo – que entretanto se tornara o cânone para a obra dos Beatles –, os técnicos de Abbey Road trataram de igual forma os masters das edições em mono. E ao mercado chegaram também assim (nessa fase apenas em CD) as versões em mono que, mesmo essencialmente dedicadas a colecionadores e admiradores mais dedicados ao conhecimento profundo da obra do grupo, acabaram por abrir um precedente que, entretanto, deu frutos. À caixa de CD The Beatles in Mono seguiram-se The Original Mono Recordings de Bob Dylan (caixa de 2010 com registos entre 1962 e 67) ou The Kinks in Mono (caixa de 2011, em edição limitada, com os álbuns que o grupo lançou entre 1964 e 69). Agora, cinco anos depois dessa edição que semeou um desejo de reencontro de verdades que a era do estéreo esquecera, uma nova caixa dos Beatles aproxima ainda mais do presente a experiência de um reencontro de facto com as memórias originais destes discos em mono, apresentando-os em vinil.

(continua)

segunda-feira, setembro 08, 2014

Concerto de homenagem a George Harrison

Sob a designação George Fest: A Night to Celebrate the Music of George Harrison, o El Rey Theatre, em Los Angeles, acolhe dia 28 um concerto de homenagem a George Harrisson no qual participam, entre outros, nomes como os de Brian Wilson, Wayne Coyne (dos Flaming Lips) ou Brandon Flowers (dos The Killers).

Também este mês, mas uma semana antes, é editada a caixa The Apple Years 1968-75, que junta os álbuns que o ex-Beatle gravou para a editora, aos quais se junta algum material de arquivo ainda inédito.

quinta-feira, agosto 21, 2014

Gravações históricas dos Beatles
chegam a disco em setembro

A editora OxTango Music vai lançar em setembro quatro discos novos com gravações históricas dos Beatles que cobrem um período entre 1963 e 69. A editora lançara já este ano lançara os registos históricos no Star Club, vai editar três volumes (em formato de CD duplo) sob o título Historic Live Recordings e um quarto disco, a que chamará The Get Back Nagra Tape Remasters.

Os três primeiros são antologias de gravações ao vivo captadas em diversos palcos e geografias, desde atuações nos programas de Ed Sullivan ou na Royal Variety Performance até apresentações na Austrália, Japão ou um concerto histórico no Shea Stadium, em Nova Iorque, em agosto de 1965.

Podem consultar aqui os alinhamentos completos:
- Volume 1
- Volume 2
- Volume 3

O quarto disco, The Get Back Nagra Tape Remasters recupera as gravações que tiveram lugar nos estúdios de cinema, em Twickenham, em janeiro de 1969.

O alinhamento deste disco pode ser consultado aqui.

segunda-feira, agosto 04, 2014

The Flaming Lips revisitam os Beatles

Chamar-se-á With a Little Help From My Fwends (não é erro: fwends) e propõe-se nada mais nada menos que revisitar o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles, além do mais respeitando escrupulosamente o respectivo alinhamento — é um projecto de The Flaming Lips, com muitos e variados convidados, ou seja, um álbum tributo a um dos clássicos absolutos da música pop (a ser lançado a 28 de Outubro). Eis a ficha já conhecida:

01. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (My Morning Jacket, Fever the Ghost e J Mascis)
02. With a Little Help from My Friends (The Flaming Lips, Black Pus e The Autumn Defense)
03. Lucy in the Sky with Diamonds (Miley Cyrus, Moby e The Flaming Lips)
04. Getting Better (Dr. Dog e Chuck Inglish)
05. Fixing a Hole (Electric Wurms)
06. She’s Leaving Home (Phantogram e Juliana Barwick)
07. Being for the Benefit of Mr. Kite! (The Flaming Lips, Maynard James Keenan e Sunbears)
08. Within You Without You (Birdflower e Morgan Delt)
09. When I’m Sixty-Four (The Flaming Lips e outros)
10. Lovely Rita (Tegan & Sara e Stardeath and White Dwarves)
11. Good Morning Good Morning (Zorch, Grace Potter e outros)
12. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise) (Foxygen e MGMT)
13. A Day in the Life (The Flaming Lips e Miley Cyrus)

Entretanto, surgiu um teledisco para a versão de Lucy in the Sky with Diamonds e o menos que se pode dizer é que os envolvidos — Miley Cyrus, Moby e The Flaming Lips — mobilizaram o melhor de si próprios, sabendo ser fiéis à energia do original [em baixo, versão — tecnicamente pobre — extraída do filme O Submarino Amarelo, de 1968].
Video mais psicadélico do ano? Só poderá ser este...



terça-feira, julho 08, 2014

Os quatro "cabeleiras" chegaram ao cinema

Este domingo passaram 50 anos sobre a estreia em sala de A Hard Day’s Night, o primeiro filme protagonizado pelos Beatles. Este texto foi originalmente publicado na edição de 6 de julho do DN.

Foi com o título Os Quatro Cabeleiras do Após-Calipso que os Beatles entraram pela primeira vez num ecrã de cinema português. O cartaz promocional acrescentava mesmo: “Cabeludos... Desgrenhados... Mas com um Ritmo dos Diabos”... A “criatividade” na hora de dar um título local ao filme não foi exclusivo português. No Brasil, por exemplo, surgiu em cartaz como Os Reis do Iê Iê Iê e na Alemanha era anunciado como Yeah Yeah Yeah (em ambos os casos claramente citando a letra de She Loves You e do movimento ié ié que ali também foi buscar o nome). Na Itália apresentava-se como Tutti Per Uno e, na França, Quatre Garçons Dans Le Vent. Com o título original A Hard Day’s Night, e sob realização de Richard Lester, a longa-metragem teve estreia mundial faz agora 50 anos e representou não apenas a primeira de uma série de incursões dos Beatles pelo cinema como resultou num dos filmes mais influentes na história do relacionamento da música pop com as imagens.

A assinalar as suas bodas de ouro o filme regressou este fim de semana às salas nos EUA, prevendo a Janus Films (que adquiriu recentemente os seus direitos) que depois haja igual nova vida para A Hard Day’s Night nas salas europeias. Uma versão restaurada do filme nos formatos de DVD e Blu-ray deverá contudo conhecer edição mundial ainda durante este mês de julho.

Estreados discograficamente em finais de 1962 e tendo conquistado um estatuto de enorme popularidade no Reino Unido em 63, os Beatles tinham entretanto saltado para a linha da frente das atenções mundiais depois de uma primeira viagem aos Estados Unidos em inícios de 64 que fizera a beatlemania atingir proporções globais. O cinema acabou naturalmente por entrar no seu caminho, tal como havia acontecido com Elvis Presley ou Cliff Richard, duas das primeiras estrelas da idade da cultura pop/rock.

Coube à United Artists a produção do filme, disponibilizando um orçamento relativamente reduzido. Não era tido como garantido o sucesso do filme, esperando a companhia com mais interesse até a edição em primeira mão (nos EUA) de uma banda sonora. Acabaram ambos por seu um sucesso, representando a hoje banda sonora americana um valor acrescentado no colecionismo dos Beatles, uma vez que apresenta um alinhamento diferente do álbum “canónico” (o britânico) então editado, onde apenas parte do alinhamento corresponde às novas canções expressamente criadas para o filme – como o tema-tílulo ou And I Love Her. A versão americana junta às canções o inédito I’ll Cry Instead (gravado para o filme mas não usado) e temas instrumentais usados entre as imagens.

Com argumento de Alun Owen, A Hard Day’s Night encontra uma trama narrativa com um tempero de aventura (que inclui o desaparecimento de Ringo e a presença de um ator que veste a pele do avô de Paul) que cruza com ecos do próprio sucesso dos Beatles e do seu trabalho como músicos. Richard Lester filmou a preto e branco e não seguiu caminhos semelhantes aos filmes de Elvis e Cliff, procurando antes explorar outras heranças mais clássicas do próprio cinema, dos Irmãos Marx a Buster Keaton, havendo quem tenha já chamado ao filme o Citizen Kane dos musicais da era das jukeboxes.

domingo, julho 06, 2014

Os Beatles em teledisco?

A efeméride dos 50 anos de A Hard Day's Nightfilme + disco — é um bom pretexto para relançar uma velha questão, de uma só vez conceptual e irónica. A saber: foram os Beatles os inventores do teledisco?
Seja qual for a resposta, convém não esquecer que nela teremos de incluir sempre o nome de Richard Lester, realizador do filme — e também de Help!, que prolongaria, logo no ano seguinte, 1965, a filmografia dos Quatro de Liverpool —, para mais uma personalidade fulcral da dinâmica renovadora da produção britânica da década de 60 (sendo ele, curiosamente, um americano, nascido em Filadélfia em 1932).
De facto, a noção de teledisco, como unidade específica de encenação/produção/promoção só se definiria de forma específica a partir do impacto da MTV (criada em 1981). Mas é interessante observar como Lester filma os Beatles a partir de dois pressupostos que viriam a tornar-se muito frequentes na área dos videoclips: primeiro, transfigurando e superando o espaço tradicional do estúdio (de cinema ou televisão); depois, concebendo a encenação da canção, não como uma "transcrição", antes como uma nova narrativa, aberta a outras dinâmicas do espaço e medidas alternativas do tempo — vale a pena recordar o trailer original do filme.