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domingo, fevereiro 03, 2008

O sexo, aliás, o medo

Ano Madonna - 8
Sex, 1992


Editado a 21 de Outubro de 1992, o livro Sex (Warner Books) terá sido a obra de toda a carreira de Madonna que mais inimigos lhe criou. Porquê? Pelo carácter "provocatório" das imagens? Talvez, mas o certo é que as fotografias de Steven Meisel, muito ao contrário da pornografia dominante, recusam qualquer "verismo" simplista, antes afirmando-se através de uma luminosa e honesta teatralidade.
Ou ainda pelo desafio a todos os moralismos que queiram ver/represen-tar o sexo recusando a ambiguidade dos prazeres que o habitam e, mais do que isso, a pulsão de morte que o atravessa? Sim, sem dúvida por isso. Mas não através da obscenidade do "escândalo" pré-fabricado (obscenidade que, aliás, se tornou a lei dominante de muitas formas de jornalismo televisivo, sem que os guardiões dos bons costumes ao menos formulem alguma dúvida metódica sobre a sua pertinência informativa...). De facto, e como muito bem recorda a própria Madonna quando agradece o decisivo contributo de Meisel, tratava-se de colocar em cena (como num teatro de desejos, justamente) o medo inerente ao sexo — e a vertigem que o rasga.
Com a sua célebre capa metálica, fechado numa embalagem de papel de alumínio (com o rosto de Madonna a emergir a azul), Sex surgiu como um objecto que devolve o leitor à sua solidão: era preciso rasgar o papel e reconhecer que nenhuma imagem escapa ao labor metódico do fantasma. Num certo sentido, havia algo de infantil em todo o dispositivo (mediático, figurativo e narrativo) de Sex — como lidar com o medo que as histórias fazem? Ou ainda: como ter medo e continuar a contar histórias?

domingo, janeiro 20, 2008

Star power

Ano Madonna - 7
Oscars, 25 de Março de 1991


Personagem sempre algo "estrangeira" no universo de Hollywood, Madonna tem na sua carreira um exemplar "castigo" consumado pela indústria: em 1997, depois de ter ganho um Globo de Ouro pelo seu papel em Evita, de Alan Parker, não foi nomeada para os Oscars. Paradoxal ironia: alguns anos antes, Madonna oferecera à Academia e ao mundo do espectáculo uma dessas performances raras, que se transformam em lenda instantânea. Aconteceu na cerimónia dos Oscars referentes à produção de 1990, apresentada por Billy Crystal. Madonna interpretou Sooner or Later (I Always Get My Man), do grande Stephen Sondheim — era um dos temas da sua personagem de Breathless Mahoney nesse filme prodigioso que é Dick Tracy, de Warren Beatty, um marco na evolução dos conceitos de espectáculo e da respectiva tecnologia. Pura encarnação do conceito mitológico de star, o canto de Madonna terá despertado os deuses mais distraídos e o destino cumpriu-se: Sondheim levou para casa o Oscar de melhor canção, o único da sua carreira.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Este é o meu corpo

Ano Madonna - 6
Interview, Junho 1990


O que é a normalização dos olhares?... Sem dúvida uma lei, não escrita, que considera ter autoridade sobre as mãos de cada um. No caso de Madonna, há pelo menos uma prova real de tal vontade de controlo. Fotografada pelo seu amigo Herb Ritts (1952-2002), foi assim capa da edição da revista Interview de Junho de 1990 — tanto bastou para que algumas vozes mais dadas à vigilância do "bem comum" apelassem à interdição da sua circulação (em alguns mercados, uma pudica faixa de papel tapava a base da imagem). Hoje em dia, podemos dizer que a fotografia venceu o seu combate e pertence, por direito próprio, à história gloriosa da arte pop. E à sua ambígua consciência dos corpos.

domingo, janeiro 13, 2008

E fez-se luz... digital

Ano Madonna - 5
'Ray Of Light' - Álbum, 1998
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Depois de Bedtime Stories (1994), Madonna optou por dar seguimento e voz a diversos projectos. E só em 1997, depois de uma sucessão de singles avulso e de terminado o trabalho em Evita, colocou a gravação de um novo álbum como prioridade. O projecto de disco nasceu com o título de trabalho The Drowned World, inspiração colhida no romance com o mesmo título de J.G. Ballard... Madonna começou por trabalhar com Patrick Leonard, mas cedo reconheceu que não era esse o parceiro certo para a ideia que tinha em mente. Experimentou outros produtores, destas parcerias resultando ainda maior insatisfação. Fez-se finalmente luz no encontro com um músico que há muito admirava: William Orbit. E fez-se luz! Os esboços das primeiras sugestões não deixaram dúvidas e, nos quatro meses seguintes, as canções circularam entre o estúdio de Orbit e o ouvido crítico de Madonna. Pela primeira vez um disco seu nascia digitalmente, insistindo Orbit na presença ostensiva de electrónicas nos arranjos das canções. Editado em inícios de 1998, Ray Of Light (Drwoned World sobreviveu como título de uma canção e, maisd tarde, deu nome a nova digressão) rapidamente revelou que os quatro anos de silêncio traziam substanciais diferenças, reaproximando Madonna de espaços de convívio com a música de dança e as electrónicas que, em 1992 se haviam materializado em Erotica. Além das mudanças no plano estritamente musical, o disco reflectia ainda sinais de consciência da chegada aos 40 anos (que se assinalariam nesse ano), ora sob a forma de reflexões sobre a maternidade ou por novas e mais sólidas incursões pelos domínios da espiritualidade. O álbum gerou cinco singles – Frozen, Ray Of Light, Drowned World (Substitute For Love), The Power Of Goodbye e Nothing Really Matters – e vendas globais na ordem dos 14 milhões de unidades. Entre os segredos ainda guardados das sessões que geraram este disco conta-se uma versão, por Madonna e William Orbit, de Like An Angel Passing Through My Room, dos Abba... Ou seja, antes de Hung Up, já Madonna mostrava claros sinais de admiração pelos quatro suecos...

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Material girls

Ano Madonna - 4
Material Girl


Em cima, Madonna no teledisco de Material Girl (1985), dirigido por Mary Lambert; em baixo, Marilyn Monroe, no papel de Lorelei Lee, cantando Diamons Are a Girl's Best Friend, no filme Os Homens Preferem as Louras (1953), de Howard Hawks — reocupar o lugar da estrela, that is the question.
Com este teledisco Madonna definiu para sempre o seu método de vampirização/reinvenção. De tal modo que, tanto em termos mediáticos como simbólicos, "Material Girl" se tornou o seu segundo nome. A certa altura, a própria Madonna parece ter-se esquecido da crueldade paradoxal da canção (escrita pela dupla Peter Brown/Robert Rans) e, denunciando as suas palavras "materialistas",

Living in a material world
And I am a material girl

retirou-a dos seus espectáculos. Mas em 2004, na Re-Invention Tour, Material Girl regressou aos palcos de todo o mundo — a maturidade é uma coisa muito bonita.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Mãe e filha

Ano Madonna - 3
Vogue, Março 1998

Lourdes Maria Ciccone Leon, filha de Madonna e Carlos Leon, nasceu a 14 de Outubro de 1996. Na edição de Março de 1998 da Vanity Fair, Madonna mostrava Lourdes ao mundo, em algumas belas fotos assinadas por Mario Testino — lição nº 1: controlar as suas próprias imagens.

Oh Father I have sinned

Ano Madonna - 2
Oh Father (teledisco)

É, por certo, um dos momentos mais explicitamente autobiográficos da carreira de Madonna: o teledisco de Oh Father (1989), dirigido por David Fincher. Desde logo porque a canção, do álbum Like a Prayer, coloca em cena uma relação conflituosa com o pai, em todo o caso saldada por um perdão genuinamente redentor:

Maybe someday
When I look back I'll be able to say
You didn't mean to be cruel
Somebody hurt you too


Mas também porque a narrativa — inspirada na sequência da despedida no início de Citizen Kane (1941), de Orson Welles — nos remete para uma Madonna-criança a lidar com a morte da mãe, desembocando na imagem, de fria nitidez simbólica, da protagonista junto à campa da mãe. Passam por aqui alguns temas fulcrais do universo de Madonna, incluindo, claro, a afirmação militante da identidade feminina. Rezam as crónicas que a imagem da mãe morta, com a boca cosida, foi considerada demasiado "gráfica" pela MTV, de tal modo que os responsáveis pela estação tentaram convencer Madonna a retirá-la do teledisco — a resposta foi... não.

Madonna e Madonna

Ano Madonna - 1
Madonna Louise Fortin

Há uma primeira Madonna antes da Madonna que conhecemos. Chamava-se Madonna Louise Fortin (apelido de solteira) e deu à luz a nossa Madonna Louise Ciccone, a 16 de Agosto de 1958 — a mãe de Madonna viria a falecer a 1 de Dezembro de 1963, vitimada por cancro da mama, contava apenas 30 anos.
Quando as vemos nesta imagem com (quase) meio século, é inevitável reconhecermos esse paradoxo: por um lado, a imagem não pode deixar de ignorar todo o futuro das suas protagonistas; por outro lado, dir-se-ia que esse futuro se abate sobre os seus contornos vagos, sugerindo um destino e também a sua liberdade possível. Madonna sempre reconheceu que a perda da mãe aos cinco anos é um dos elementos decisivos da sua percepção do mundo e, por extensão, dos seus afectos e comportamentos — há, aliás, na sua obra muitos e significativos ecos de tal facto. No limite, compreendemos que ser mulher tem sido, para ela, um jogo interminável entre a biologia e a simbologia, as multidões e a solidão.

Ano Madonna: feliz 2008!

David Bowie completou 60 anos em 2007 — foi o ANO BOWIE, no Sound + Vision. A partir de hoje, começa o ANO MADONNA.
Que é como quem diz: a Material Mom completa 50 anos a 16 de Agosto de 2008 e, tal como aconteceu com o Senhor David Jones e as suas máscaras, vamos dizer aqui do que se fazem, e como se fazem, as nossas fidelidades estéticas — na certeza de que qualquer estética nos desafia para a elaboração de uma ética.
E vai ser um ano de acontecimentos marcantes:
— em Fevereiro, Madonna estará no Festival de Cinema de Berlim (7/17), para apresentar o seu primeiro trabalho de realização, Filth and Wisdom.
— em data ainda por anunciar será lançado I Am Because We Are, filme sobre a situação dos órfãos da sida no Malawi, uma produção de Madonna com realização de Nathan Rissman.
— o último álbum do seu contrato com a Warner Bros. sairá nos primeiros meses de 2008 (recentes especulações sobre data e título revelaram-se inócuas), devendo surgir mais para o final do ano uma compilação ou best of.
— Madonna integra a lista dos cinco novos nomes do Rock and Roll Hall of Fame (os outros são John Mellencamp, Leonard Cohen, The Ventures e The Dave Clark Five) — a cerimónia de celebração será a 10 de Março.

Este video de I Love New York pertence à Confessions Tour e serve de apresentação daquilo que nos/vos espera — um feliz 2008!