Mostrar mensagens com a etiqueta 11 de Setembro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 11 de Setembro. Mostrar todas as mensagens

domingo, setembro 11, 2011

As Torres Gémeas numa história de 1986

Papa Don't Preach (00m 27s)
Desde a sua imagem de abertura, as Torres Gémeas são uma presença emblemática no teledisco de Papa Don't Preach, de Madonna, realizado por James Foley [ ver arquivo de fotogramas em Madonna-online.ch ]. Como em muitas outras narrativas (que, obviamente, não puderam pensar no valor simbólico dessas suas imagens), já não estamos perante o mero trabalho da ficção, mas face a um perturbante poder de testemunho sancionado pela arquitectura do tempo e suas camadas.
No caso de Papa Don't Preach, as torres vão pontuando a caminhada da protagonista em direcção a casa do pai, cenário onde terá lugar o momento emblemático de confissão (da sua gravidez). Há, por isso, qualquer coisa de duplo assombramento neste drama familiar: porque a paisagem urbana emerge, exuberante, na sua ferida antecipada; e também porque, em 1986 como agora, esta é uma fábula construída a partir da ausência de qualquer modelo materno.
Papa Don't Preach (03m 34s)
Papa Don't Preach (03m 56s)

11 de Setembro - perspectivas (5)

Michael Rieger/ FEMA News Photo

Perspectivas sobre um dia que ninguém esqueceu para ler ao longo deste dia 11 de Setembro de 2011 no Sound + Vision. Dez anos depois recordamos, a várias vozes, memórias contadas na primeira pessoa... Aqui ficam mais três olhares, assinados por Miguel Vale de Almeida, Maria João Caetano e Gonçalo Frota.



Miguel Vale de Almeida 
(antropólogo e autor do blogue Os Tempos que Correm

Pois eu estava no Feira Nova de Telheiras, hoje um Pingo Doce. Tinha acabado de comprar um leitor de DVD para a o meu pai. O meu pai fazia anos no dia seguinte. O meu pai tinha cancro e morreria no ano seguinte. A mim apetecia-me um café. Nem que fosse naquele balcãozinho deprimente a caminho do estacionamento. O empregado olhava para uma TV e não tinha expressão na cara. Um avião atravessava um arranha-céus. Senti: 1) espanto; 2) atração; 3) obscenidade (eu não devia estar a ver aquilo, aquilo não devia ser visto, aquilo não devia poder ser visto). Liguei ao meu companheiro, acho, não sei bem. Fui para o carro, fui para casa, fui para a TV. But there it is: perguntem-me onde estava e penso em hipermercados, em obscenidade, em DVDs, em TVs, em cancros, em cafés, em companheiros de outrora, e em parques de estacionamento.

Texto publicado hoje no blogue Os Tempos Que Correm



Maria João Caetano
(jornalista do DN)

Estava um dia cinzento, com muitas nuvens no céu e um ar abafado, e lembro-me de estar, já depois das notícias, em pleno casino do estoril a entrevistar uma actriz glamorosa e, de repente, a meio da conversa, ficámos a olhar uma para a outra e percebemos que nada daquilo fazia sentido, que não podíamos estar ali a falar de teatro e subsídios e tretas enquanto esperávamos que as torres se desmoronassem. Como se fosse blasfémia falar ou pensar noutra coisa qualquer ao mesmo tempo que havia pessoas a lançar-se em desespero do centésimo andar.


Gonçalo Frota 
(jornalista)

Para mim, o 11 de Setembro é um filme. Lembro-me de chegar à redacção do Blitz e estar toda a gente ao fundo, à roda de um televisor e sem qualquer disponibilidade para o mundo em volta. Lembro-me de chegar, ficar entre o “bom dia” e o “que se passa?”, estar ainda a meio de uma rápida explicação confusa e nervosa, e então ver um segundo avião mergulhar na segunda torre. Em directo. E é esta ideia, do directo, de uma imagem (repetida quantas vezes?) que isola todo o acontecimento, que joga mais forte do que a sensação de que, desde que somos gente, Nova Iorque é uma cidade que nos pertence pela familiaridade com que nos entra casa adentro. Através da mesma televisão. Nunca fui a Nova Iorque. Espreitei para o buraco negro do Ground Zero igualmente através do ecrã, num outro filme do Spike Lee. Para mim, o 11 de Setembro é um filme. Não porque o tome por ficção, evidentemente. Mas porque a sua evocação implica sempre o arranque dessa imagem demasiado presente na memória colectiva. E que, em grande medida, transforma a História diante dos nossos olhos – não me lembro de nenhuma outra tragédia transmitida em directo, com o mundo todo a assistir ao mesmo tempo, e que pudesse ser tão perfeitamente resumida em cinco segundos de vídeo. Faz-me pensar em todos os sítios onde não há câmaras. Faz-me pensar no controlo remoto de Michael Haneke em Funny Games. O 11 de Setembro é um filme. Sem controlo.

O 11 de Setembro em três livros


É vasta a bibliografia publicada sobre o 11 de Setembro. São diversas as ficções que cruzam o seu espaço e tempo narrativo com os acontecimentos de há dez anos. Mais ainda são os títulos na área do ensaio, não faltando também uma multidão de memórias vividas naquele dia e nos que se lhe seguiram. Um exemplo desses relatos de vivências no dia dos ataques pode ler-se em 102 Minutes - The Untold Story of the Fight to Survive Inside the Twin Towers, de Jim Dwyer. Em Second Plane, Martin Amis reúne uma série de artigos e reflexões sobre o 11 de Setembro e a ideologia extremista que está por detrás dos ataques. De 2007, o romance Faling Man, de Don DeLillo, acompanha um sobrevivente do 11 de Setembro depois da tragédia.

11 de Setembro - perspectivas (4)

Andrea Booher/ FEMA Photo News


Perspectivas sobre um dia que ninguém esqueceu para ler ao longo deste dia 11 de Setembro de 2011 no Sound + Vision. Dez anos depois recordamos, a várias vozes, memórias contadas na primeira pessoa... Aqui ficam mais três olhares, assinados por Richard Zimler, Rita Rocha e Marina Almeida.


Richard Zimler
(escritor)

Ia a passar na Rua Júlio Dinis, no Porto, quando vi uma multidão num café especada diante de um televisor a um canto. Imaginei que devia ser um desafio de futebol. Mas pela montra consegui ver o topo das Twin Towers de Nova Iorque envoltas em chamas e lançando para o céu nuvens densas de um fumo cinzento. Precipitei-me para o interior. Parecia ficção científica – absolutamente impossível. Então umas das torres desabou. Tive a impressão de que todas as pessoas à minha volta se afastavam de mim e se diluíam. A minha experiência dizia-me que estava prestes a desmaiar. Sentei-me com a cabeça nos joelhos. Não queria chorar. Mas chorei. Também não queria que me vissem, e por isso mantive-me com a cabeça baixa.
Quando senti a tontura diminuir, sentei-me e bebi um copo de água. Estava gelado. Um homem na mesa ao lado reconheceu-me e sorriu. Reconheci-o também – Germano Silva. Era um jornalista e historiador que uma vez me entrevistara. Veio ter comigo e sentou-se à minha mesa. Falámos uns minutos, pois ele lembrou-se de que eu era de Nova Iorque, mas não consigo lembrar-me de uma única palavra da nossa conversa. Quando consegui levantar-me, precipitei-me para chamar um táxi e fui ao gabinete de Alex (Alexandre Quintanilha). Estava numa reunião, mas saiu para me dar um abraço. Lembro-me do cheiro dele – o cheiro de todos os anos que passámos juntos. Depois sentei-me à secretária dele. Surpreendentemente, consegui ligar para a minha mãe de imediato. Estava à espera de a encontrar histérica, mas estava calma, com uma incredulidade estupefacta.
Passei os dias que se seguiram a trocar e-mails com amigos do liceu e da universidade, com o meu agente literário e editores, com vizinhos da minha mãe, e com toda a gente de quem me lembrava em Nova Iorque. Felizmente, todos os meus conhecidos estavam bem. Passei a maior parte do tempo diante da televisão a ver a CNN e a Sky News.

Das páginas de À Procura de Sana, este texto é publicado no Sound + Vision com a autorização do autor


Rita Rocha
(Agência Lusa)

O dia 11 de setembro de 2001 era só mais um dia na redação. A manhã foi calma e ainda deu para ir almoçar. Recebi um SMS urgente que dizia "um avião chocou contra uma torre gémea em Nova Iorque". E foi aí que começou o desenrolar dos acontecimentos. Trabalhava no Diário Digital e não se conheciam os limites da Internet. Só nesse dia se percebeu como o mundo a bloqueou. Todos queriam saber o que se passava. Desde a CNN, à BBC e ao nosso site, tudo ficou bloqueado. Era maior a procura que a oferta. Os servidores não aguentavam tanto pedido. E ao mesmo tempo que a segunda torre caía, a Internet crashou. Nesse dia, aprendeu-se a desenhar site minimalistas em segundos para continuar a disponibilizar a informação. E foi assim a tarde inteira. O coração nas mãos. Só no fim do dia me apercebi o que realmente estava a acontecer e a dimensão do atentado. Porque a minha maior urgência era conseguir que os leitores tivessem acesso às notícias.


Marina Almeida
(jornalista do DN)

Estava de férias numa ilha que não era deserta. Mas naquele dia, 11 de Setembro de 2001, senti-me no canto mais recôndito do mundo. Foi exactamente quando, ao fim do dia, liguei o telemóvel e recebi o sms: "o mundo está um caos. aviões contra wtc ny". Não percebi nada. Reli. Primeiro em voz baixa, depois em voz alta. Tinha passado o dia na praia, fora do mundo ("um dia de férias a sério", posso ter comentado com a amiga com quem estava). Quando vi o sms, por um segundo pensei que era uma brincadeira. Mas foi apenas um segundo. Seguiram-se outros sms. Foi quando precisei de saber do mundo, que mundo era aquele que estava lá fora, no outro lado daquele mesmo oceano. Procurámos respostas uma na outra mas não as tínhamos. Não tínhamos internet nem televisão. Talvez tenhamos ligado para Lisboa e alguém nos tenha dito o que se estava a passar há horas no mundo. Talvez, sim. Mas talvez tenhamos pensado que era exagero, que não era possível. Que tínhamos que ver. Descemos à sala de televisão do aparthotel. E ficámos uns bons minutos especadas a ver as imagens e a tentar perceber o que se passava. O dito aparthotel estava cheio de alemães e holandeses, que tinham a única televisão em canais que não conseguíamos ler. Apenas ver. Uma e outra vez. Aviões contra prédios, chamas, fumo, pó, pessoas a correr. E outra vez.
Estavam dezenas de pessoas na sala mas ninguém falava. Olhávamos, em silêncio, as imagens. Ouvíamos os sons. Entrámos e saímos em silêncio. Uma homilia à incredulidade.

O 11 de Setembro em três canções


Em sequência três entre as muitas canções que reflectiram sobre o 11 de Setembro. A primeira é Exodus Damage, de John Vanderslice. Tema do alinhamento do álbum Pixel Revolt, de 2005, refere concretamente na letra os acontecimentos de há dez anos. A segunda destas três canções é The Rising, o tema-título do álbum de 2002 de Bruce Springsteen (editada depois também no formato de single). A canção evoca a dada altura os acontecimentos do dia 11 de Setembro, na pele de um bombeiro que, sem visibilidade, sobe as escadas de uma das torres do World Trade Center. A fechar este trio, o tema On That Day, que Leonard Cohen gravou no álbum Dear Heather de 2004. Aqui reflecte não apenas sobre os acontecimentos de há dez anos mas também sobre o contexto em seu redor.

Podem escutar as três canções carregando nos links sob os títulos de cada uma neste post.

11 de Setembro - perspectivas (3)


Perspectivas sobre um dia que ninguém esqueceu para ler ao longo deste dia 11 de Setembro de 2011 no Sound + Vision. Dez anos depois recordamos, a várias vozes, memórias contadas na primeira pessoa... Aqui ficam três olhares, assinados por Fernanda Câncio, Inês Meneses e Luís Filipe Rodrigues.

Fernanda Câncio
(jornalista do DN e uma das autoras do blogue Jugular)

Estou no banco. O empregado diz: bateu um avião nas torres gémeas. Repito: um avião nas torres gémeas? Como? “Agora mesmo”, diz ele. Mas foi o quê? Encolhe os ombros. “Eles ainda não sabem.” Estou na rua, a chegar ao Rossio, quando um amigo me liga, a voz retesada. “Viste isto?” Sim, já sei, um avião bateu nas torres. “Agora bateu outro. É um atentado.” Paro, junto à Loja das Meias. Na rua Augusta faz sol, é hora de almoço, passeia-se, ainda é Verão. Nenhum rosto aflito ou sequer perplexo, nenhum eco disto: uma rua feliz. Na redacção onde trabalho, a da revista Notícias Magazine, à avenida da Liberdade, não há TV. Uma colega vai a casa buscar uma portátil. Ficamos ali, a ver as torres que ardem, a legenda que corre na CNN: América under attack. Ninguém sabe o que dizer – se tivéssemos de escrever sobre isto neste dia encontraríamos palavras, se vivêssemos em NY faríamos o que fosse preciso. Mas a revista é semanal e nós, inúteis, somos um eco de Conrad: o horror, o horror. A ferida é funda, mas não sabemos quanto. Só na manhã seguinte, quando ligo a TV, começo a chorar.

Inês Meneses
(radialista na Radar)

Tinha sido uma manhã de trabalho na TSF, e como fiz tantas vezes nessa altura, cheguei a casa e preparei-me para descansar. Liguei o rádio antes de adormecer e percebi que havia uma notícia de ‘explosão’ em Nova Iorque, mas a informação era escassa, e nessa altura estávamos longe de perceber o que se teria passado. Adormeci, e quando voltei a acordar, já era bem claro o que estava a acontecer em Nova Iorque - um estremeção que abalava o mundo. Levantei-me, liguei a televisão e fiquei paralisada. Depois a necessidade de falar com alguém e partilhar uma sensação de medo e de um irreal que não conhecíamos. Lembro-me que nesse dia chegaram uns amigos de longe, e do jantar ter sido a partilha de tudo o que tínhamos visto e de como não sabíamos ainda lidar com o facto. Não sabíamos nós, nem o resto do mundo. Durante o jantar, alguém disse “acho que não vou ser capaz de continuar a viver como vivi até agora”. Na verdade reaprendemos tudo, mas a imagem da destruição das Torres Gémeas permanece tão nítida na minha cabeça, como se tivesse sido ontem. Nítida e ao mesmo tempo como se pertencesse ao universo dos filmes.



Luís Filipe Rodrigues
(jornalista da Time Out)

Estava de férias, mas por acaso não estava na piscina. Estava a jogar Championship Manager (o 00/01, presumo), mas por acaso tinha a televisão ligada (na RTP1, creio). Quando o pivô disse que um avião tinha batido numa torre pensei uma asneira. Quando vi, em directo, o segundo avião comer a segunda torre, pensei duas ou três asneiras. Não mudei mais de canal, mas também não abdiquei do inútil gozo de jogar um bom jogo de CM, como os persas daquele poema do Ricardo Reis. Lembro-me que, naquele dia, a América mudou e um homenzinho incompetente, filho de outro tão mau mas mais competente, entrou para a história. Lembro-me que, naquele dia, o Zidane foi o homem do jogo quando a minha Juve ganhou a Liga dos Campeões.
Passei o dia de pijama.

A visão de Steve Reich


Uma peça de Steve Reich que evoca os dez anos do 11 de Setembro de 2001, surge aqui em gravação pelo Kronos Quartet. A WTC 9/11 juntam-se ainda as mais canónicas Mallet Music e Dance Patterns. A edição é assegurada pela Nonesuch Records. 

Não é a primeira vez que Steve Reiche reflecte, através da música, sobre os grandes acontecimentos no mundo ao seu redor. Fê-lo, por exemplo, em Different Trains, obra que cruzava memórias dos dias em que viajava de comboio entre pais separados, da costa Leste para a Costa Oeste, numa mesma altura em que, no Leste europeu, muitos outros da sua idade eram conduzidos, a bordo de outros comboios, diferentes, das suas casas para os campos de extermínio. Mais tarde, através de Three Tales, construiu um tríptico em torno de grandes calamidades criadas pelo avanço da ciência, passando pelo desastre do grande dirigível Hidenburg, as experiências atómicas no atol de Biklini ou a clonagem que gerou a ovelha dolly... Mais recente são as chamadas Daniel Variations, obra que homenageava a figura de Daniel Pearl, jornalista americano morto por terroristas em 2002... Não é por isso surpresa total a presença de uma obra que evoca o 11 de Setembro de 2001 na sua carteira de novos trabalhos. Encomendada por uma série de instituições, entre as quais o Barbican Centre, o Carnegie Hall, a Philharmonic Society of Orange County ou o National Endowment for The Arts, WTC 9/11 foi estreada em Março deste ano pelo Kronos Quartet, que agora surge na sua primeira gravação em disco. Com perto de 15 minutos de duração, a peça junta ao quarteto de cordas uma série de registos vocais, entre sons captados no próprio dia 11 de Setembro de 2001 e outros, resultantes de entrevistas gravadas pelo próprio compositor em 2010. Memórias reais, palavras, expressões, definem o tutano das memórias que a música envolve, ora imitando as falas ora encontrando o cenário que as arruma. De certa forma Steve Reich encontra aqui um patamar de absoluta maturidade de uma linguagem que começou a dar primeiros passos em peças de manipulação vocal em meados dos anos 60 e, mais tarde, assimilou as gravações de voz humana entre um quadro instrumental variado. WTC 9/11 é uma das mais interessantes das composições mais recentes de Steve Reich e mais uma expressão de uma capacidade da arte em reflectir o mundo presente, real e concreto que nos envolve. O disco nasceu com uma polémica lançada em seu redor por causa de uma capa original, que mostrava as Torres Gémeas durante o ataque... Retirada essa capa, o disco apresenta-se agora com a imagem que abre este post.

11 de Setembro - perspectivas (2)

Courtesy of the Prints and Photographs Division. Library of Congress

Perspectivas sobre um dia que ninguém esqueceu para ler ao longo deste dia 11 de Setembro de 2011 no Sound + Vision. Dez anos depois recordamos, a várias vozes, memórias contadas na primeira pessoa... Aqui ficam mais três olhares, assinados por Eduardo Pitta, Vitor Belanciano e Nuno Carvalho.


Eduardo Pitta
(escritor e autor do blogue Da Literatura)

Almoçava perto do Marquês quando o primeiro avião embateu contra a Torre Norte do WTC. O Jorge telefonou, achei a história mal contada, pedi profiteroles. Passados 15 minutos, novo telefonema: outro avião tinha chocado contra a Torre Sul. Estão a dar em directo! Remake pós-moderno da Guerra dos Mundos de Wells/Welles?
Corro para o metro. Entro em casa no momento exacto em que a televisão repete o segundo embate. Aviso o ministério de que estarei ausente nessa tarde. Saberemos mais tarde (sem direito a imagem) que o Pentágono foi atingido por um terceiro avião. E depois um quarto estatelado nos campos da Pensilvânia, no que parecia o flop de um ataque à Casa Branca.
Duas televisões: horror em directo e em quatro línguas. Telefones em uso até de madrugada. Tensão crescente. Bush a bordo do Air Force One. A América entrou em guerra? Internet ligada no HP. Amigos a dois quarteirões do desastre. Alprazolam e ovos mexidos. Catarse. Noite em branco.
Tinha começado o século XXI.


Vítor Belanciano
(jornalista do Público)

Tinha acabado de chegar à redacção do Público, vindo do almoço, quando se deu o segundo embate nas Torres Gémeas. Quando olhei para a TV tive a impressão que tantos outros tiveram: parecia um filme. Num segundo momento percebi que não era. Recordei-me que era para estar em Nova Iorque nesse dia por questões profissionais. Tentei telefonar a pessoas amigas que se encontravam na cidade. Só mais tarde viria a consegui-lo. No dia seguinte parti para Cabo Verde em trabalho. Durante dois dias não larguei a TV do hotel. Só mais tarde comecei a desenhar dentro de mim o mapa dos acontecimentos. Mais do que uma “guerra de civilizações”, o que descortinei foi um conflito no interior do próprio mundo Ocidental. Continuo a achar que o terrorismo islâmico resulta em grande parte de uma excrescência do capitalismo Ocidental, como Zizek mostra, comparando o Marlon Brando (Coronel Kurtz) de Apocalipse Now a Bin Laden. Continuo a achar que a utilização da força que se seguiu por parte dos EUA enfraqueceu a “liderança moral” do Ocidente. Continuo a achar que ainda não conseguimos extrair todas as consequências sobre o que aconteceu naquele dia.


Nuno Carvalho
(jornalista do DN e autor do blogue O Reino das Sombras)

Para a geração dos meus pais, cujo grande marco temporal foi o 25 de Abril de 1974, a pergunta sacramental era: “Onde estavas no 25 de Abril?” Para a geração a que pertenço, a dos nascidos depois dessa data, talvez o grande marco colectivo seja o 11 de Setembro de 2001. Assim, a pergunta sacramental para a “minha” geração seria: “Onde estavas no 11 de Setembro?” O meu dia 11 de Setembro de 2001 foi sintomático do meu espírito algo alheado do mundo dos factos reais: estive todo o dia na Biblioteca Nacional (tinha então 24 anos, estava há um ano no Diário de Notícias, mas nesse dia não estive na redacção, o que depois viria a lamentar, porque foi um dia único na vida do jornal), e só fiquei a par do que tinha acontecido quando, por volta das sete da tarde, ao regressar a casa, o Nuno [Galopim] me telefonou a contar o sucedido. Liguei a televisão, e as primeiras imagens que vi foram as do WTC a arder. Mas, nessa altura, as torres já tinham caído. Vi tudo “em diferido” (o que não deixa de ser uma boa metáfora para alguém que vive com um considerável delay em relação ao momento presente).

O 11 de Setembro em três filmes


O 11 de Setembro chegou ao grande ecrã. Devagar... Um dos primeiros exemplos chegou numa colecção de curtas-metragens reunidas sob um título comum. Estreado em Setembro de 2002, 11'09"01 September 11junta contribuições de vários realizadores, entre os quais Sean Penn (a terceira foto do bloco que abre o post refere-se ao seu segmento, que representa os EUA), Ken Loach, Amos Gitai, Samira Makhmalbaf, Mira nair ou Youssef Chahine. Em 2006 Oliver Stone focou em World Trade Center (primeira foto) a experiência claustrofóbica (baseada num caso verídico), de um polícia que ficou preso entre destroços após a derrocada das torres. Também de 2006, United 93, de Paul Greengrass, centra atenções no voo 93 que, após revolta dos passageiros, se despenhou na Pensilvânia, falhando assim o alvo pretendido.

11 de Setembro - perspectivas (1)


Perspectivas sobre um dia que ninguém esqueceu para ler ao longo deste dia 11 de Setembro de 2011 no Sound + Vision. Dez anos depois recordamos, a várias vozes, memórias contadas na primeira pessoa... Aqui ficam os três primeiros olhares, assinados por Mário Lopes, Flávio Gonçalves e John Gonçalves.



Mário Lopes
(jornalista do Público)

Um acordar sobressaltado, directamente para a frente da televisão: um prédio em chamas, entrecortado pelo praguejar nos vídeo amadores que captaram o embate. Um segundo avião, dois arranha-céus em chamas. Lembro-me da expressão “guerra em directo” (Iraque e Kuwait, 1991), e de como me soara estranha. A “guerra em directo” eram como imagens de jogo de computador. Intuíamos, sem certezas, que havia gente onde os clarões eclodiam. Aqui não havia guerra, mas víamos mesmo. Gente correndo até ser afogada pelo pó - “a segunda torre ruiu”, gritou o pivot. Nada parecia fazer sentido. Lá como cá: o que julgavam proteger dois polícias junto à embaixada americana em Lisboa, apontando pequenos revólveres aos céus. O mundo mudou nesse dia? Não creio. O tragédia, amplificada por proximidade cultural e pela tremenda transparência das imagens, trouxe caos e confusão mas, à distância de uma década, o seu impacto é simbólico. Permite que perguntemos: “Onde estavas?” E eu, que não acredito que o mundo tenha mudado nesse dia, respondo sem precisar de pensar.


Flávio Gonçalves
(jornalista do DN e autor do blogue O Sétimo Continente)

Tinha nove anos e relembro aquele dia a partir do momento em que regressava da casa da minha explicadora no carro do meu pai. Enquanto nos aproximávamos de casa, foi ele quem me contou que algo de muito grave tinha acontecido: um avião colidira contra um prédio. Antes de me contar melhor o que tinha sucedida, eu já olhava para o céu. E o facto de, depois, ter dito que tinha sido nos EUA não tranquilizou nenhum de nós. Quando cheguei a casa, a televisão estava ligada num canal de informação estrangeiro, as imagens repetiam-se, vezes sem conta, e eu olhava aquilo, perante a evidência de não se tinha tratado de um acidente, como se estivesse diante de um filme-catástrofe.


John Gonçalves
(músico dos The Gift)

Apesar de já considerar New York "a minha cidade" a 11 de Setembro de 2001, foi nesta ultima década que a tomei como minha. Para mim o importante da data não são as torres a cair, mas o momento imediatamente a seguir a essa queda.
Enquanto alguma América jurava vinganças e arranjava bodes expiatórios para mais uma guerra, a senhora "New York" - sim gosto de pensar na cidade no feminino - ergueu-se dando uma lição de modernidade, de solidariedade, de humildade, de estilo e de um levantar de cabeça apenas ao alcance dos Grandes. A cidade chorou, secou as lágrimas, sorriu e encheu de beijos e abraços quem tinha que os levar, deu música, esperança e a alegria possível, incluiu quem talvez mais precisasse de inclusão provando que uma metrópole cosmopolita é aberta, liberal, não generaliza e sabe levantar-se de todos os pesadelos, sem juízos de valor.
Quem já passou por New York sentiu nesse dia a cidade débil, fraca e ferida, mas também sabia que lambidas as feridas, New York seguiria o seu caminho, como fez e bem…Tenho pena de não ter estado aí nesse importante dia para receber in loco uma lição de vida da cidade que adoro. Especialmente se chegasse depois das 9:11am…

Recordar o 11 de Setembro
pelas 17.30 na Fnac Vasco da Gama

National Park Service
Hoje, assinalando os dez anos sobre os ataques de 11 de Setembro de 2001, o Sound + Vision apresenta uma edição especial do Sound + Vision Magazine pelas 17.30 na Fnac Vasco da Gama. Os filmes, os discos, os livros... Mas também as memórias de cada um.

Dez anos depois

Courtesy of the Prints and Photographs Division. Library of Congress

Lembro-me da cicatriz que o chão ainda mostrava quando ali regressei pela primeira vez depois do dia que tinha levado o mundo a olhar para as duas torres que moravam quase no topo sul de Manhattan. Era um enorme buraco, paredes tapadas a betão, rampas do chão até lá mais abaixo. Em volta um gradeamento, com a história daquele dia contada entre palavras e imagens. Para não esquecer.

Lembro-me também de, anos antes, ter subido ao observatório no 107º andar de uma das duas torres. Sem sequer imaginar que um dia aquele lugar mais alto da cidade seria apenas memória. Lembro-me até de ter bebido uma bebida, daquelas em lata, glub, glub, glub, a matar a sede a contra-relógio antes de entrar para o elevador para descer à superfície. E de ter sentido um mal estar no estômago após a rápida viagem de mais de 100 andares... A inércia, o conceito que se ensina nas aulas de física e parece coisa abstracta, tinha ali uma demonstração bem real... E, além das fotografias, dos olhares lançados à distância, é a única memória que guardo dessa única vez que subi as Torres Gémeas...

2001...

Era hora de almoço. Bom, num jornal diário as “horas” de almoço variam consoante os hábitos (e o trabalho). Era por isso hora de almoço para muitos, mas na redacção do DN ainda se fechava a manhã, preparando a tarde de trabalho. Alguém chama atenção para um dos vários ecrãs de televisão espalhados pela sala. Que acidente mais impossível de imaginar... Como é que um avião vai embater com um prédio? Sobretudo com o rio ali ao lado... A verdade é que, incrédulos, olhávamos para as torres do World Trade Center... E é nesse momento que lembro as primeiras palavras a falar de terrorismo. Ao meu lado o Eurico [de Barros] dizia “isto não foi um acidente”... O segundo avião que, em directo, vimos pouco tempo depois a embater na outra torre deu-lhe imediata razão.

Mal se almoçou... Vivemos o dia colado aos ecrãs, o jornal inteiro deu uma reviravolta, houve sites que reduziram a existência a uma home page onde nada mais se informava senão as últimas notícias de Nova Iorque, de um terceiro avião que caíra em Washington, mais um quarto que se despenhara na Pensilvânia... Mal houve tempo para fazer silêncio e pensar. Na verdade só dei por mim, já sem a necessidade de olhar para o relógio na manhã seguinte, o jornal já impresso nas mãos. E, na primeira página uma única palavra: “guerra”.




Fotos N.G.


Este ano voltei ao “ground zero”. Onde havia apenas um vazio no chão agora vemos algo novo a nascer. Há edifícios a crescer, alguns já com valentes andares acima do chão... A história do que aconteceu há dez anos não se conta mais em volta da obra, mas num espaço ali em volta. Ainda há quem pare para olhar. Mas, e tal como uma ferida, a cidade recuperou. Não esqueceu. Mas refez-se. E vive de novo.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Dez anos depois


Este domingo passam 10 anos sobre o 11 de Setembro. O Sound + Vision apresenta nesse dia uma sessão especial do Sound + Vision Magazine na Fnac Vasco da Gama, em Lisboa, pelas 17.30, evocando através de filmes, discos e livros, os dez anos de um dia que ninguém esqueceu.

Ao mesmo tempo, por aqui, poderão ler memórias de vários amigos que aceitaram o desafio do Sound + Vision para, ao longo deste 11 de Setembro de 2011, recordarem o dia que viveram há dez anos.