domingo, agosto 31, 2008

Ricky Gervais à conquista da América

Ricky Gervais, brilhantíssimo criador/produtor/actor das magníficas séries The Office e Extras, está mesmo empenhado em construir carreira no cinema americano. Quase a estrear nas salas dos EUA, tem a longa-metragem Ghost Town, realizada por David Koepp (argumentista, entre muitos outros títulos, de Sala de Pânico e Guerra dos Mundos). É a história bizarra de um homem que, na sequência de um exame hospitalar, adquire a capacidade de ver... pessoas mortas. Também com Greg Kinnear e Téa Leoni, o filme parece apostar num desconcertante registo de fantástico & burlesco — fica, para já, o trailer.

O verdadeiro romance de Philippe Sollers

>>> Alguém que mais tarde dirá eu entrou no mundo humano no sábado 28 de Novembro de 1936, ao meio-dia, nos arredores mais próximos de Bordéus, perto do caminho para Espanha. Não tenho nenhuma razão para duvidar disso.<<<

Assim começa este livro prodigioso que dá pelo nome de Un Vrai Roman (Plon, 2007) — verdadeiro porque, como assinala o subtítulo, se tratar de coligir as "memórias" do próprio autor; romance porque se celebra a literatura como a respiração mais pura do próprio real e, justamente, da sua verdade, enquanto verdade-que-passa-pela-escrita.
Philippe Sollers — que gosta de se definir como "um escritor europeu de origem francesa" — deambula, aqui, das suas origens burguesas à descoberta do universo polimorfo das mulheres (Femmes é um dos seus romances mais conhecidos), das lições de Joyce e Freud às contradições do mundo mediático em que vivemos. Tudo regressando ciclicamente a Mozart. É uma celebração da liberdade que pode nascer da escrita, e com a escrita, um livro de relativização de todos os modelos tradicionais ("crónica", biografia", "romance"), afinal fiel a esse espírito de deriva, dúvida e interrogação de um autor que tem um livro que se chama Teoria das Excepções.
Precisamente sobre Un Vrai Roman, podemos ver, aqui, a participação de Philippe Sollers em Ça Balance à Paris, de Pierre Lescure, no canal Paris Première.

Arte comprada no eBay

Freddie Mercury esculpido com peças Lego?... É uma das obras que integram a exposição "Arte comprada online", patente na galeria Hayward, em Londres. O princípio é simples: expor obras adquiridas em leilão, durante um período de duas semanas de Agosto de 2008, no site britânico do eBay. Como se diz na apresentação da exposição, coordenada por Tom Morton: "As peças escolhidas reflectem a arte britânica 'escondida' — trabalhos que ocuparam, não o espaço público de uma galeria, mas as casas das pessoas, postos à venda no mercado democrático da Internet."
O leque de objectos vai de pinturas da época vitoriana até banda desenhada original, reflectindo de modo exuberante a transfiguração do espaço artístico, desde a produção à difusão. As obras compradas passarão a integrar o património da Hayward — a exposição termina a 28 de Setembro.

O combate dos chefes

"The Loneliest Job In The World"
George Tames, 1961


A 4 de Novembro os norte-americanos vão escolher o sucessor de George W Bush na Casa Branca. A eleição é claramente um dos acontecimentos do ano e entra agora na verdadeira contagem decrescente. Depois da convenção democrata, chega agora a republicana. Obama e McCain são os dois principais rostos de uma das mais disputadas e mediatizadas eleições de sempre. O Sound + Vision vai aproveitar as semanas de contagem decrescente para aqui recordar histórias, figuras e imagens das eleições americanas desde aquela que, em 1960, elegeu John F Kennedy. Regularmente aqui apresentaremos também as mais recentes sondagens (nacionais e para o Colégio Eleitoral)... Como aperitivo para a história, fica a imagem histórica de Kennedy na Casa Branca, publicada pelo New York Times em 1961.
.


Última sondagem nacional (Gallup, 31 de Agosto):
Barack Obama: 48%
John McCain: 42%

Os valores reflectem já os efeitos do discurso de aceitação de Obama, mas também a escolha de Sarah Palin para vice de McCain. Resta ver se, esta semana, a convenção republicana consegue alterar esta tendência.

Segundo o site Real Clean Politics, a soma de sondagens por estado dá, neste momento, vitória nacional a Barack Obama com 273 grandes eleitores no Colégio Eleitoral contra 265 de John McCain. Recorde-se que a eleição presidencial nos EUA não resulta do total nacional de votos, mas sim de um Colégio Eleitoral que representa os estados. Cada estado elege um número de grandes eleitores, reflectindo este número a sua população. A Califórnia é o estado com maior número de eleitores no Colégio Eleitoral, somando um total de 55. Segue-se o Texas, com 34 e Nova Iorque, com 31. Em 48 dos estados o vencedor recolhe todos os seus grandes eleitores. Ou seja, o “perdedor” fica a zero.

Voltaire, segundo Bernstein

Clássicos do século XX - 1
"Candide", de Leonard Bernstein
1956 (versão definitiva de 1989)

Nova série de posts começa hoje no Sound + Vision, recuperando algumas obras-chave e grandes figuras da música do século XX. Primeira referência com o sublime Candide, de Leonard Bernstein, que se recomenda na versão “definitiva” de 1989, em gravação premiada pela Deutsche Grammophon, dirigida pelo próprio compositor, frente à London Symphony Orchestra, contando com as vozes de, entre outros, Jerry Hadley, June Anderson, Adolph Green, Christa Ludwig e Nicolai Gedda. Há uma edição (de 2004) com “preço reduzido” do CD duplo desta gravação, incluída na série Awards Collection, da Deutsche Grammophon.

Leonard Bernstein (1918-1990) era já um maestro aclamado e um compositor reconhecido quando, em 1956, apresentou Candide, um novo “musical” em Nova Iorque, baseado no texto homónimo de Voltaire... O teatro musical estava já longe de representar uma novidade na sua obra que, na altura, somava já os musicais On The Town (1944) e Wonderful Town (1953) e a ópera Trouble In Tahiti (1952). Candide, contudo, revelou-se, a principio, um caso um tanto complicado... Com libreto original de Lilian Hellman criticado como demasiado sério perante não apenas o texto original de Voltaire mas também a música de Bernstein, Candide dividiu opiniões aquando da sua estreia na Broadway. Apesar da opinião menos favorável de muitas críticas, a música de Candide revelou uma vez mais as capacidades de cruzamento de linguagens (e de comunicação) de Bernstein, tendo a Abertura sido tocada por mais de cem orquestras no ano seguinte...
Foram contudo precisos 33 anos e várias revisões (convocando muitas delas novas contribuições na reescrita do libreto), para que Bernstein encontrasse a desejada “versão definitiva” de Candide. O tom satírico do texto de Voltaire, inicialmente publicado em 1759 (e desde logo proibido em cidades como Paris ou Genebra e acrescentado ao índex do Vaticano), encontrou a adaptação mais fiel à sua identidade, ao mesmo tempo revelando o melhor de Bernstein como compositor atento às realidades sociais e políticas do seu tempo, não faltando citação subliminar aos “trabalhos” da comissão do senador McCarthy numa cena que tem a Lisboa pós-terramoto de 1755 por cenário.

A versão de 1989, que aceita adendas ao texto por figuras que vão de Stephen Sondheim e Dorothy Parker ao próprio Bernstein e à sua mulher Felícia, conheceu primeira gravação em Londres, em Dezembro de 1989, sob direcção do próprio Bernstein (com o mesmo elenco usado numa apresentação pública da qual nasceu a recente edição de um DVD). O carácter operático da revisão “definitiva” da obra levantou debate sobre como a definir, se opereta, se ópera, se ópera cómica... Na verdade é tudo isso, com tempero de sátira e melodrama, como sublinharia a crítica, claramente favorável, publicada em 1992 na Gramophone. Desde então houve já quatro produções internacionais de Candide, uma delas (na foto) assinalando em 2006, no Theatre do Chatelet em Paris, e depois no La Scala de Milão, os 50 anos da estreia da versão original na Broadway.



Excerto da leitura “definitiva” de Candide, na já referida apresentação ao vivo (em versão de concerto) em Londres, em 1989. Note-se o carácter informal da apresentação, na qual o tom de humor da obra musical é aceite pelo maestro e cantores em intervenções extra-programa. Aqui vemos Adolph Green lendo parte da narração, seguindo-se breve (hilariante) explicação por Bernstein sobre as origens de uma das menos “canónicas” rimas do libreto de Candide... Christa Ludwig canta, depois, o célebre I Am Easy Assimilated.

"O Padrinho" de novo nas salas... americanas

Rever O Padrinho em sala? Sim, mas nos EUA — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 de Agosto), com o título 'Revendo "O Padrinho"'.

Há poucas semanas, o mercado do DVD revelou uma preciosa novidade. Ou melhor: uma revisitação de um, aliás, três clássicos. Trata-se da reedição da trilogia O Padrinho (1972, 1974, 1990), em cópias restauradas, executadas sob supervisão de Francis Ford Coppola, Gordon Willis (director de fotografia), Walter Murch (sonoplasta) e Robert Harris (há alguns anos responsável pelo esplendoroso restauro de Lawrence da Arábia). Curiosamente, nos EUA, o acontecimento não vai ficar pelo DVD. A Paramount (estúdio produtor) prepara uma série de exibições de O Padrinho, para já em salas de Nova Iorque, Los Angeles e São Francisco. Quer isto dizer que, pelo menos no mercado americano, as relações entre o circuito tradicional do cinema e os novos suportes de comercialização dos filmes estão a ser equacionadas em todos os sentidos. É um bom exemplo, sobretudo para um mercado como o português em que grandes referências clássicas continuam a ser lançadas nas lojas sem o mínimo trabalho de divulgação. Exemplo? A Mulher Miraculosa (1931), de Frank Capra.

A IMAGEM: Robert Adams, 1970-74

Robert Adams
Sem título, Denver
1970-74

sábado, agosto 30, 2008

"Memento" reaparece em DVD

Antes de se envolver com a maquinaria dos blockbusters, Christopher Nolan era um autor de filmes de modestíssimo orçamento como Memento (custou 9 milhões de dólares, isto é, vinte vezes menos que O Cavaleiro das Trevas). O filme, datado de 2000, reaparece agora no mercado do DVD numa especialíssima edição que inclui, entre outros extras, uma entrevista com o realizador, a análise de uma sequência (num programa do Sundance Channel) e o texto do conto de Jonathan Nolan em que o filme se baseia.
É uma renovada viagem através das ambivalências do tempo e da percepção — recorde-se que o protagonista não consegue reter as memórias próximas daquilo que lhe acontece —, agora "completada" por um desses recursos bizarros que o DVD permite. Ou seja: a possibilidade de ver o filme por ordem cronológica. Por um lado, é um absurdo, no sentido em que "renega" a construção do original (como se alguém quisesse "arredondar" as arestas das Demoiselles d'Avignon...); por outro lado, confirma que, na idade do DVD, os filmes vivem numa espécie de esquizofrenia potencial que os transforma em fixações instáveis de uma matéria sempre em evolução — apesar de todo o fascínio que o processo envolve (ou talvez por causa desse fascínio), há nele, afinal, uma perda simbólica do próprio conceito de filme.

As cores de Michael Jackson

Os 50 anos de Michael Jackson suscitaram muitas memórias e reflexões, nomeadamente sobre as transfigurações do seu corpo e as suas imagens. Na sua trajectória criativa — e, em particular, na abordagem das imagens dos corpos —, o teledisco de Black or White [seis frames aqui em cima] é um momento emblemático — este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia daquele aniversário (29 de Agosto), com o título 'A preto e branco, com muitas cores'.

Não há maneira suave de o dizer: nas polémicas em torno da cor da pele de Michael Jackson há, quase sempre, uma questão rácica. E também um fantasma racista. Porquê uma questão rácica? Porque a sua “perda” de aparência negra tende a ser reprovada como negação da sua própria raça. Porquê um fantasma racista? Porque “mudar” de cor é, por vezes, interpretado como uma menorização simbólica, no limite política, da sua cor original.
Como sair deste labirinto? De facto, não se sai. Mais do que isso: por mais voltas que Jackson dê às suas imagens, às suas palavras ou até às suas declarações políticas, toda a sua história será sempre uma história contaminada por essa pergunta básica e perturbante: afinal, o que vale a cor da pele?
No dia em que Jackson completa 50 anos, podemos fazer-lhe a justiça de recordar o mais óbvio (que é também, no nosso imaginário mediático, o mais recalcado). A saber: que ele arriscou, como poucos, construir um edifício formal e um universo artístico em que a resposta àquela pergunta se dissolvesse numa irónica irrisão. Que vale, então, a cor da pele? A resposta é: nada. Ou ainda: tanto faz.
Claro que os mais precipitados verão sempre em tal resposta uma tentativa de negação ou, pelo menos, de cínica banalização da história dos negros dos EUA e de todas as convulsões que, de uma maneira ou de outra, nos remetem para as memórias brutais da escravatura. Poderíamos recordar, como contraponto, o discurso humanista da obra de Jackson (mesmo sabendo que a noção de humanismo é filosoficamente fraca no nosso presente). Mas talvez seja preciso sublinhar que Jackson construiu essa obra celebrando a indiferença da cor.
O seu lendário primeiro single do álbum Dangerous (1991) chama-se mesmo Black or White: não é sobre o confronto entre preto “e” branco, mas sim sobre a mutabilidade simbólica de preto “ou” branco. O teledisco de Black or White, porventura o filme mais perfeito do realizador John Landis, é disso a esplendorosa celebração. Recorrendo a algumas (então) pioneiras técnicas digitais, nele vemos uma série de rostos brancos, negros, de todas as cores, rostos esses que se vão literalmente fundindo uns nos outros, renascendo numa igualdade plena de diferenças.
Do ponto de vista técnico, Black or White é um sinal premonitório do tipo de fusões que o digital estava a instalar. No plano estético, funciona como apoteose de um conceito, afinal, inerente aos nossos tempos de tantas transfigurações: o nosso corpo não vale pela sua cor, porque existe como entidade aberta a todas as mutações. Tudo isso surge envolvido numa sensualidade que abraça todas as ambiguidades, sejam elas de cor ou género. Essa sensualidade, ou melhor, esse erotismo é uma coisa de exuberante colorido.

A pedalar desde 1983

Editado há 25 anos, no Verão de 1983, Tour De France começou por ter vida relativamente discreta (em comparação com os triunfos expressivos dos álbuns e singles editados pelos Kraftwerk entre 1974 e 1981). O tempo fez contudo desta canção um dos clássicos maiores da discografia do grupo alemão e é talvez o tema do seu catálogo que conheceu mais remisturas e edições distintas. Ao primeiro single, de 1983, juntou-se um segundo, com nova remistura por François Kevorkian, em Agosto de 1984, então editado como Tour De France (remix). Em 1999, a anteceder o álbum que assinalou o regresso aos inéditos do grupo após mais dez anos de silêncio, Tour de France conheceu novas versões, entre as quais remisturas editadas em single e ainda uma nova abordagem, quase na forma de suite em três partes, incluída depois no álbum. A canção, depois do tom sombrio do álbum Computer Love (1981), assinalava em 1983 um reencontro dos Kraftwerk com a celebração dos prazeres da vida, nomeadamente o gosto pelo ciclismo, partilhado entre os elementos da banda. São frequentes relatos da época que falam de passeios, de bicicleta, pelos quatro músicos, depois de um dia de trabalho nos seus estúdios em Dusseldorf. Tour de France é, na sua versão original, um single sem representação no alinhamento de um álbum. Na verdade, era uma das quatro canções previstas para o álbum (nunca editado) Techno Pop, no qual o grupo trabalhava desde 1982 mas que foi alvo de adiamentos e transformações, acabando as restantes três canções do lote inicial por surgir, em versões substancialmente diferentes, no álbum Electric Café, de 1986. Aqui fica a memória de Tour de France, numa remistura (pelos próprios Kraftwerk), de 1984.



Este é o teledisco original que acompanhava a canção nos singles de 1983 e 84, resgatando imagens de arquivo da Volta a França em Bicicleta. Este mesmo filme foi usado depois como pano de fundo à intepretação da versão original de Tour de France na mais recente digressão dos Kraftwerk.

sexta-feira, agosto 29, 2008

Violência dos blogs (8)

DAVID CRONENBERG Naked Lunch (1991)

[1] [2] [3] [4] [5] [6] [7]

Um dos efeitos mais bizarros da (equívoca) democratização dos blogs é a (ainda mais equívoca) proximidade. Nasceu, assim, o bloguista que julga que está no mesmo plano de qualquer um dos seus interlocutores — e isso, para ele, não só é evidente, como se lhe afigura incontestável.
Claro que há uma dimensão caricata em tudo isto. Podemos resumi-la através da figura do autor anónimo que se acha naturalmente vocacionado para tratar por "tu" seja quem for que esteja do outro lado. Aliás, a caricatura redobra quando se reage a isso e o mesmíssimo autor se revolta porque alguém o quer obrigar a tratar os outros com o "respeito" devido aos "doutores"... Enfim, tudo descamba rapidamente para o ridículo e o patético.
Obviamente, não se está a discutir o mero formalismo do tratamento — até porque nenhum tratamento traduz, por si só, uma qualquer forma de respeito ou solidariedade (sabemos como muitos "V. Exa." são intencionalmente aplicados para transportar um implícito insulto). Trata-se, isso sim, de perguntar: como lidamos com as diferenças do outro?
De facto, a democracia comunicacional não é o súbito milagre de estarmos todos no mesmo plano. É mesmo algo inverso: é algo que nos permite perceber que, apesar de estarmos sempre em planos diferentes (por formação, experiência e sensibilidade), talvez seja possível edificar uma plataforma onde, pelo menos, possamos contemplar as nossas diferenças com mais nitidez. Na esfera dos blogs, os escravos da ideologia dominante vêem/escrevem a diferença do outro como uma ameaça à sua diferença — há um medo de pensar que grita que o outro, pensando diferente, só pode pensar mal.
Na violência dos blogs, a diferença do outro ("tu", "você", "Sr.", seja o que for) é sempre intolerável. Mais do que isso: importa massacrá-la através das mais torpes palavras de difamação. Em nome de quê? Em nome da respeitabilidade de quem decide insultar... Serão impensáveis estes modos grosseiros de estar na Internet? Talvez, mas são reais, ou melhor, existem como uma genuína e monstruosa realidade virtual.

Michael Jackson: carnal e digital

A fotografia da esquerda é uma suposição digital sobre o modo como poderia ser Michael Jackson, agora, aos 50 anos. Quem propõe esta especulação é o jornal The Daily Mail, ilustrando um artigo de J. Randy Taraborrelli. Curiosa especulação, sem dúvida, porque no seu imediato e irrecusável fascínio, nos convida a avaliar alguém, já nem sequer através da sua imagem (o que seria, sempre, uma forma de simplificação), mas através da imagem que ele "devia" ter — aliás, o título do artigo é elucidativo: "Ao fazer 50 anos, é assim que Michael Jackson devia parecer?"
Podemos discutir infinitamente sobre o modo como Jackson tratou o seu próprio corpo. Podemos até lembrar que a história das suas imagens é inseparável da história da sua frágil saúde — que, aliás, Taraborrelli comenta em pormenor. O certo é que esta proposta visual pressupõe uma espécie de adoração unilateral, logo muito simplista, do poder das imagens. A saber: o que The Daily Mail sugere é que, em última instância, podemos sempre conhecer alguém através da sua imagem — no limite, através de uma imagem sem objecto, porque totalmente virtual.
Por amor das imagens, importa voltar a lembrar que nenhum ser humano — gostemos mais ou gostemos menos dele — existe de forma tão esquemática. Uma imagem é sempre parte de uma narrativa.

"Star Wars": cinema ou jogo de video?

Em termos de produção, A Guerra dos Clones é um jogo de video (primeira versão de 2002) e um filme (que antecipa uma série de televisão com o mesmo título) — ou será um jogo de video... mas também um filme? A pergunta remete, afinal, para o núcleo das grandes contradições da actual indústria de Hollywood — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 de Agosto), com o título 'Os bons, os maus e os clones'.

Para o melhor ou para o pior, muito cinema americano das últimas três décadas depende do conceito de blockbuster e dos seu dois “inventores”: Steven Spielberg e George Lucas. O primeiro, em 1975, com Tubarão conseguiu um inusitado êxito planetário e sistematizou as leis narrativas e comerciais do blockbuster. Em 1977, com o primeiro título de A Guerra das Estrelas, o segundo refez para a idade moderna o conceito primitivo de serial. Sintomaticamente, Spielberg e Lucas têm os seus nomes ligados através das aventuras de Indiana Jones, outra saga eminentemente popular.
Mais de trinta anos passados sobre o Star Wars original, o cartão de visita de Lucas é este desconcertante filme de animação que, com inevitável ironia, dá pelo nome de Star Wars – A Guerra dos Clones. Porquê desconcertante? Porque podemos verificar que este cinema de revisão dos modelos clássicos de ficção científica, e também de novos conceitos de merchandising e marketing, deslizou, lentamente, porventura metodicamente, para o novo país dos jogos de video.
A questão é pertinente, não porque o cinema esteja “interdito” de aceitar contaminações dos jogos de video. Bem pelo contrário: desde Minority Report (Spielberg, outra vez) até Speed Racer (o filme dos irmãos Wachowski também lançado este Verão), já se provou que a sua relação pode ser interessantíssima. Acontece que, por vezes, tal relação parece conduzir a uma bizarra estagnação do próprio cinema. Daí a surpresa: nesta guerra de “bons” e “maus” mais ou menos clonados, o desenho animado é reconduzido a um primitivismo técnico que não aguenta qualquer comparação com a sofisticação digital que domina o mercado (veja-se a excelência de WALL-E e compare-se...).
Daí também o impasse que aqui pressentimos. Dir-se-ia que Lucas produziu um longo “filme-anúncio” de um jogo de video, ao mesmo tempo simplificando o espírito de aventura que, muito justamente, encarnou. É um impasse que, afinal, lança algumas interrogações a todas as futuras opções de aventura da produção de Hollywood.

A primeira sinfonia de Obama

Não é por acaso que palavras como “histórico” ou “sinfonia” foram imediatamente aplicadas pelos comentadores da CNN, logo que Barack Obama terminou o seu espantoso discurso de aceitação de nomeação democrata para as presidenciais norte-americanas. Foi quase uma hora de palavra, com uma cadência que soube dosear ritmos e assuntos, como numa boa (longa) canção que se escuta e fica no ouvido sem esforço. Mas desta vez os refrões “change” e “yes we can”, que levantaram um coro de entusiastas durante as primárias deram lugar a uma exposição clara de um programa, sem meias tintas mesmo nas questões sociais menos unânimes. Obama não poupou ainda críticas à actual administração e mostrou, agressiva mas educadamente, à campanha de McCain (que descreveu como mais quatro anos do mesmo) que tem resposta sóbria e clara para as questões levantadas, da seriedade dos grandes temas da economia, saúde, educação, defesa e política externa às “acusações” recentemente levantadas pelos republicanos, umas falando de elitismo, outras do universo das celebridades... Obama virou magistralmente o jogo. Elitsmo, de facto, não mora ali. E, como deixou claro, as suas “celebridades” são as da família e do americano comum, a quem inteligentemente dedicou a candidatura. “Não é sobre mim, mas sobre todos vocês”, rematou... Pragmatismo, portanto, em vez de retórica. Inclusivo, ninguém ficando de fora... Foi um grande exemplo de capacidade de comunicação, frente a uma plateia de 84 mil lugares num estádio em Denver, no Colorado... Tinha o entusiasmo magnético de um acontecimento rock’n’roll. A inequívoca seriedade de um momento político. Mas a capacidade de falar claro, directo, sem recursos de estilo. Olhando em frente e não para trás... O modelo do político do século XXI tem já em Barack Obama um primeiro paradigma. O mais atípico e inesperado, talvez. Mas claramente uma força “real” de uma mudança que, como frisou, não chega de Washington... Chega a Washington. Pelo menos deixou claro que tem vontade e garra para lá chegar...

Pixies: novo álbum? (parte 523)

Frank Black (ou Black Francis, como quiserem) voltou a admitir a hipótese de gravar um novo álbum com os Pixies. As declarações foram feitas ao NME, deixando o músico bem claro que a decisão terá de partir de um entendimento entre a banda mas que, pelo seu lado, não vê mal na opção. Inclusivamente, frisa que tocar apenas temas antigos não faz mais sentido.

Uma colaboração com Chen Kaige

Discografia Duran Duran - 30
'Do You Believe In Shame' (single), 1989

A escolha de um terceiro single a retirar do alinhamento de Big Thing fugiu ao registo dançável dos anteriores I Don’t Want Your Love e All She Wants Is. Homenagem a alguns amigos recentemente desaparecidos, entre os quais Andy Warhol e o produtor Alex Sadkin, Do You Believe In Shame é um exemplo da face pop tranquila, mas de construção claramente texturalmente mais elaborada, do álbum de 1988. A canção levantou um caso legal que clamava pela enorme proximidade com o clássico Suzie Q, de Dale Hawkins, célebre na gravação dos Creedence Clearwater Revival, ao que o grupo respondeu ser apenas um acaso, apontando a melodia como fruto de uma simples progressão característica dos blues... O single chegou a tempo de promover uma nova digressão, mas nada mais fez que cimentar o evidente momento de queda de popularidade do grupo. Atingiu apenas o número 30 no Reino Unido e não foi acima do número 72 nos EUA... Isto apesar da edição no formato de triplo single em vinil, com uma série de lados B, entre os quais uma versão ao vivo de Notorious, uma mistura de Drug (It’s Just A State Of Mind), o Krush Brothers LSD Edit (com The Edge Of América e Lake Shore Drive, desta última canção nascendo as iniciais LSD do título) e dois poemas em registo Spoken Word, lidos por Simon Le Bon: God (London) e This Is How A Road Gets Made, depois usados como separadores na digressão. A maior surpresa do single talvez resida no facto da banda ter desafiado o realizador chinês Chen Kaige a dirigir o respectivo teledisco.



Realizado por Chen Kaige, quatro anos antes de se tornar globalmente reconhecido, em Cannes, com Adeus Minha Concubina, o teledisco de Do You Believe In Shame tenta recuperar o carácter mais “cinematográfico” dos telediscos de 1982 e 83. Filmado em Nova Iorque, mostra os elementos do grupo em várias situações, tentando seguir sugestões da canção e das figuras que a inspiraram.

Happy birthday, Michael!

É uma ironia do calendário que vale a pena sublinhar: Madonna nasceu a 16 de Agosto de 1958; Michael Jackson apenas treze dias mais tarde, a 29. Hoje, dia do 50º aniversário de Michael, há uma espécie de cumplicidade mágica que se cristaliza: sem eles, sem a sua música e o seu sentido de espectáculo, sem a sexualidade dela e o erotismo dele, não é possível fazer a história da música pop no século XX. Aliás, em boa verdade, não é possível fazer a história do século XX. Ponto.
Para além das sombras e fantasmas da história pessoal de Michael Jackson (que não é, por certo, nem simples nem idílica), muito para além das vulgaridades mediáticas que sobre ele se abateram, o seu trabalho criou uma persona artística em que a sensualidade da música e a teatralidade das imagens não são alheias a alguma dimensão de sagrado. É esse o fascínio — e também o medo — que podemos descobrir e contemplar nestas regiões mais recônditas do país da pop.
A data justifica, por isso, que celebremos a vitalidade da herança musical e iconográfica de Michael Jackson, por exemplo através do clip promocional do álbum HIStory: Past, Present and Future, Book I (1995). Eis um exemplo metódico do modo como a star pode ser essa entidade devoradora de todas as linguagens, integrando as linhas gerais do imaginário político e da sedução religiosa. Tenham medo.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Madame Françoise Hardy

Cantora da juventude dos anos 60, símbolo do "yeh-yeh", ícone da pop — com uma imensa discografia iniciada em 1962 com o álbum Oh Oh Chéri, Françoise Hardy (nascida em Paris, em 1944) é um dos tesouros da canção popular francesa, senhora de um romantismo contido, sempre um passo antes das facilidades do desespero. Para voltar a ouvir ou para começar a descobrir, esta antologia, da série "100 Chansons" (Sony/BMG), vai desde os tempos heróicos dos primeiros sucessos (Tous les Garçons et les Filles, L'Amitié, Des Ronds dans l'Eau, etc.) até temas do álbum de 2006, Parenthèses.
Neste registo de 1969, Françoise Hardy interpreta um original alemão, Träume — no ano 2000, o realizador francês François Ozon utilizou a sua versão desta canção na banda sonora de Gouttes d'Eaux sur Pierres Brûlantes, adaptação de uma peça de Rainer Werner Fassbinder.

A aventura fora de moda

O cartaz remete-nos para uma certa nostalgia das aventuras juvenis — e não é por acaso: em época de efeitos especiais promovidos à condição de "tema" do próprio espectáculo, A Ilha de Nim, realizado por Jennifer Flackett e Mark Levin, apresenta-se como uma fábula "antiga" sobre o amor pela natureza e a construção de relações sinceras. Serenamente fora de moda, o filme é-o ainda pelas suas heroínas: Abigail Breslin e Jodie Foster interpretam, respectivamente, a Nim do título, que vive com o pai (Gerard Butler) numa ilha paradisíaca, e uma escritora de romances de aventura inesperadamente posta à prova da própria... aventura. Com alguma ironia, A Ilha de Nim faz lembrar as aventuras mais ou menos rocambolescas produzidas pelos estúdios Disney nos anos 60/70, precisamente o tipo de filmes em que se iniciou a carreira de Jodie Foster.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Televisão / cultura / futebol

Há um velho estilo insultuoso de lidar com a crítica de televisão que diz, literalmente, que os críticos queriam era que só se passasse "bailado e ópera"... Porquê insultuoso? Porque para além de nunca ninguém ter escrito tal disparate, insulta-se o próprio conceito de crítica — ou seja, a vontade de pensar o que acontece à nossa volta (o pensamento, como é óbvio, pode ser desinteressante, mesmo medíocre, mas essa vontade é eminentemente respeitável em qualquer cidadão, crítico ou não).
Nem que seja por defesa irónica, apetece dizer que chegámos a um ponto em que as televisões programam futebol e... futebol. De facto, a avalancha futebolística a que estamos a assistir favorece o triunfo de uma cultura do esquecimento. Esquecimento de quê? De tudo o que não goza da mesma evidência, desde as coisas mais óbvias (o cinema) às mais remotas (os torneios de bilhar às três tabelas, o ensino do violino ou os livros de Slavoj Zizek).
... Mas eu até gosto de futebol — diz-se, normalmente, nestas ocasiões. Mas não é isso que está em causa (mesmo gostando eu, muito, de futebol). O que está em causa é o afunilamento da nossa cultura audiovisual. Cultura? Sim, claro. Sendo a cultura a vida dos valores, não há nada mais cultural do que a televisão e as suas escolhas. Hoje em dia, o mais forte poder cultural não está nos ministérios nem nas instituições ditas culturais — está nas televisões. E programar é um acto cultural, por excelência.

Rock na esplanada da Cinemateca

No mês de Setembro, a Cinemateca retoma (e conclui, por este ano) as suas "Noites na esplanada" (sempre às 22h30), abrindo espaço à música rock e, mais especificamente, a esse "quase-género" que é o filme musical. A nova série de projecções inicia-se no dia 4, com Monterey Pop (1968), de D. A. Pennebaker, sobre o Festival de Monterey, incluindo entre outros Otis Redding, Janis Joplin e Jimi Hendrix. Entre as raridades a (re)descobrir estão: dia 5 — Stop Making Sense (1984), de Jonathan Demme, sobre um concerto dos Talking Heads; dia 18 — 200 Motels (1971), de e com Frank Zappa (Tony Palmer começou a realização, mas não concluíu); dia 19 — Let it Be (1970), de Michael Lyndsay-Hogg, acompanhando as gravações do álbum terminal dos Beatles, objecto maldito que conti-nua "previsto" para edição britânica em DVD.
Na programação de Setembro, a Cinemateca prossegue as comemorações dos seus 50 anos, projectando títulos marcantes na sua história (atenção a Trás-os-Montes, de António Reis e Margarida Cordeiro, dia 9, às 19h30). Concluem-se os ciclos 'Eram os anos 60' e 'Histórias de Nus'. Do restante calendário constam ainda, por exemplo, o assinalar do centenário de António Lopes Ribeiro e evocações de Cyd Charisse e Dino Risi.

terça-feira, agosto 26, 2008

"A Solidão": grande cinema espanhol

Que vai acontecer a este filme prodigioso? A Solidão/La Soledad, de Jaime Rosales, estava anunciado para o dia 4 de Setembro; hoje, chegou a notícia da mudança da estreia para 11. Esperemos que as vagas abruptas do mercado não o condenem a saltitar de data em data... Distinguido com três prémios Goya do cinema espanhol (incluindo o de melhor filme de 2007), esta é uma reinvenção fulgurante dos mais correntes pressupostos realistas para abordar o quotidiano de "gente-como-toda-a-gente" — a cíclica divisão do ecrã em scope é apenas um sinal (afinal muito sóbrio) de uma perturbante interioridade, enraizada num olhar paciente, metódico e cristalino. A sugestão, por isso, aqui fica desde já: atenção ao calendário das estreias...

Vasco Santana ou a publicidade dos anos 30

Embora com data incerta, eis uma cena que vem dos tempos de A Canção de Lisboa (1933) — o radiante agricultor deste fotograma é nada mais nada menos que Vasco Santana, protagonizando um anúncio aos adubos CUF.
A imagem pertence a um filme com oito minutos de duração, recentemente descoberto na Casa da Cultura do Barreiro (que, em tempos, funcionou como sala de cinema). Restaurada pelo ANIM/Cinemateca, esta referência pioneira da publicidade em Portugal poderá ser vista, a partir de 10 de Outubro, na exposição 'Cem Anos da CUF no Barreiro', no Museu Industrial da mesma localidade.

Ser ou não ser... Tiffany Claus

Cruel frivolidade dos tempos — cultivar já não a aparência da estrela, mas transformar o seu ser nessa aparência. Convocando todas as dimensões: visual, iconográfica, dramática. E instalando-nos no nada de tudo isso. Tiffany Claus é a ilustração viva (?) de uma nova profissão do império das imagens: a de se confundir com as imagens de outro(a).
Que é como quem diz: "sósia" de Angelina Jolie, Tiffany Claus passeia por filmes (p.ex.: Meet the Spartans/Uns Espartanos do Pior), programas de televisão (Tyra Banks Show, etc.) e muitas revistas a ilusão carnal de ser Angelina Jolie, nesse processo se desencarnando, e congelando o nosso olhar — somos espectadores do vazio do espectáculo, do entertainment feito buraco negro da sua própria apoteose. Nela contemplamos o cadáver do pós-modernismo: desmistificámos o ser, desmontámos as suas imagens, espalhamos a irrisão em nome do saber — e o olhar de Tiffany Claus devolve-nos o saldo de tudo isso: uma gélida solidão simbólica. Tem um site, claro, e aceita marcações.

Uma canção para o Verão (10)

Hoje fica uma memória da colheita de 67... Os Turtles foram uma das muitas bandas californianas a merecer exposição global por alturas do primeiro Summer Of Love. Apesar da longa carreira discográfica, originalmente com registos de 1965 a 70, depois reactivada em 1984, a banda acaba sistematicamente recordada pelo incontornável Happy Together, single de 1967, há alguns anos redescoberto por muitos na cena final do filme, com o mesmo título de Wong Kar-Wai. Aqui fica, em “filme promocional” (um antepassado do teledisco) de 1967...

Músicos por Obama

A convenção do Partido Demorcático norte-americano, que decorre desde ontem em Denver (no Colorado), chama, além dos políticos, muitas outras figuras à boca de cena. Não falta o empenhamento da comunidade musical, com actuações ao vivo por nomes que vão de Pharrell Williams aos Clap Your Hands Say Yeahm de Jakob Dylan aos Cold War Kids, dos Rage Against The Machine aos Nada Surf, entre muitos mais. Também em apoio a Barack Obama, Moby actuará em Denver como DJ na noite de hoje.

segunda-feira, agosto 25, 2008

Mia Wasikowska no país de Tim Burton

Tim Burton já encontrou a sua Alice — o realizador de Sweeney Todd escolheu a australiana Mia Wasikowska para protagonizar a sua versão do clássico de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Nascida em 1990, em Canberra, Wasikowska foi recentemente eleita como um das duas jovens actrizes a beneficiar de uma bolsa de estudos Heath Ledger (em homenagem ao actor australiano tragicamente falecido no passado mês de Janeiro). Os rumores de que o habitué de Burton, Johnny Depp, terá também um papel não foram, até agora, confirmados. Alice in Wonderland, que deverá combinar actores e imagens geradas por computador, é uma pro-dução dos estúdios Disney e tem o início da rodagem marcado para o próximo mês de Novembro — a estreia, nos EUA, está prevista para 19 de Março de 2010.
Embora com uma carreira ainda discreta, Mia Wasikowska vai por certo ser falada antes da saída do filme de Burton, uma vez que o seu nome figura no elenco de duas produções especialmente ambiciosas: Defiance, de Edward Zwick, com Daniel Craig, um drama da Segunda Guerra Mundial (com lançamento em Dezembro, nos EUA, a tempo dos Oscars), e Amelia, de Mira Nair, evocação da aviadora americana Amelia Earhart, com Hilary Swank (a estrear em Outubro de 2009).
Curiosamente, o anúncio da escolha de Mia Wasikowska foi feito a 25 de Agosto de 2008, dia do 50º aniversário de Tim Burton.

>>> A foto provém de um site de um fã: Mia Wasikowska online.
>>> Alice: texto integral em inglês.
>>> The Lewis Carroll Society.

67 fotografias de Pequim

Victoria Mitchell, atleta da Austrália, apresentou-se na prova de 3000 metros obstáculos, em Pequim, em deliciosa pose carregada de cores e símbolos. Esta é uma das 67 imagens dos fotógrafos da revista Sports Illustrated coligidas pela Time — um espectacular balanço visual dos 29º Jogos Olímpicos que vale a pena descobrir.

Audrey Hepburn era chinesa?

Como foi amplamente noticiado, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim uma criança cantou uma Ode à China em playback. Vale a pena regressar ao assunto, interrogando algumas formas automáticas de "politização" com que podemos deparar na Internet — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 de Agosto).

Entre as imagens ultimamente mais comentadas estão a que nos chegaram de Pequim, no dia 8 de Agosto, da abertura dos Jogos Olímpicos. Nelas surgiu a encantadora Lin Miaoke (9 anos) que cantou uma Ode à China. Aliás, ela não cantou, fez playback: a voz pertencia, de facto, a outra criança, Yang Peiyi (7 anos). Para a organização, a primeira tinha uma imagem mais adequada e, daí, a opção pelo playback.
Na imprensa de todo o mundo, com mais ou menos ironia, por vezes com alguma desilusão, a “troca” foi amplamente referida, embora sem empolar a sua dimensão muito particular. Não tem sido assim na Internet e, mais especificamente, no espaço dos blogs. Para muito boa gente, de todos os cantos do planeta, Lion Miaoke e Yang Peiyi foram mesmo as pobres vítimas dos métodos de uma terrível ditadura.
Confesso que não tenho gosto nenhum em brincar com as mais delicadas questões políticas e culturais. Assim, parece-me vergonhosamente gratuito, seja sob que pretexto for, reduzir a história secular do povo chinês e, em particular, as suas contribuições artísticas (incluindo, claro, no cinema contemporâneo) à imagem de um “rebanho” humano. Do mesmo modo, sou sensível à delicada questão da defesa dos direitos humanos na China (e, em particular, no Tibete), embora isso não me pareça legitimar uma visão de tão fascinante país a um governo “mau” de um lado e um povo “silencioso” do outro.
Não estou a caricaturar, pela simples razão de que é essa lógica grosseira que podemos encontrar em muitos espaços da Internet. Assim, insisto, o episódio de Pequim foi frequentemente referido a partir de um agressivo maniqueísmo: fazer playback seria o equi-valente dos mais tenebrosos métodos de repressão política.
Na verdade, as formas de ignorância favorecidas, e muito amplia-das, pela Internet podem ser assustadoras (sem que isso, obviamente, nos faça renegar as maravilhas da World Wide Web). Neste caso, estamos perante uma visão tão redutora, para além de moralista, que dispensa o conhecimento de toda a história do género musical ao longo do século XX, em particular na produção dos grandes estúdios de Hollywood. Basta ver o clássico Serenata à Chuva (1952) para ficar a saber que o playback, com todas as suas ambivalências técnicas e humanas, foi um elemento constituinte da própria gestação do musical.
Claro que ninguém quer menorizar a verdade artística de um corpo que canta com... a sua própria voz. Que diabo! Não vamos passar a dizer que Maria Callas, coitada, até tentava cantar... Acontece que os exemplos de play-back são desconcertantemente frequentes na história do espectáculo musical. Há mesmo o caso limite da cantora Marni Nixon que se “especializou” em tais tarefas. Entre os seus muitos e notáveis playbacks estão os de Natalie Wood, em West Side Story (1961), e Audrey Hepburn [foto em cima], em My Fair Lady (1964).
Lembram-se de My Fair Lady, a genial adaptação musical do Pigmalião, de Bernard Shaw, realizada por George Cukor? Tendo em conta que My Fair Lady, ainda por cima, ganhou oito Óscares (incluindo melhor filme), será que podemos deduzir que a democracia americana já foi uma sangrenta ditadura? Ou andamos todos enganados e, afinal, Audrey Hepburn era chinesa?

Nos 90 anos de Bernstein

Fosse vivo, Leonard Bernstein (1918-1990) completaria hoje os 90 anos. Norte-americano, de ascendência ucraniana, foi uma das mais destacadas figuras da música do século XX e teve importante carreira como mastro, compositor e também enquanto comunicador, aqui através da televisão, que dele fez um dos rostos globalmente mais reconhecidos da música clássica nas décadas de 50 a 70. Como maestro teve uma história de sucesso desde muito cedo, fazendo carreira em diversas grandes orquestras mundiais, sobretudo a Filarmónica de Nova Iorque, que comandou durante 12 anos. É reconhecido o papel determinante que teve na divulgação da obra sinfónica de Mahler, assim como na de grandes compositores americanos do século XX. Muitas vezes os feitos do comunicador televisivo e do maestro “que dançava” (o que incomodava alguma crítica mais sisuda) parecem ofuscar a importantíssima obra que nos deixou como compositor e que remonta a finais dos anos 30, estendendo-se até 1990. Pela sua obra, que escapou ao geometrismo atonal de muitos dos seus contemporâneos, passa uma consciência do lugar geográfico (e portanto cultural) em que viveu, nela encontrando-se a essência de uma identidade americana que, por um lado, aceitava a herança da tradição clássica ocidental (em particular procurando pistas nas sugestões de grandes mestres americanos como Coplan ou Ives), mas a ela juntava uma atenção pelo quotidiano onde nascia. Ou seja, reflectia uma vivência próxima com o jazz, a Broadway e até mesmo (pontualmente), a nova música pop. Deixou-nos três soberbas sinfonias. Uma série de magníficas peças para bailado. Musicais como On The Town, Wonderful Town ou West Side Story. A banda sonora de Há Lodo No Cais. As óperas Trouble In Tahiti e A Quiet Place. A espantosa Missa (uma reflexão sobre a relação do homem com a fé). E, obra-prima absoluta, a opereta cómica Candide que, estreada nos anos 50, foi alvo de revisões várias até conhecer a sua elegante forma final em 1989.
Pelo mundo fora os 90 anos de Bernstein traduzem-se em programas sinfónicos de homenagem, ora visitando a sua obra ora a dos compositores que mais abordou como maestro. A Filarmónica de Nova Iorque dedica-lhe a próxima temporada. A Naxos edita uma caixa de DVDs. Por cá... nicles!...
Nos 90 anos de Bernstein aqui propomos duas memórias com som e imagem...



A abertura de Candide, na sua versão de 1989, dirigida pelo próprio Bernstein em Londres. Note-se, apesar da idade avançada, o prazer do maestro enquanto dirige a sua música. E por vezes dança...



Reduzir Bernstein a West Side Story é uma injustiça para com toda uma obra que vai muito além deste momento de genial diálogo da tradição clássica com o jazz, a música latina e uma consciência da coexistência de culturas da cidade de Nova Iorque. West Side Story é, contudo, referência incontornável. E aqui fica Somewhere, uma das suas canções de referência, em versão pelos Pet Shop Boys.

Eleições made in USA

A frase promocional deste filme é, no mínimo, inquietante: "Na última década, desapareceram milhões de votos. Uma nação pode ser roubada sem armas ou tanques. Uma nação pode ser roubada voto a voto" — Stealing America: Vote By Vote é mais um reflexo da agitada história das mais recentes eleições presidenciais nos EUA. Dirigido por Dorothy Fadiman, com locução de Peter Coyote, o filme estreou no dia 1 de Agosto nas salas americanas e cumpriu uma carreira ultra-discreta. Seja como for, o trailer justifica algumas expectativas.

Lolita, século XXI

Em 1962, o cartaz de Lolitafilme dirigido por Stanley Kubrick, a partir do romance de Vladimir Nabokov — continha uma frase que se interrogava sobre o próprio facto do filme ter sido feito. Era uma maneira de perguntar, num misto de ironia e provocação, como é que, apesar de todos os escândalos gerados pelo livro, alguém se tinha atrevido a transformá-lo em objecto de cinema. Tendo em conta que Lolita era uma ninfeta de 14 anos (Sue Lyon, a intérprete, tinha 16) "apadrinhada" pelo muito respeitável prof. Humbert Humbert (James Mason), talvez possamos parafrasear as palavras do cartaz e perguntar, agora: como é que, aos 50 anos, Madonna se atreve a recuperar o look de Lolita?
É uma das muitas imagens que começaram a circular pela Net, dando conta do concerto de abertura, em Cardiff, da Sticky & Sweet Tour. Surpresa? Nenhuma. Apenas a metódica aplicação de um modelo de trabalho que tem mais de um quarto de século. A saber: refazer as imagens dos outros, produzindo novas imagens. Ou ainda: reconverter o imaginário do entertainment, sujeitando-o a novas energias, a outras formas, por certo a diferentes significações. Kubrick teria gostado.

Jerry Finn (1969 - 2008)

Years of Refusal, álbum de Morrissey [capa disponível na Wikipedia] com lançamento previsto para Fevereiro de 2009, foi o derradeiro trabalho do produtor Jerry Finn. Vitimado por uma hemorragia cerebral no passado mês de Julho, Finn nunca mais recuperou a consciência; a família acabou por autorizar que fossem desligados os aparelhos que o mantinham vivo, vindo a falecer no dia 21 de Agosto — contava 39 anos.
Muito marcado por sonoridades de raiz punk, trabalhou, entre outros, com os AFI, Alkaline Trio, Blink-182, Green Day, Jawbreaker e The Offspring; mais recentemente, esteve ligado a álbuns dos +44 (When Your Heart Stops Beating, 2006) e Tiger Army (Music from Regions Beyond, 2007); colaborara com Morrissey em You Are the Quarry (2004).

>>> Notícia na Billboard.

[Jorge Marques: agradecemos o seu mail].

domingo, agosto 24, 2008

Londres - Pequim - Londres

Há casos perdidos. E, por vezes, importa reconhecer a derrota de to-dos nós face ao peso, ao hábito e ao simplismo do lugar-comum. E o lugar-comum televisivo é que escutar deixou de ser importante. E em vez da escuta temos o ruído.
Na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos, fazia-se zapping entre a RTP2 e o EuroSport e... Eu sei, eu sei: não tenho gosto nenhum em favorecer esse outro lugar-comum segundo o qual nas televisões é tudo "igual", e tudo igualmente "mau". E também sou sensível ao facto de não devermos menosprezar o esforço e o empenho daqueles canais em nos proporcionar tão magno es-pectáculo. Mas, que raio... já ninguém escuta?
Vêem-se atletas a entrar e uma voz diz-nos que os atletas estão a entrar... Vêem-se cantores a cantar e uma voz esclarece-nos que temos cantores a cantar... Vê-se fogo de artifício e uma voz informa-nos dessa imensa supresa que é o facto de estarmos a ver... fogo de artifício!!! Tudo isto significa medo. Medo de quê? Medo de deixar o acontecimento... acontecer. E de escutar, isto é, de saber aplicar o nosso próprio silêncio face à eloquência desse mesmo acontecimento.
Dito isto, registe-se o mais óbvio: para além do tenso pano de fundo político (que ninguém pretende esquecer nem simpli-ficar), a energia desportiva, devidamente combinada com os poderes do es-pectáculo, fizeram de Pequim 2008 um evento de enorme ressonância universal — a cerimónia de encerramento foi mais uma exemplar mise en scène de tal espírito. Fica, assim, o renovado apelo do desporto como factor criativo e "catalizador para a mudança". Esta expressão pertence a Sebastian Coe, antigo atleta e presidente do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de 2012 — vale a pena ler o seu artigo, hoje publicado no jornal The Observer.
A 30ª Olimpíada da era moderna inicia-se em Londres, a 27 de Julho de 2012.

Um caso de "pirataria" bem antes da pop

Usar boas ideias e estratégias para cativar uma plateia não é coisa que tenha nascido com a cultura pop. Veja-se um caso que nos remete à Londres do século XVIII. George Frideric Handel (1685-1759), alemão de nascença, e cidadão britânico depois de 1727, tinha já residência fixa em Londres desde 1712. Reconhecido na época como a principal força musical da Inglaterra de então, mas ciente da necessidade de apostar no trabalho e na opção pela novidade para não perder o estatuto, usou a sua reconhecida fama como grande organista em favor das apresentações ao vivo de novas obras, muitas delas oratórios. A fama de organista revelava-se contudo no programa complementar aos oratórios, na forma de uma série de concertos para órgão, nos quais ele mesmo se apresentava como solista, que, de facto, atraíram vastas plateias. Crê-se que a primeira vez que Handel usou esta estratégia para cativar público com um concerto para órgão complementar terá acontecido em Oxford, em 1733, quando estreou o oratório Esther. Dois anos depois, numa apresentação londrina do mesmo oratório, Handel fez bom uso da imprensa, anunciando nos jornais, que haveria um concerto como adenda ao programa principal. Resultado: casa cheia. E durante os dois anos seguintes, o compositor incluiu novos concertos para órgão nos intervalos de novas peças corais. O sucesso traduziu-se ainda num dos primeiros casos de “pirataria” da história da música. A 25 de Setembro de 1735 o London Daily Post publicava uma notícia na qual se dava conta da publicação, sem o consentimento do autor, e com incorrecções, dos concertos para órgão de Handel... A mesma notícia revelava que, com autorização (e revisão) do compositor, havia à venda, então, novas partituras das mesmas obras... É com base nestas partituras “legais” que a Academy Of Ancient Music, tendo como solista o organista Richard Egarr, preparou este disco que, agora editado pela Harmonia Mundi, recupera seis desses magníficos Concertos para órgão Op. 4, que Handel compôs na Inglaterra da década de 30 do século XVIII. Em todos eles fica clara a sugestão da necessidade do aprumo técnico do organista mas, não menos importante, a certeza do domínio da arte da orquestração em Handel.

Manny Farber (1917 - 2008)

My Budd
— pintura de Manny Farber, em homenagem a Budd Boetticher

A notícia foi caindo discreta (em alguns meios, atrasada), mas o certo é que o património histórico da crítica de cinema perdeu uma das suas referências míticas — no passado dia 18 de Agosto, faleceu Emanuel Farber, para a história Manny Farber, um dos mais singulares críticos que o século XX, afinal o século do cinema, conheceu. Tinha 91 anos.
Tendo estudado e praticado pintura — por vezes homenageando através dos seus quadros os seus cineastas de eleição —, Manny Farber foi criador de uma escrita em que a deambulação formal e artística resistia a todas as hierarquias consagradas. O seu distan-ciamento em relação a cineastas de "peso" (chamou-lhes mesmo "búfalos de água") como Orson Welles ou Alfred Hitchcock era contrabalançado por uma admiração militante por "artesãos" como Anthony Mann, Raoul Walsh ou Budd Boetticher e, de um modo geral, pelo espírito de série B.
Começou por escrever em The New Republic, tendo passado, entre outras publicações, pela Time, Art Forum, Film Culture e Film Comment. De Farber persiste, assim, uma herança plural que celebra, acima de tudo, o cinema como fenómeno específico, exuberante, sempre em aberto. O seu derradeiro texto data de 1977, foi publicado na Film Comment e tinha como objecto o trabalho da cineasta belga Chantal Ackerman. Uma antologia do seu trabalho existe editada, pela Da Capo Press, com o título Negative Space.

>>> Obituário em The New York Times.
>>> Manny Faber por
Paul Schrader.

sábado, agosto 23, 2008

Elogio do CinemaScope

O mercado do DVD continua a receber muitos títulos clássicos (ainda bem!), ajudando-nos a compreender que a pluralidade da história do cinema está muito para além do ruidoso lançamento do mais recente blockbuster — seja ele qual for, e mesmo que seja uma obra-prima... Ao mesmo tempo, esse mesmo mercado insiste em tratar muitos filmes "antigos" como carne para... as lojas, não fazendo o mais pequeno esforço para divulgar/valorizar/promover as suas preciosidades.
Eis mais uma, dessas que vão proliferando sem o mais pequeno trabalho de enquadra-mento histórico e comercial. Chama-se Um Estranho na Minha Vida — título original: Strangers When We Meet — e é um filme que reflecte de modo exemplar a preocupação dos estúdios de Hollywood, em finais dos anos 50, princípio de 60 (o filme é mesmo de 1960), de oferecer intrigas que, pela sua dimensão assumidamente adulta, se demar-cassem do crescente impacto do entertainment televisivo. Encontramos, aqui, sob a direcção de Richard Quine, o par Kirk Douglas/Kim Novak a interpretar uma história de adultério que, definitivamente, integrou um desencantado realismo social, dispensando os modelos tradicionais do "galã masculino" ou da "mulher fatal". Tudo isso, importa sublinhar, em feliz coexistência com o formato CinemaScope, também ele, pela sua amplitude visual e potencialidades dramáticas, comercializado (desde 1953) como um explícito desafio à pequenez do ecrã televisivo.

Olímpicos: ganhar e perder

Que fazem as televisões quando fabricam campeões "antecipados"? — eis uma pergunta cuja pertinência tem sido reforçada por alguns comporta-mentos mediáticos durante os Jogos Olímpicos de Pequim. Este texto foi escrito no dia do anúncio da demissão de Vicente Moura do cargo de presidente do Comité Olímpico de Portugal (terça-feira, 19) e publicado no Diário de Notícias (sexta-feira, 22), com o título 'Infantilismo olímpico'.

Analisa-se muito pouco a responsabilidade das televisões na criação de determinadas expectativas colectivas, em particular na área do desporto. Nos Jogos Olímpicos, por exemplo.
Não tenho problemas em acreditar que a maioria dos jornalistas das nossas televisões são pessoas sensatas e pragmáticas que sabem que, para um país de tão frágeis estruturas desportivas como Portugal, as vitórias olímpicas são sempre absolutas excepções. E, no entanto, qual tem sido o tom dominante dos noticiários? Em boa verdade, resume-se em dois tópicos. Primeiro: quantas medalhas podemos ganhar? Segundo: com a acumulação de derrotas, quantas medalhas ainda podemos ganhar?
Escrevo este texto na manhã de terça-feira, pouco depois de ter tomado conhecimento da comunicação de Vicente Moura, presidente do Comité Olímpico de Portugal, esclarecendo que não se vai recandidatar ao cargo. Porquê? Por causa da “desilusão” face aos resultados obtidos. Na verdade, vejo na candura de Vicente Moura um cruel sinal dos nossos tempos televisivos: no plano simbólico, ele é uma vítima incauta do triunfalismo irrealista com que o desporto passou a ser mediaticamente enquadrado. Nem mesmo os nossos governantes tentam contrariar tamanho infantilismo: no dia 14, Laurentino Dias (secretário de Estado do Desporto) veio mesmo dizer que esperava que a primeira semana dos Jogos fosse já “de grandes resultados”... mas ainda faltava uma semana!
Bizarro país desportivo, sem dúvida. Luís Filipe Scolari cometeu a proeza de não alterar minima-mente as estruturas da selecção portuguesa de futebol (em particular na articulação com as camadas mais jovens), acumulou sucessivos e previsíveis desaires desportivos (Euro 2004, Mundial 2006 e Euro 2008), acabando por ficar como o herói que encheu as janelas de bandeirinhas a apodrecer... Agora, até temos o impecável Francis Obikwelu a penitenciar-se: “Agradeço a todos, porque estiveram a ver-me na televisão, e peço desculpa. Eu estou a ganhar dinheiro porque o povo português está a pagar para eu estar aqui e não consegui chegar à final.” Deixe-se disso, Francis, foi bom vê-lo correr e não tem que pedir desculpa só porque os outros (também) são muito bons.

Ópera baseada em '1984' chega ao DVD

Poucos livros de ficção científica tiveram um impacte na cultura popular do século XX como 1984, o último romance de George Orwell, originalmente publicado em 1949. Retrato aterrador de vidas sob o jugo de um regime totalitário que mantinha os seus cidadãos "informados" por constantes comunicados de propaganda e, ao mesmo tempo, subjugados por sistemas de vigilância permanentes, 1984 foi tomado como referência para filmes, canções e até mesmo um formato de reality show televisivo, adoptando este o nome que Orwell criou para o líder do seu mundo distópico: o Big Brother...
Em 1974, David Bowie tentou criar uma primeira abordagem musical ao mundo e personagens do 1984 de Orwell. Porém, desencantada com a primeira adaptação do romance ao cinema (em 1956, com realização de Michael Anderson), a viúva do escritor não autorizou a adaptação. Apesar de ter já algumas canções escritas, o musical ficou na gaveta. Mas da ideia nasceria o álbum Diamong Dogs. Em 2005, coube ao maestro e compositor Lorin Maazel o desafio de transformar o romance de Orwell num espectáculo musical. Com libreto de J. D. McClatchy e Thomas Meehan, 1984 (a ópera) estreou-se em Londres, na Royal Opera House, em Maio de 2005. Maazel, que contava já 75 anos (e 50 de carreira) quando aceitou finalmente o desafio de compor 1984.

Maazel encontrou preciosa colaboração no realizador de cinema canadiano Robert Lepage, nome já com experiência na ópera tendo assinado, entre outras, as direcções artísticas de O Castelo de Barba Azul de Bartók ou A Danação de Fausto de Berlioz. Com um elenco onde se destacam o barítono Simon Keenlyside (no papel protagonista de Winston Smith), o tenor Richard Margison (como o vilão O'Brien), o soprano Nancy Gustafson (como Julia) e a voz de Jeremy Irons na leitura, em off, dos comunicados de propaganda, a ópera é um monumento de música e imagens. A encenação explora a omnipresença do olhar do Big Brother sobre um espaço opressivo pós-industrial, sombrio e intimidante. A espantosa música de Maazel, por sua vez, sublinha o fosso que separa o discurso oficial do poder, forte e implacável, que esmaga as vozes e sonhos do indivíduo. A Royal Opera House esgotou a lotação enquanto a produção esteve em cena. E o mesmo aconteceu, pouco depois, quando passou pelo palco do La Scala, em Milão. Agora, 1984 chega a DVD em imagens captadas em Covent Garden em 2005, num filme realizado por Brian Large. Como extra, uma contextualização da história.

No texto que acompanha o DVD, Lorin Maazel relata como a sua ópera nasceu de uma profunda admiração pelo texto de Orwell. O compositor confessa-se admirado pelo "génio" do escritor, mas também pelo carácter contemporâneo das temáticas sociais que o romance levanta. O tom de denúncia que o livro veicula, nomeadamente quando foca o subjugar do indivíduo perante uma ideologia e um poder absoluto, é claramente central na ópera que nasce da sua fiel adaptação. Das palavras, Maazel captou atmosferas que transformou em música, que, 59 anos depois, mantém vivo o "horror" de 1984. Originalmente publicado em 1949, o livro teve também já vida no pequeno e grande ecrãs. Uma primeira adaptação ao cinema em 1956 por Michael Anderson e uma segunda versão, para TV, em 1965, por Christopher Morahan, horrorizaram a viúva de Orwell. Já depois da sua morte, Michael Radford apresentou (em 1984) uma terceira e magnífica adaptação, com os principais papéis entregues a John Hurt e Richard Burton, com banda sonora assinada pelos Eurythmics.
PS. Versão editada de dois textos publicados no DN